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Opinião

O nacionalismo é uma doença infecciosa

O episódio do FPO, na Áustria, ajuda-nos a lembrar o que verdadeiramente está em causa nestas europeias: o avanço dos partidos nacionalistas e populistas.

1. Neste sábado, o vice-chanceler da Áustria e líder do partido de extrema-direita (FPO) que governa em coligação com os conservadores de Sebastian Kurz, viu-se obrigado a pedir a demissão porque se viu envolvido num escândalo de dimensões indesculpáveis. A história não poderia ser mais escabrosa. Envolve negócios com a nebulosa político-económica de Putin mais a tentativa de controlar a imprensa por essa via. Heinz-Christian Strache, o líder do FPO, considerou-se vítima de uma cabala destinada a derrubar coligação. Fez uma pequena concessão: reconheceu que tinha agido como “um adolescente”. O vídeo fatal data de Julho de 2017 e foi feito com uma câmara escondida numa luxuosa moradia em Ibiza poucos meses antes das eleições que levaram os conservadores de Kurz a formar uma coligação com a extrema-direita.

A representante de um oligarca russo mostra-se interessada em comprar o tablóide austríaco de maior circulação – o Krone Zeitung. Strache mostra-se disponível para facilitar o negócio e espera em contrapartida que, depois de algumas mudanças, o jornal possa ajudá-lo na campanha eleitoral. A imprensa de Viena fala do fim da coligação. O cabeça de lista do FPO para as europeias cancelou uma ida a Milão onde devia participar no lançamento oficial da aliança entre partidos nacionalistas, liderada pelo infatigável Matteo Salvini. Era intenção do vice-primeiro-ministro italiano apresentar uma imagem menos extremista no encontro de Milão para tornar mais credível a sua nova mensagem: mudar e Europa por dentro, em vez de destruí-la. Pode ser um revés para Salvini, mas é um revés muito maior para Sebastian Kurz, o jovem chanceler da Áustria (32 anos), alto, elegante, com um ligeiro ar de aristocrata habituado aos velhos salões vienenses, mas com fortes ambições europeias e também algumas ideias menos consensuais sobre o futuro da Europa.

2. Este episódio ajuda-nos a lembrar o que verdadeiramente está em causa nestas eleições: o avançar dos partidos nacionalistas e populistas que, como uma facilidade surpreendente, tomaram conta da agenda mediática, remetendo os seus principais adversários para a defensiva. Em Portugal, tirando uma ou outra chamada de atenção do primeiro-ministro e do líder da oposição, o assunto está completamente ausente da campanha, como se não nos dissesse respeito - apena como uma inadmissível intromissão da própria Igreja Católica ao dar “visto bom” a um pequeno partido que conseguiu transpor o primarismo e o populismo próprios dos meios futebolísticos para a política e cuja linguagem se assemelha ao discurso xenófobo que varre a Europa.

O jovem Kurz enfrenta provavelmente o seu maior teste político, desde que foi eleito em 2017. Não pode dizer que não é nada com ele nem deixar a coligação como está. Isso seria caucionar uma atitude que não é apenas ilegal mas que contém uma forte carga política. O chanceler austríaco também é conhecido pela sua tolerância em relação a Moscovo, defendendo por exemplo que já é altura de levantar as sanções económicas impostas à Rússia depois de ter invadido o Leste da Ucrânia e anexado a Crimeia. Putin ainda não cedeu um milímetro.

Um artigo publicado no site Politico-eu chama-lhe “O jogador”. Elogia a sua habilidade política, mas põe também em evidência as suas contradições ou, se se preferir, a sua hipocrisia. Numa entrevista a um jornal vienense, logo no início da campanha, Kurz dizia que o que mais falta faz à Europa “é uma mudança de geração” Ele, pelo menos, já lá está. Emmanuel Macron também, mas Kurz rejeita a visão “utópica” do Presidente francês. Acusa-o de prometer grandes reformas europeias e não fazer a mais simples: fechar de uma vez a sede do Parlamento Europeu em Estrasburgo, poupando esforço e dinheiro. Puro pragmatismo saudável? É mais complicado do que isso.

