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Morreu Nancy, a força protectora do Presidente Reagan

Tinha 94 anos e redefiniu o papel de primeira dama dos EUA.

Nancy Reagan numa visita à Casa Branca em 2009 Kevin Lamarque/REUTERS

Nancy, a viúva do Presidente Ronald Reagan, descrita como a sua “força protectora” e uma das mais influentes primeiras damas da História dos Estados Unidos, morreu aos 94 anos na sua casa de Los Angeles. Será enterrada ao lado do marido na Biblioteca Presidencial de Simi Valley, no estado da Califórnia.

“Nancy Reagan tinha uma verdadeira devoção pelo marido. É um grande conforto saber que agora serão reunidos para a eternidade” reagiu Barbara Bush, a mulher do vice-Presidente de Ronald Reagan e seu sucessor na Casa Branca, George Bush.

Foi pela sua popular história de amor com Ronald Reagan, que se estendeu por mais de cinco décadas, que Nancy Reagan se destacou. A carreira de actriz de Hollywood é apenas uma nota de rodapé na biografia do casal presidencial, que ainda hoje ocupa um lugar especial no imaginário do público norte-americano.

Barack Obama disse que Nancy “redefiniu o papel de primeira dama”. “Mais tarde, na longa despedida do Presidente Reagan [que morreu em 2004 depois de um prolongado sofrimento com a doença de Alzheimer], tornou-se a voz de milhões de famílias que enfrentavam a dolorosa e vazia realidade do Alzheimer, assumindo um novo papel, em defesa dos tratamentos que tinham potencial e prometiam melhorar e salvar vidas”, acrescentou o Presidente dos EUA.

A mulher elegante e franzina, que era detentora de uma vontade indomável, aceitou muitas vezes falar em nome dos desprotegidos ou marginalizados, ou de quem sofria, assumindo o protagonismo em causas como o combate à dependência de drogas ou a investigação médica com células estaminais.

Nascida em Nova Iorque, a 6 de Julho de 1921, de um pai vendedor de automóveis e uma mãe actriz, Nancy chegou a Hollywood aos 28 anos, onde foi desenvolvendo carreira como actriz de filmes de série B. Quando conheceu Ronald, um actor que estava divorciado há um ano da actriz Jane Wyman, iniciou com ele um romance que durou mais de meio século. Casaram em 1952 e mantiveram-se juntos até à morte do ex-Presidente. Reagan tratava-a por “Mommy”; Nancy chamava-lhe Ronnie.

“Ele era tudo o que eu queria num homem e ainda mais. Tornei-me a mulher mais feliz do mundo quando passámos a ser um casal”, confessou Nancy Reagan no seu livro de memórias, em que lembrou ainda que, no dia do seu aniversário, Ronald Reagan nunca se esquecia de enviar flores à sua mãe, para lhe agradecer ter autorizado o namoro.

Os dois estabeleceram uma parceria de sucesso, não na indústria cinematográfica mas no ainda mais competitivo mundo da política norte-americana, que transformaram radicalmente. A marca de Ronald Reagan começou a manifestar-se na Califórnia, onde foi eleito e reeleito governador, entre 1967 e 1975. “Se alguém foi absolutamente indispensável para o sucesso político de Ronald Reagan, foi Nancy. Ela era a sua conselheira mais próxima, uma protectora constante e, mais importante do que tudo, o amor da sua vida”, considerou James Baker, que foi chefe de gabinete de Reagan, num documentário da PBS.

O mundo da política era desconhecido para Nancy, que recorreu à sua experiência na representação e começou a aperfeiçoar o seu novo papel de primeira-dama. “Os filmes eram canja comparados com a política”, revelou numa entrevista. Em 1980, surgiria o seu desempenho mais importante: o de mulher de um candidato presidencial, na histórica campanha em que Ronald Reagan desafiou a tradição política para chegar à Casa Branca, com uma estrondosa vitória sobre o Presidente candidato à reeleição, o democrata Jimmy Carter.

Nascia uma nova era em Washington, mas a chegada à capital não correu bem. Depois de se instalar na Casa Branca, o casal decidiu que o ambiente austero da mansão presidencial não se adaptava ao seu estilo de vida. Nancy encarregou-se de transformar a residência oficial num lugar mais sofisticado, mas o seu projecto de decoração valeu-lhe duras críticas. A primeira-dama gastava milhares de dólares em cortinados e serviços de porcelana enquanto o país atravessava um período de recessão económica.

Essa não seria a sua única polémica na Casa Branca – mas nos oito anos da Administração Reagan (1981-89), Nancy acabou por vencer resistências e conquistar os críticos, consolidando uma reputação de braço-direito do Presidente e conseguindo uma popularidade tão alta quanto a do marido. Foi, reconhecia no domingo o historiador da Biblioteca Nacional das Primeiras Damas, Carl Anthony, ao jornal USA Today, uma das primeiras damas mais influentes dos EUA, não exactamente pela sua influência política, mas “por causa da sua influência pessoal, sempre a monitorizar e por vezes a controlar o acesso ao Presidente, durante o processo de tomada de decisões”.

Uma dessas decisões fez correr rios de tinta em Washington: o despedimento do chefe de gabinete do Presidente, Donald Regan, em 1987, por imposição de Nancy. A vingança de Regan veio sob a forma de um livro de revelações, entre as quais as de que Nancy consultava astrólogas para decidir a agenda do Presidente - e até para marcar a data de uma cirurgia oncológica que Reagan fez em 1985.

Aqueles que a descrevem como uma “manipuladora”, dizem que o seu dedo esteve em várias decisões governamentais, a mais importante das quais o acordo nuclear assinado entre os EUA e a União Soviética. Mas outros insiders da Administração desmentem essa interferência política, descrevendo-a como uma “força protectora”, sempre presente: um bastião de carinho e conforto na Casa Branca.

O seu projecto mais conhecido na Casa Branca foi a campanha contra o consumo de drogas celebrizada pelo slogan "Just say no" (diz simplesmente não). Anos mais tarde, depois de se tornar público que o marido sofria da doença de Alzheimer - que destrói as células cerebrais e rouba a memória aos doentes - tornou-se uma activista pelo investimento na investigação nesta área, com a esperança de que fossem descobertos novos tratamentos. Quando o ex-Presidente George W. Bush travou o financiamento público de projectos que usassem células estaminais embrionárias - por ser preciso destruir embriões para as obter - Nancy criticou-o duramente.