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Manifestação pelo clima: “Não é só o efeito Greta, é a degradação climática que está aí”

A mobilização dos jovens na luta contra as alterações climáticas não passa despercebida aos decisores políticos. Esta sexta-feira, milhares deles devem protestar nas ruas de Madrid, exigindo acção aos decisores que estão na COP25

A greve climática tem levado para as ruas milhares de jovens, inspirados por Greta Thunberg Miguel Manso

Tem apenas 16 anos, mas já acumula prémios, discursa perante os líderes mundiais e tem murais com o seu rosto pintados em diferentes locais. A sueca Greta Thunberg iniciou, sozinha, uma greve às aulas pelo clima em Agosto de 2018 e pouco mais de um ano depois é a incontestável estrela dos protestos contra a incapacidade do mundo em lutar contras as alterações climáticas. Na sexta-feira espera-se que esteja entre os manifestantes que vão percorrer as ruas de Madrid, entre muitos outros milhares de jovens. Há várias associações portuguesas a juntar-se ao protesto.

“O ano de 2019 foi aquele com mais mobilização pela justiça climática que alguma vez ocorreu, com mais mobilização por qualquer causa ambiental que alguma vez ocorreu”, diz João Camargo, investigador em alterações climáticas e membro da Climáximo, uma da organizações nacionais que estará em Madrid, a participar em acções à margem da COP25. Para ele, que está envolvido na organização da curta passagem da jovem activista por Portugal, que deverá acontecer na terça-feira e sem passagem pelo Parlamento, o efeito Greta Thunberg não pode ser minimizado, mas ele só produziu os efeitos que se conhecem porque as pessoas estão já a sentir os efeitos de um problema que, há alguns anos, era sempre projectado no futuro. “Esta mobilização é por causa do efeito Greta e pela própria degradação climática que está a acontecer, a produzir efeitos muito concretos e mensuráveis”, diz.

Não é de hoje que a sociedade civil tem um papel importante na COP25. Várias organizações participam na cimeira como observadoras e este ano espera-se que o número cresça. No ano passado, uma lista provisória apontava para a inscrição de 1120 organizações não-governamentais (ONG) na cimeira que decorreu em Katowice, na Polónia. Este ano, um estudo sobre a COP24 pedido pela ENVI (Comissão do Parlamento Europeu para o Clima, Saúde Pública e Segurança Alimentar) e realizado em Novembro, apontava já para a inscrição de 920 organizações no âmbito das ONG’s ambientais, e outras tantas entre grupos de investigação independente, organizações sindicais, associações indígenas, de mulheres ou ligadas a questões de género. Organizações de juventude eram 72.

Contudo, quando analisa os eventos mais recentes que podem ter um impacto nas negociações deste encontro – desde os relatórios do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla inglesa), à Cimeira pela Acção Climática de Setembro promovida pelo secretário-geral das Nações Unidas, passando pela retirada dos Estados Unidos da América do Acordo de Paris – apenas duas manifestações dos movimentos sociais são referidas: a acção da Extinction Rebellion e as greves climáticas dos estudantes, iniciadas por Greta Thunberg.

Uma das exigências deste movimento de jovens é que “os políticos ouçam os cientistas do clima e ajam em conformidade”, refere o documento. A dúvida sobre se isso vai acontecer é expressa pelos autores ao escreverem: “Estes movimentos levaram as alterações climáticas para o centro do debate político na Europa e noutros locais, induzindo vários actores políticos a tomarem uma posição. Falta saber até que ponto a acção da sociedade civil será capaz de gerar a acção política concreta necessária para enfrentar as alterações climáticas num futuro próximo”.

De autocarro até Madrid

A partir desta sexta-feira as suas vozes vão fazer-se de novo ouvir, primeiro na manifestação marcada para as 18h (hora de Madrid) e depois na cimeira alternativa, designada Cumbre Social pelo Clima, que decorre também até ao dia 13 e que tem dez associações portuguesas inscritas, como a Zero, a Climáximo, a Exctition Rebellion/Coimbra ou a Greve Climática Estudantil. O simples facto de como lá chegar, diz João Camargo, é já um sinal de como está quase tudo por fazer. “Era muito fácil ir de avião, mais barato e com muita frequência de voos. O mais provável é irmos quase todos de autocarro, porque mesmo os comboios são caros e há poucos. É peculiar”, afirma.

João Camargo não tem dúvidas que o futuro terá de passar pela acção continuada da sociedade civil. Mas também acredita que a mobilização já conseguida não chega. As COP – que vê com algum descrédito, por as decisões até agora tomadas não terem sido capazes de melhorar a situação ambiental do planeta – têm, segundo ele, a grande vantagem de serem o grande ponto de encontro para os movimentos e activistas preocupados com o clima e o ambiente, ajudando ao seu crescimento.

Por este lado, a COP25 pode ser mais um salto em frente, sobretudo em aspectos que não estão a ser ainda devidamente tratados, apesar de estarem também a precisar de uma resposta imediata, como o chamado “processo de transição social justo”, dirigido a todos os que serão afectados pela exigida mudança no sector económico, nomeadamente, com o encerramento dos sistemas de produção ligados aos combustíveis fósseis. “A mobilização civil tem de se multiplicar muito mais e expandir-se, fazer muito mais alianças, nomeadamente com o mundo do trabalho, que tem estado bastante ausente destas questões, mas que é muito importante.”, diz João Camargo.

Não há razão para que Madrid não seja o lugar onde essa expansão acontece. “Se me dissessem há dois anos que hoje estaríamos como estamos em termos de mobilização da sociedade eu tinha dúvidas. A verdade é que temos de continuar a expandir exponencialmente estes protestos e a pressionar, a todos os níveis”, diz.