Vê-se como uma ponte entre a Europa Ocidental e os países da Europa Central que vivem uma crise das suas democracias e da sua relação com a União Europeia. A sua proposta mais ousada é a revisão do Tratado de Lisboa – da qual uma ampla maioria dos governos europeus nem quer ouvir falar. No actual quadro político, seria abrir uma caixa de Pandora da qual saíram todas as fracturas que hoje afligem a União, paralisando as decisões mais urgentes. Kurz argumenta que o Tratado de Lisboa, que entrou em vigor em 2009, precisa de ser renovado para se adequar “aos novos desafios que a Europa enfrenta”. “Desde que foi adoptado, tivemos uma crise da dívida, uma crise do euro, uma crise migratória, uma crise climática e o caos do ‘Brexit'”. A questão também se pode pôr ao contrário: qualquer desses desafios pode ser enfrentado com o actual tratado.

O único argumento novo do chanceler austríaco é o mais curioso de todos: defende medidas mais duras contra os países que infringem as regras do Estado de direito e da democracia ou contra aqueles que não aceitem as leis do asilo e da imigração. “Com os meus colegas europeus, estou a tentar garantir que a Europa continua a ter um forte centro político. Não precisamos da extrema-esquerda ou da extrema-direita, que querem destruir a Europa”. Para quem fala o chanceler da Áustria? Para si próprio?

As raízes do FPO remontam aos movimentos neonazis que perduraram ainda muitos anos depois da guerra. Strache fala tranquilamente na “estratégia de substituição”, uma conspiração destinada a substituir a maioria branca e cristã europeia por outra maioria que viria de fora, de origem muçulmana. Critica duramente a cultura irresponsável “de braços abertos” prosseguida por Merkel, Macron e Juncker. “Não queremos ser uma minoria na nossa própria pátria e isso é legítimo, honesto e profundamente democrático”. A teoria é tão absurda que é difícil levá-la a sério. O problema é que rende votos.

A ideia que parece atravessar todas as propostas de Sebastian Kurz é a da punição. “Em áreas em que as regras são importantes, como o cumprimento dos limites da dívida ou na política de imigração, elas têm de ser rigorosamente respeitadas e aplicadas. Os países que as infrinjam têm de ser sancionados”. A Áustria é um membro activo da chamada liga hansiática, capitaneada pela Holanda, que tem horror a qualquer reforma da zona euro que implique “transferências” para os “perdulários” e “indisciplinados” do sul, na velha lógica que presidiu à resposta à crise do euro. Não lhe faz confusão que o seu parceiro de coligação seja um amigo de Salvini. Concorda com Macron no controlo mais vigoroso das fronteiras europeias, mas discorda totalmente de qualquer referência a um pilar social da União, em face das grandes diferenças que se verificam na Europa “em matéria de riqueza e rendimento”.

3. A questão que se coloca agora ao jovem chanceler é se se vai “penalizar” a si próprio perante o comportamento do seu vice-chanceler. A ambiguidade que foi mantendo em torno do programa de governo esgota-se com a sua demissão e com as razões que a provocaram. Quando negociou com o FPO uma aliança de governo, Kurz apenas pôs de fora de as políticas europeias e a pertença do seu país à União e ao euro. O problema é que não é possível compartimentar o nacionalismo. Tentar fazê-lo envolve sempre um risco. Implica um contágio e algumas cedências. Terá de clarificar a sua política de alianças e a respectiva compatibilidade com o que defende em Bruxelas. Mantém uma excelente relação com a CSU bávara e com Manfred Weber, o candidato do PPE à Comissão, que pertence ao partido-irmão da CDU da chanceler. “Foi o Sebastian que me deu o sinal para avançar”, disse recentemente o político alemão. Elogia o “espírito jovem” e as “novas ideias” do seu amigo, apontando-o como um exemplo. A CSU, antes da sua recente derrota eleitoral, tentou constituir uma frente comum entre Munique, Viena e Budapeste. Não foi da responsabilidade de Weber, mas Weber não deixa de pertencer à CSU. Na Europa central, a “invasão otomana” é ainda vivida como um passado recente, tal como o desmembramento do Império e o caldeirão balcânico. Há afinidades. Que nos deviam lembrar que a Europa é uma comunidade unida, não pela história, não pela cultura, não por uma alegada civilização superior, mas por um modo de vida livre e igualitário e pelos valores políticos da liberdade, da democracia e da tolerância. Só assim terá futuro.

P.S. Ao final da tarde deste sábado, o chanceler austríaco, Sebastian Kurz, anunciou que não continuaria a coligação com o FPO e que pediu ao Presidente para convocar eleições antecipadas logo que possível.