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Editorial

Mais Europa

A verdade é que a crise de identidade europeia provocada pelo “Brexit” e pelo triunfo populista do trumpismo obriga a levantar a cabeça.

O presidente da Comissão Europeia fez um longo discurso em que teve a coragem de apresentar uma visão para a Europa — sem medo da polémica, propôs aprofundar a partilha europeia e relançar as instituições com proximidade acrescida num mundo pós-“Brexit”.

A discussão é essencial. Quando os saudosismos recordam os antigos líderes da Europa e choramos a falta de figuras de referência no Velho Continente, é importante receber quem se atreve a dar a cara por uma ideia para o futuro europeu. Independentemente do detalhe das propostas, é importante reforçar que é disto que a Europa precisa: de acreditar que tem um futuro, de o discutir, de o enfrentar. De se sentir capaz de liderar o mundo e de não viver com medo ao sabor da irrelevância do curto prazo.

Juncker quer mais Europa e pedir isso em 2017 é corajoso, depois da década perdida entre crises financeiras e existenciais. Em Bruxelas, não faltaram consensualizadores que pouco mais fizeram do que prestar vassalagem aos grandes da Europa, desprezando pelo caminho os seus cidadãos. Falta quem tenha espírito crítico, coragem para afrontar os imobilismos e mostre ter capacidade para liderar processos. Claro que, no caso de Jean-Claude Juncker, pode sempre perguntar-se porque é que esta visão só surge agora, depois de pouco ter feito por ela ao longo dos anos.

Mas a verdade é que a crise de identidade europeia provocada pelo “Brexit” e pelo triunfo populista do trumpismo obriga a levantar a cabeça. E isso o presidente da Comissão fez muito bem. Isto quer dizer que as suas ideias são certas? Depende. São exequíveis? Ainda é mais dúbio, sendo certo que algumas não se concretizarão de certeza — a Suécia e a Dinamarca não aceitarão integrar a zona euro e é quase irreal esperar que Roménia e Bulgária consigam entrar na moeda comum, para não falar de Schengen. O seu mote para relançar uma Europa confiante implica aprofundar o federalismo através de áreas chave como a defesa e a economia, tema polémico que promete aquecer a discussão quando muitos ainda se querem limitar a lamber as feridas da saída britânica.

Transformar desafios em oportunidades é um velho chavão da gestão que também se aplica a nações e organismos internacionais. A jogada de Juncker depende deste chavão que, bem aplicado, pode mesmo devolver a Europa ao futuro. Assim o deixem os senhores que mandam na Europa — porque, sem ingenuidades, o que verdadeiramente interessa é o que Emmanuel Macron e Angela Merkel pretendem.