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Análise

Talvez não seja Macron o maior problema da NATO

Quando falamos da importância da relação transatlântica num mundo cada vez menos ocidental, talvez seja tempo de começar a pensar de outra maneira.

1. Se nos limitássemos a ler a Declaração de Londres, subscrita pelos 29 líderes da Aliança Atlântica na quarta-feira passada, não ficaríamos muito preocupados com o estado geral da mais velha e mais resistente aliança militar de que há memória. O encontro não foi exactamente uma cimeira formal, foi uma reunião dos chefes de Estado e de Governo. A declaração não foi exactamente um comunicado final, foi essencialmente uma prova de vida de uma organização que completou este ano os 70 anos de idade. O Financial Times fez as contas às alianças militares ao longo dos últimos séculos para concluir que a sua média de vida é de 15 anos.

Na Declaração, a Aliança Atlântica compromete-se solenemente com o Artigo 5.º do Tratado de Washington, segundo o qual o ataque a um dos aliados é um ataque a todos. Vai continuar o seu esforço de adaptação a um ambiente estratégico que está em profunda mudança. Desde o fim da Guerra Fria, com os chamados dividendos da paz, nunca a sua capacidade militar foi tão grande. Aponta o dedo à Rússia: “As acções agressivas da Rússia constituem uma ameaça à segurança euro-atlântica.” Sem a definir como uma ameaça, considera que a “crescente influência da China e as suas politicas internacionais são, ao mesmo tempo, oportunidades e desafios” aos quais os aliados devem responder em conjunto. Mas avisa que a NATO e os aliados, nas suas respectivas competências, “estão determinados em garantir a segurança das suas comunicações, incluindo a rede 5G”.

Lida, a declaração é, apesar de tudo, um bom sinal.

2. Já do ambiente que envolveu o encontro e os dias que o precederam não se pode dizer o mesmo. Desde que Donald Trump foi eleito Presidente dos Estados Unidos que as cimeiras da NATO se transformaram num acontecimento no mínimo imprevisível. Desta vez, coube, no entanto, a outro Presidente o papel de “desestabilizador número um”. Quando Emmanuel Macron resolveu dar uma longa entrevista à Economist na qual apresentou a sua visão desapaixonada do estado do mundo e, sobretudo, do estado da Europa, sabia que as suas palavras fariam correr muita tinta. Uma pequena frase haveria de se transformar em manchete da imprensa ocidental: “Estrategicamente, a NATO está em morte cerebral.” Estrategicamente e não militarmente – uma nuance pouco sublinhada, mas que faz bastante diferença.

Militarmente, a organização continua a desenvolver as suas operações, com um elevado comprometimento de todos os seus membros, incluindo os EUA. É ao nível da sua unidade política e dos seus objectivos estratégicos que os problemas surgem. O primeiro dos quais não é de agora. Existe praticamente desde o fim da Guerra Fria, com a vitória do Ocidente sobre a União Soviética, graças em boa medida à força militar e à coesão da Aliança Atlântica.

Nos anos 1990, colocou-se muitas vezes a questão a sua continuidade, ou seja, do seu propósito, agora que a principal ameaça às democracias ocidentais tinha desaparecido. As intervenções nos Balcãs em 1996 e 1999 deram-lhe uma nova razão de ser, rompendo com o princípio segundo o qual, enquanto aliança defensiva, não poderia actuar fora da defesa do seu território. É dessa altura a célebre frase: “out of area or out of business.” Em 2001, com o 11 de Setembro, a NATO accionou pela primeira vez o Artigo 5.º. O “out of area” estendeu-se ao Afeganistão. Mergulhou de novo numa crise profunda com a decisão americana de invadir o Iraque. Conseguiu recompor-se mais depressa do que seria de prever.

Em 2014, quando a Rússia invadiu o Leste da Ucrânia e anexou a Crimeia, o sobressalto que provocou em Washington e na maioria das capitais europeias foi enorme. Obama percebeu que a sua viragem para o Pacífico não dispensava a defesa da frente europeia perante uma velha-nova potência revisionista, disposta a usar a força militar para alterar as fronteiras da Europa. A NATO reencontrou a sua missão original de defesa colectiva e actuou em conformidade, aumentando a sua presença nos Bálticos e na Polónia, com uma nova Iniciativa Europeia de Dissuasão, para levar Putin a pensar duas vezes antes de se lançar numa aventura contra um país membro da Aliança.

