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Médicos Sem Fronteiras voltam ao Mediterrâneo para salvar imigrantes

A ONG condena a “inacção criminal” dos Governos europeus e por tentarem travar “todas as acções humanitárias” no Mediterrâneo, levando à morte de centenas de refugiados e migrantes que podiam ser evitadas.

Condenando a “inacção criminal” dos Governos europeus e por levarem a cabo uma “campanha de dois anos para travar todas as acções humanitárias”, os Médicos Sem Fronteiras anunciaram este domingo que vão recomeçar no final deste mês as operações de busca e salvamento no Mediterrâneo Central com o navio Ocean Viking.

“A nossa presença no mar é para salvar vidas, essa é a principal questão. Mas nunca nos iremos silenciar enquanto pessoas vulneráveis estiverem a sofrer”, garantiu em comunicado Sam Turner, coordenador da Missão de Busca e Salvamento e da Líbia da organização. “Os políticos queriam que se acreditasse que as mortes de centenas de pessoas no mar e que o sofrimento de milhares de refugiados e migrantes presos na Líbia são um preço aceitável para se controlar a migração”, continuou Turner, sublinhando que as “políticas [europeias] perpetuam a crise humanitária na Líbia e no mar”.

Construído em 1986, o Ocean Viking tem 69 metros de comprimento, 15,5 metros de largura e está “totalmente equipado para levar a cabo [operações de] busca e salvamento”. Poderá acolher até 200 sobreviventes a bordo, disponibilizando-lhes tratamento médico imediato.

O navio terá uma tripulação de 40 elementos, divididos entre três equipas: uma médica (nove elementos), uma de resgate (12) e outra responsável pela navegação (9), custeada pelo dono da embarcação. Já a equipa de resgate estará a cargo da organização não-governamental SOS Mediterraine.

Com a criminalização dos navios humanitários e encerramento dos portos pelo Governo italiano do vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, da Liga, são hoje poucos os navios que continuam a resgatar refugiados e migrantes no Mediterrâneo, e com consequência mortíferas.

Desde o começo deste ano, pelo menos 683 já perderam a vida, segundo dados do site de rastreamento Missing Migrants. Há duas semanas, o naufrágio de uma da embarcação frágil que tentava a travessia mediterrânica causou a morte a 86 pessoas. No total, e segundo o mesmo site, já morreram 11 376 pessoas desde 2014.

“A condenação dos líderes europeus das mortes de refugiados e migrantes vulneráveis na Líbia deve ser acompanhada pelo regresso das operações de busca e salvamento oficiais, desembarque em locais seguros e evacuação e encerramento imediatos de todos os centros de detenção”, continuou o coordenador dos Médicos Sem Fronteiras. Sem acções desta envergadura, continua, as declarações dos líderes europeus não são mais que “palavras vazias de simpatia superficial”.

A Líbia é conhecida por ser uma armadilha para quem por lá passa tentando fugir da guerra e da miséria para chegar à Europa. Nesse país, são milhares os refugiados que acabam por cair em redes de tráfico humano, sofrendo violações dos direitos humanos, entre as quais violações, mutilações e espancamentos constantes. No início deste mês, um bombardeamento da força aérea do general Khalifa Haftar, que contesta o Governo de Trípoli apoiado pelas Nações Unidas, contra um centro de detenção causou a morte a pelo menos 44 refugiados, ferindo outros 130.

A mais recente guerra civil líbia já obrigou ao deslocamento de 100 mil pessoas, dizem os Médicos Sem Fronteiras, e muitas das vezes a travessia mediterrânica é a única rota possível, por mais perigosa que possa ser em barcos com nenhumas ou escassas condições. “As evacuações humanitárias para fora do país continuam fragmentadas e inadequadas, fazendo da travessia marítima potencialmente mortal como uma das únicas rotas de fuga possíveis”, explica a ONG.

Uma situação que se tem arrastado e que, continua a organização, é mantida por os Governos europeus continuarem a ignorar a necessidade de operações de busca e salvamento. Enquanto o fizeram, serão necessários navios de ajuda humanitária no Mediterrâneo para se evitar a morte de refugiados e migrantes que fogem da Líbia. “Seria inconsciente não tentar impedir que as pessoas se afogassem levando-as para um lugar seguro, onde aqueles que precisam de protecção internacional possam procurar asilo junto das autoridades competentes”, afirma a organização internacional em comunicado.