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Morte de “herói nacional” deverá fortalecer regime iraniano

Os EUA tinham esperança de que os protestos no Irão levassem a uma mudança de regime. Mas o assassínio de Qassem Soleimani terá sido “o meio mais rápido de reunificar o apoio ao sistema político”.

Protestos contra o assassínio de Qassem Soleimani em Teerão Reuters

A morte de Qassem Soleimani pelos Estados Unidos deverá conseguir algo que o regime iraniano estava com dificuldade em fazer: unir uma maioria de cidadãos em seu apoio.

No Irão, Soleimani era visto como o garante da segurança nacional – apesar de ter sido também a sua mão que se sentiu na repressão dos protestos contra a reeleição do então Presidente Mahmoud Ahmadinejad em 2009, isso deverá ser, para já pelo menos, esquecido. “O assassínio de Qassem Soleimani deixou definitivamente muito zangados uma maioria de iranianos, independentemente de opções políticas”, sublinhou Ali Abkar Dareini, do Centro de Estudos Estratégicos de Teerão, à Al-Jazira. Para muitos, era um “herói nacional”, estatuto que só será fortalecido por ter sido morto pelos EUA.

Mas a estratégia que liderava não estava isenta de críticas. A economia iraniana está cada vez mais frágil - e foi aliás um corte num subsídio à compra de gasolina que aumentou substancialmente o seu preço o que levou aos mais recentes protestos no Irão. Estes foram mais fortes em zonas tradicionalmente conservadoras e por isso potencialmente mais perigosos para o regime, que fica com menos razões para dizer que se trata de manifestações orquestradas pelo estrangeiro.

A resposta do regime foi uma grande repressão - segundo a Amnistia Internacional, pelo menos 304 pessoas foram mortas - e o corte da internet para impedir mobilização.

São assim protestos de matriz diferente dos de 2009, a chamada “revolução verde”, a favor de um candidato reformista que perdeu umas eleições marcadas por fraude, ou ainda dos protestos estudantis de 1999, vistos como levados a cabo pelos sectores mais reformistas do regime, ou pedindo mais abertura. E apesar de serem de um sector mais perto do regime, “moveram a agulha mais perto da direcção anti-regime”, escreveram os analistas Afshon Ostovar e Henry Rome num texto publicado na Texas National Security Review do início de Dezembro. 

O apoio a milícias em vários locais da região é muito caro numa altura em que o país se debate com escassos recursos. Estes estavam especialmente parcos desde que Washington reintroduziu sanções ao Irão após a retirada dos EUA do acordo sobre o nuclear decidida por Donald Trump, e ameaçou penalizar empresas europeias se estas decidissem investir na República Islâmica. 

​E os protestos no Irão não acontecem desgarrados de uma rejeição maior do papel do país. A aposta nas milícias tem um problema: estas tendem a funcionar bem quando há insegurança e instabilidade, e funcionar mal quando participam no Governo. No Líbano e no Iraque, os protestos são, em parte, uma recusa de um sistema do qual o Irão é um dos actores – um sistema que já não é visto como servindo as pessoas, mas sim servindo-se a si mesmo.​

Qual será a reacção?

A força militar do Irão é, no entanto, tão grande quanto estas milícias que operam no exterior do país, que podem ser activadas para ataques maiores ou menores (as que são directamente comandadas por Soleimani) ou que podem decidir agir por si só (as que têm menos ligações). Grande parte da aura militar vem do sucesso do Hezbollah, em especial, o maior actor não estatal da região e que conseguiu uma reputação de poderio inédita ao levar, em 2006, Israel a uma guerra arrastada e em que o Estado hebraico não conseguiu declarar vitória. 

Mas Trofimov contrapõe: “Ao fim e ao cabo, o Irão é um poder médio com aviões e navios obsoletos, e sem aliados reais. A Rússia não teve problemas com Israel ter bombardeado instalações dos Guardas da Revolução na Síria [Moscovo e Teerão lutam ali lado a lado defendendo o regime de Assad], e a China não se quer envolver no Médio Oriente”. Por isso, “as coisas possam tornar-se difíceis, mas isto não é Sarajevo e não vai haver uma III Guerra Mundial já”, previu, contrariando a comparação que tem sido feita com o assassínio em Sarajevo do arquiduque Francisco Fernando, que iniciou uma cadeia de eventos que levou à I Guerra.

Ninguém arrisca prever o que fará o Irão para responder à morte de uma figura que era considerada por muitos a segunda mais poderosa do país, uma mistura entre ministro dos Negócios Estrangeiros e chefe da CIA, ainda por cima numa organização, os Guardas da Revolução, detentora de um vasto poderio económico.

Vários analistas desfilam hipóteses mais ou menos rápidas, mais ligadas ao programa nuclear iraniano, que possa acelerar o prazo expectável de o país chegar à bomba atómica, ao Iraque (o fim da presença americana no país parece muito provável), ou a ataques contra alvos mais improváveis, até na África Ocidental ou América Latina.

“O Irão não é um regime suicida, é um regime estratégico, que calcula, mesmo que por vezes erre no cálculo”, sublinha Rym Momtaz, jornalista do Politico.

Uma consequência parece, no entanto, certa. A coexistência de EUA e Irão no Iraque e Líbano, com Washington a treinar e financiar os exércitos regulares mesmo com Teerão a manter as suas milícias armadas e poder político, deverá ser agora muito mais difícil, se não impossível, escreve o analista Ray Takeyh, do Council on Foreign Relations, tendo em conta que já foi declarada a derrota do Daesh, inimigo comum de ambos. E como diz Kim Ghattas, analista do Carneggie Endowment, “os maiores beneficiados serão fundamentalistas sunitas como o Daesh e a Al-Qaeda, que ficarão exultantes de ver os seus dois maiores inimigos a atingir-se mutuamente.”