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As ligações de Dokolo ao poder em Kinshasa

Financiou um movimento para afastar o Presidente Kabila, apoiou Tshisekedi e sonhava em construir um porto de águas profundas, o arresto dos bens e o Luanda Leaks poderá ter esfumado esse negócio de 400 milhões que queria oferecer à sua província.

Sindika Dokolo com o Presidente da RD do Congo, Félix Tshisekedi, em Maio de 2019 Presidência da RD Congo

A chegada de João Lourenço ao poder em Angola, pressupôs para Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos, primogénita do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, um afastamento dos centros de decisão. O novo chefe de Estado desconfia a dobrar do coleccionador de arte congolês, por pertencer à família Dos Santos e pelas suas ligações políticas na vizinha República Democrática do Congo.

Filho de Augustin Dokolo, fundador nos anos 1960, no então Zaire, do Banque de Kinshasa, o primeiro banco de capitais inteiramente africanos da África Subsariana, Sindika herdou do pai o jeito para os negócios e a paixão pelo coleccionismo de arte e, apesar de ter passaporte dinamarquês por via da mãe e de ter crescido entre a Bélgica e França, mantém a sua influência em Kinshasa.

Quando João Lourenço assumiu a presidência, em Setembro de 2017, ainda Joseph Kabila procurava por todos os meios permanecer na chefia do Estado para lá do fim do seu mandato (devia ter acabado em 2016, só terminou em Janeiro de 2019, completando 18 anos no poder) e Dokolo financiava activistas políticos para afastar o homem que o impedia de ir à RD Congo desde 2014.

Na visão de Lourenço, as delicadas relações entre Luanda e Kinshasa, a bem da estabilidade regional, não se coadunavam com interferências externas a partir de Angola. Dokolo criou o movimento de cidadãos Les Congolais Debout! (Os congoleses de pé!) em Agosto de 2017 e mantém uma relação de amizade com o actual Presidente, Félix Tshisekedi, de quem esperava agora um apoio nesta guerra com o chefe de Estado angolano.

Tshisekedi visitou Lourenço no dia 6 de Janeiro, em Luanda, com o tema do arresto de bens de Sindika Dokolo e de Isabel dos Santos no topo da agenda. No entanto, o chefe de Estado congolês pouco mais conseguiu que uma garantia de que o Governo angolano não interfere no andamento dos tribunais e que “o melhor caminho para os visados será a máxima colaboração com as autoridades competentes do Estado e com a Justiça angolana”.

Em Maio de 2019, no seu regresso a Kinshasa depois de cinco anos de exílio, Sindika Dokolo tinha-se multiplicado em contactos políticos e tinha sido recebido em audiência por Tshisekedi, com quem já se tinha encontrado em Washington no mês anterior, acompanhado de Isabel dos Santos. Como explicava em entrevista à Jeune Afrique, o seu intuito era aproveitar a “oportunidade” de “participar o mais activamente possível na reconstrução” do seu país.

Garantindo ser “mais útil” à RD Congo como “empreendedor” do que assumindo um lugar no governo, Dokolo explicava: “O novo poder anunciou a sua intenção de lançar um New Deal com o sector privado congolês, demasiado fraco, ou mesmo completamente ausente. As únicas pessoas com dinheiro no Congo pertencem à diáspora, como eu, ou à classe política – isto é, pessoas que não têm vocação para ser ricas”.

Daí que se tenha mostrado logo disponível para se envolver no megalómano projecto Grande Inga, uma gigantesca rede hidráulica no rio Congo, a maior da África austral, cuja construção esteve parada por problemas de financiamento. Tshisekedi reatou o projecto com objectivos menos ambiciosos e o marido de Isabel dos Santos ofereceu-se para construir o porto de águas profundas, superando com o seu nome a falta de “credibilidade” da RD Congo.

“[Tshisekedi] disse-me: só uma pessoa, é impossível”, contava Dokolo ao Mediacongo. “Eu disse-lhe que a minha oferta é pública, com uma primeira fase de 350 milhões ou 400 milhões [de dólares]. A minha fábrica de cimento, que inaugurei há dois anos custou 450 milhões. Portanto, é possível. Pode fazer-se. E gostaria muito de fazer isso pela minha província do Congo central.”

É, provável, que os últimos acontecimentos tenham tornado a proposta menos “possível”.