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Análise

Mísseis: Turquia vira as costas aos Estados Unidos e abraça a Rússia

A Rússia foi um tradicional inimigo do Irão e da Turquia. Une-os agora a América. No Médio Oriente, as alianças fazem-se e desfazem-se a ritmo acelerado.

A decisão turca de comprar à Rússia o sistema antimíssil S-400 é um desafio aos Estados Unidos e à NATO. Os primeiros componentes começaram a chegar a uma base aérea turca na semana passada e os 120 mísseis deverão ser enviados no prazo de um ano. É uma viragem estratégica e diplomática de Ancara que faz prever um realinhamento de forças no Médio Oriente. Confirma a ideia de uma “frente comum” entre a Turquia, o Irão e a Rússia, e um claro distanciamento em relação aos Estados Unidos e à Europa. E significa uma crise na NATO.

Observa, na Foreign Policy, o analista Nick Danforth: “Para um país que outrora acreditou que o caminho para a fortaleza e para a prosperidade passava pela NATO e pela UE, isto representa uma drástica viragem.” A Turquia deixou de confiar nos Estados Unidos e já não os encara como “a potência indispensável” para realizar os seus interesses nacionais. É o “declínio e queda de uma aliança”.

A decisão foi tomada em 2018 e os Estados Unidos tentaram dissuadir Ancara, tendo lançado, inclusive, um ultimato em Junho passado. Mas Ancara reafirmou a recusa das condições impostas pelos EUA para lhe fornecer baterias de mísseis Patriot e os Awacs, aviões furtivos de reconhecimento. O Presidente Erdogan quer ter o seu próprio sistema independente da NATO.

A Turquia expõe-se a sanções americanas. Para já, Washington suspendeu a venda de cem caças F-35 destinados a equipar a força aérea turca, tal como a participação das empresas turcas no seu programa. O Pentágono argumenta que, através do sistema S-400, a Rússia poderia ter acesso a segredos dos F-35. Também a UE ameaça impor sanções, por uma razão completamente diferente: a Turquia começou a prospecção de gás nas águas territoriais do Norte do Chipre.

O factor sírio

Num artigo na Foreign Affairs, Aaron Stein, especialista no Médio Oriente, resume a questão numa fórmula simples: “A Turquia virou as costas aos Estados Unidos e abraçou a Rússia.” Por quê?

Os motivos de atrito entre os dois Estados agravaram-se com a eleição presidencial de Erdogan, mas têm raízes mais fundas, umas de teor geopolítico, como a invasão do Iraque, as “primaveras árabes” e, sobretudo, a guerra síria. E também em ressentimentos pessoais de Erdogan, como a recusa de extradição do seu “arqui-inimigo”, Fetullah Gülen, o líder religioso que limitava o seu poder e a quem atribui o estranho golpe de Estado de 2015. Os americanos exigiram “provas”.

A partir da invasão do Iraque, Ancara começou a considerar os EUA como uma “força desestabilizadora no Médio Oriente”, na medida que que proporcionou a “quase independência” do Curdistão iraquiano. Depois, a América de Obama privilegiou a luta contra o terrorismo do Estado Islâmico, enquanto a Turquia de Erdogan tinha como prioridade a luta contra o independentismo curdo. Ora, na Síria, as milícias curdas foram o mais eficaz aliado dos EUA, o que lhes permitiu dominar um território importante junto da fronteira turca.

As flutuações da política síria, tanto dos americanos como de Erdogan, levaram ao conflito. Antes da “primaveras árabes”, Damasco era o primeiro aliado regional de Ancara. Perante a eclosão da guerra civil, Ancara tudo fez para a evitar. Depressa estalou um outro conflito, agora entre Assad e Erdogan, sempre com os curdos no horizonte. Ancara, anota Stein, “tentou persuadir os EUA a usar a força militar para derrubar Assad ou, pelo menos, para barrar ao seu regime o acesso ao Nordeste do país”, onde a Turquia queria ter mãos livres. Falhado este objectivo, Ancara volta-se para Moscovo, que emerge como o seu mais seguro aliado militar na Síria. Moscovo não desperdiçou a oportunidade.

Por fim, a Rússia, o Irão e a Turquia decidiram levar a cabo o que os ocidentais não conseguiam: suster a guerra síria. Ancara e Teerão têm um interesse comum na contenção dos curdos. Por isso acordaram numa estabilização da Síria, mantendo Assad no poder.

O sonho de Erdogan

Já antes, o fim das “primaveras árabes” tinha agravado as divergências entre Ancara e Washington. Erdogan apoiou a Irmandade Muçulmana, que tomou o poder e depois foi esmagada no Egipto. Por outro lado, em 2013, uma “mini-primavera turca” eclodiu em Istambul, o protesto do “Parque Gezi”, aplaudido no Ocidente. Abre-se então uma nova brecha entre Ancara e os ocidentais. Erdogan endurece o regime e a imprensa ocidental começa a denunciar a sua deriva autoritária.

Outro factor importante é a visão do novo papel geopolítico da Turquia e a aspiração de ascender ao estatuto de grande potência. O teórico Ahmet Davutoglu, conselheiro de Erdogan e depois ministro dos Negócios Estrangeiros e primeiro-ministro, elaborou a doutrina de um “Médio Oriente pós–americano” em que a Turquia assumiria a liderança. Esta ambição, firmemente adoptada por Erdogan, foi posta em causa pelo torvelinho das “primaveras árabes”, que puseram em xeque toda a diplomacia turca.

Esta doutrina sofreu grandes revezes mas está a ser retomada numa base anti-americana. “Os dois antigos ‘inimigos hereditários’ partilham um horizonte, o ressentimento anti-ocidental”, escreve Marie Jégo, correspondente do Le Monde em Istambul. “Falam de ‘multilateralismo”, da luta contra “a hegemonia do dólar’ e do declínio da civilização ocidental.” Uma politóloga turca explica ao mesmo jornal: “A Turquia e a Rússia querem contrabalançar a influência dos Estados ocidentais no Médio Oriente. Ambos pensam que o outro é o bom aliado. A Rússia conta restaurar o seu estatuto de grande potência. Para a Turquia, a Rússia é essencial ao reequilíbrio das suas relações com o Ocidente.”

Ignoram-se os efeitos no realinhamento das forças regionais. Para já, é uma viragem estratégica de Ancara, uma vitória da Rússia e um pequeno conforto para o Irão. Acontece que a História aconselha prudência. A Rússia foi um tradicional inimigo do Irão e da Turquia. Une-os agora a América. No Médio Oriente, as alianças fazem-se e desfazem-se a ritmo acelerado.