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O prazo que Hariri deu a si mesmo para pôr fim à crise está a acabar

O Líbano entrou no quinto dia de protestos para exigir a demissão do Governo e da classe política – “fim do regime”, gritam os manifestantes. Primeiro-ministro fez um ultimato a si próprio e ao Governo para acertarem reformas – ou demite-se, sugeriu.

Os libaneses inundaram este domingo as ruas em todo o país, mantendo a pressão sobre o primeiro-ministro, Saad al-Hariri, que impôs a si próprio uma data-limite para aplicar um pacote de reformas cruciais para a economia. Os manifestantes exigem “o fim do regime” que classificam de “corrupto” e responsável pela derrocada económica do país e pelo empobrecimento da população.

Os protestos contra o Governo varrem o país desde quinta-feira da semana passada e mobilizam gente de todos os segmentos da sociedade libanesa, numa rara manifestação de unidade a exigir a saída de cena da elite política.

O ambiente nas manifestações deste domingo assemelhou-se a um festival de rua. Dos altifalantes saíam músicas nacionalistas que davam energia aos manifestantes para pedirem a queda do Governo.

“Nunca esperei que pessoas do Norte, do Sul e de Beirute juntassem as mãos e se dessem bem. Os protestos aproximaram as pessoas e isto nunca tinha acontecido”, disse Sahar Younis, que tem 32 anos e trabalha para uma organização não governamental.

Hariri, que dirige desde Fevereiro uma coligação que junta uma míriade de partidos sectários e rivais, deu na sexta-feira 72 horas (até segunda-feira) ao seu Governo para chegar a acordo sobre as reformas que possam resolver a crise económica, sugerindo que, caso contrário, se demitia.

Acusou os rivais de criarem obstáculos à aplicação de medidas orçamentais que desbloqueariam a entrada de 11 mil milhões de dólares de doadores ocidentais e que ajudariam a impedir o colapso económico do Líbano.

Fontes governamentais disseram que Hariri espera que a coligação adira às suas propostas económicas, que incluem impostos sobre os bancos e a execução de um plano, no prazo de um mês, para dar a volta à dispendiosa companhia estatal de electricidade em dificuldades. A reforma do sector da electricidade é essencial para atrair potenciais investidores e doadores que consideram ser este um dos maiores sorvedores das delapidadas finanças do país. 

A pressão sobre Hariri subiu de tom com um coro de vozes, dos sindicatos aos políticos, a juntarem-se à revolta popular que pede a sua demissão. As Forças Libanesas (partido cristão) anunciaram no sábado à noite que os seus quatro ministros abandonavam o Governo.

Se Hariri, um muçulmano sunita que é apoiado pelo Ocidente e pelos aliados do Golfo, se demitir, torna-se mais difícil aos restantes partidos da coligação formarem um novo executivo (o actual demorou meses a ser formado).

É possível que com um novo governose veja o Hezbollah (xiita, dois ministros), apoiado pelo Irão, ganhar força, uma mudança que torna praticamente impossível que os doadores internacionais e do golfo árabe, em conflito com Teerão, ofereçam ajuda ou façam investimentos no Líbano.

O fim da corrupção desenfreada é um dos pontos centrais dos protestos, que dizem que há décadas que os governantes usam os seus cargos para enriquecerem através de negócios que lhes são favoráveis e de pagamentos por fora.

O líder do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah, deu o apoio do seu poderoso grupo ao actual Governo, argumentando que a profunda crise económica obriga a que não se perca tempo precioso na formação de um novo governo.

Nasrallah disse no sábado que aplicar mais impostos à população significará uma “explosão” de conflitos e disse que se o Governo não encontra soluções há o risco de banca rota e de desvalorização da moeda.

Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) declarou que a crise libanesa exige duras medidas de austeridade, como o aumento dos impostos e do preço do combustível, o que os políticos prometeram não fazer.

A revolta popular em curso eclodiu, em parte, com o anúncio de uma taxa para as chamadas feitas através do WhatsApp que foi rapidamente cancelada, mas que foi entendida como uma forma de o Governo espremer ainda mais os cidadãos que recebem pouco do Estado em troca das contribuições. Reuters