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MNE demite-se após inventar encontro com Putin

Crise coloca em perigo o governo de Mark Rutte e degrada ainda mais as relações entre Haia e Moscovo.

Demissão de Halbe Zijlstra embaraça o primeiro-ministro Mark Rutte, na foto Hannibal Hanschke

O ministro holandês dos Negócios Estrangeiros, Halbe Zijlstra, demitiu-se esta terça-feira após admitir que fabricou uma história sobre um suposto encontro em 2006 em que disse que o Presidente russo Vladimir Putin teria apresentado uma estratégia para a expansão territorial da Rússia.

O incidente embaraça o primeiro-ministro holandês Mark Rutte, cujo governo de coligação depende de uma maioria parlamentar de apenas um deputado, e degrada ainda mais as relações já difíceis entre os Países Baixos e a Rússia.

Zijlstra, visivelmente emocionado ao participar no debate parlamentar convocado para discutir a sua conduta, disse que apresentou a sua demissão ao Rei perante o risco de prejudicar o trabalho do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

“Vivemos num país onde a verdade importa. É por isso que não vejo outra opção senão demitir-me”, disse Zijlstra, que estava no cargo há apenas quatro meses.

A oposição criticou também o primeiro-ministro Rutte, que tinha defendido o ministro apesar de ter sabido, pelo menos desde Janeiro, que este tinha inventado a história sobre Putin.

Na segunda-feira, Zijlstra admitiu que nunca tinha estado no referido encontro com Putin, mas antes que tinha ouvido falar das supostas declarações do Presidente russo através de participantes na reunião.

A confissão motivou de imediato exigências da sua demissão por parte da oposição, bem como o protesto da embaixada da Rússia no país, acusando Zijlstra de difundir “notícias falsas” (ou fake news, no popular termo em inglês).

“A Rússia é acusada de disseminar desinformação. Responsáveis holandeses estão constantemente a proferir declarações sem fundamento. Não será isto um exemplo de fake news contra o nosso país?”, lê-se num comunicado da representação diplomática russa em Haia.

Ironicamente, Ziljstra tinha viagem marcada para Moscovo, esta quarta-feira, para uma reunião como o homólogo russo Sergei Lavrov.

Apesar do desmentido de Ziljstra em relação à presença no encontro com Putin, Rutte subscreveu o essencial das acusações a Moscovo: "Se observarem o que a Rússia tem feito ao longo dos últimos 10, 15 anos, a política que tem seguido, têm de admitir que o objectivo é a expansão [territorial]".

As relações entre a Holanda e a Rússia estão em crise desde 2014, quando 196 cidadãos holandeses morreram na queda do voo MH17 da Malaysia Airlines no leste da Ucrânia. Haia acusa separatistas pró-russos de terem derrubado o avião com um míssil de fabrico russo, algo que Moscovo nega. A justiça holandesa prepara-se aliás para apresentar uma acusação criminal contra suspeitos da autoria do ataque.