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Crónica

Mais uma mentira

No caso de Boris, prefere-se dizer que ele desconhece qualquer coisa (o acordo que fez com a UE) do que dizer, simplesmente, que está a mentir. Os mentirosos tiram partido deste constrangimento.

Na quarta-feira, Boris Johnson visitou uma fábrica de batatas fritas na Irlanda do Norte (IN), onde declarou que, ao contrário do que está estabelecido no acordo de “Brexit” que fez com a União Europeia (UE), os bens produzidos na IN não terão de ser examinados ou taxados antes de entrar no resto do Reino Unido (RU): na Escócia, na Inglaterra e no País de Gales.

Os peritos consultados pelo Guardian acharam que Boris não compreende ou não conhece o acordo que assinou. Eis um exemplo de confusão e boa vontade que é uma especialidade britânica.

Eu próprio já beneficiei desta elegância moral. Consiste ela em fazer um esforço para imputar a outrem o motivo moralmente menos repreensível.

No caso de Boris, prefere-se dizer que ele desconhece qualquer coisa (o acordo que fez com a UE) do que dizer, simplesmente, que está a mentir.

Os mentirosos tiram partido deste constrangimento. Boris nem sequer é particularmente habilidoso nesta exploração mas é consistente: na Irlanda do Norte estava a mentir para os irlandeses do Norte, dizendo-lhes o que presume que eles querem ouvir.

Não havendo inspecções alfandegárias entre a IN (e é por isso que são exigidas pelo acordo com a UE), terá forçosamente de haver uma fronteira sólida entre a IN, que faz parte do RU, e a República da Irlanda, que pertence à UE.

Ou terá Boris já desistido de apoiar o acordo que negociou? Ou servirá apenas para aliciar eleitoralmente alguns remainers à procura de uma desculpa para votar nos conservadores?

Ele será o primeiro a não saber.