3. Desde Bill Clinton, passando por George W. Bush e por Obama, que a questão do financiamento da Aliança se coloca entre os aliados. De forma mais ou menos enfática, os sucessivos Presidentes americanos do pós-Guerra Fria insistiram sempre em que os europeus deviam partilhar com os EUA de forma mais equitativa o custo da sua própria defesa. Ainda soam as duras palavras de Robert Gates, secretário da Defesa do primeiro mandato de Obama, quando foi a Bruxelas despedir-se dos seus homólogos europeus, avisando-os de que viria o dia em que a opinião pública norte-americana se viraria contra a NATO, se não partilhassem os seus custos.

Mas também outra das questões que Emmanuel Macron levantou já se debatia nessa altura. O Presidente francês disse que os EUA estavam “a virar as costas” à Europa e que até compreendia que a sua preocupação maior fosse a China, lembrando que essa viragem para o Pacífico já vinha do tempo de Obama. Mas o que incomodou mais os aliados, incluindo o establishment americano da política externa, foi a conclusão que retirou desta constatação: que os europeus teriam, cada vez mais, de tratar da sua própria defesa.

O assunto é tabu e há razões para isso. Em primeiro lugar, a ideia de uma defesa própria da União Europeia é encarada por alguns aliados, entre os quais os próprios Estados Unidos, como uma forma disfarçada de minar a coesão da NATO. Depois, porque a Europa está ainda muito longe de poder garantir a sua própria defesa para poder dispensar os EUA. Foi isso mesmo que também disseram vários aliados europeus. Joschka Fischer, antigo chefe da Diplomacia alemã (1998-2005), defendeu Macron, dizendo que as suas palavras não podiam pura e simplesmente ser ignoradas. É verdade. A análise que faz do mundo e da Europa é muito dura, mas é em grande medida verdadeira e os problemas que levanta são pertinentes. Mas há sempre alguma desconfiança de que a velha tradição gaulista, com as suas reservas em relação à América e a sua visão de uma Europa do Atlântico aos Urais, venha ao de cima num país que é vital para a integração europeia e transatlântica. Com a saída do Reino Unido da União, que contrabalançava a tendência francesa com o seu tradicional papel de ponte entre as duas margens do Atlântico, pode desaparecer um importante factor de equilíbrio europeu que era particularmente relevante na área da segurança e defesa.

4. E depois há outros riscos no horizonte, talvez mais preocupantes do que as ideias de Macron. As democracias ocidentais vivem um momento de forte polarização política, que está agora a manifestar-se nos partidos de centro-esquerda com as sucessivas vitórias dos seus sectores mais radicais. O fenómeno é idêntico dos dois lados do Atlântico, como é visível nas “primárias” do Partido Democrata. No Reino Unido, Jeremy Corbyn encarna a versão mais à esquerda da longa história do trabalhismo, num regresso aos anos 70 e 80 que nos parecia impossível. O seu candidato preferido só poderia ser Bernie Sanders. Sempre se opôs à NATO e à União Europeia, numa versão “terceiro-mundista” que já não se via na Europa há bastante tempo.

O velho e sólido SPD acaba de eleger uma liderança bicéfala (pegou a moda) cujo pensamento corresponde à ala mais à esquerda do partido onde, tradicionalmente, impera uma forte corrente pacifista que pode alimentar a tentação (já manifestada noutras ocasiões) de exigir a retirada do armamento nuclear americano do território alemão. O novo líder do SPD já avisou o Governo de Merkel das suas intenções em matéria de defesa: “Desarmamento sim, upgrade não.”

Talvez Macron não seja mesmo o maior problema, quando falamos da importância da relação transatlântica num mundo cada vez menos ocidental. Peter Ricketts, embaixador britânico na NATO entre 2003 e 2006, escrevia no FT que a entrevista de Macron tinha sido “a voz de comando” para começar a pensar de outra maneira. Já passaram 30 anos sobre a queda do Muro que a Aliança venceu sem disparar um tiro.