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Sem líderes mundiais, a contracimeira dá voz a quem combate as alterações climáticas

A Cimeira Social pelo Clima, organizada por cerca de 500 colectivos ambientais, acontece em paralelo à COP25 para “articular os protestos e críticas” à cimeira oficial e dar voz “ao povo chileno”. Só neste sábado houve 55 actividades.

A contra-cimeira de Madrid JUAN CARLOS HIDALGO/EPA

Neste sábado todos os caminhos vão dar à Universidade Complutense de Madrid. É aqui que acontece a Cimeira Social pelo Clima ao longo de todos os dias que irá durar a 25.ª conferência das Partes (COP25) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas. Nesta cimeira paralela, não há líderes mundiais: são as organizações não-governamentais (ONG) e os colectivos ambientais que têm o lugar de destaque.

O objectivo é claro e é assumido pelas mais de 500 organizações de todo o mundo que aderiram à convocatória: “Articular os protestos e as críticas” à COP25, que termina dia 13 e decorre pela terceira vez consecutiva vez num país europeu, e pelas “injustiças e atrocidades que se estão a cometer contra o povo chileno” — criando, para esse efeito, um espaço onde “a sua voz também possa ser escutada”. Apesar de a cimeira de se realizar em Espanha, o Chile é o país anfitrião que optou por não a receber devido às manifestações contra o Governo. 

Na prática esta intenção resulta numa programação diversa e recheada. Neste segundo dia de contracimeira (que começou na sexta-feira à tarde, na Marcha pelo Clima), há 55 pontos na agenda, entre debates, workshops, peças de teatro, concertos – e o ritmo mantém-se até domingo da próxima semana. O principal tema é, como esperado, o ambiente, mas também há espaço para outras questões, como os direitos dos povos indígenas ou o ecofeminismo.

Uma conversa sobre pecuária regenerativa como ferramenta para travar o aquecimento global Inês Caíça

O local principal desta contracimeira é uma tenda enorme, montada num parque de estacionamento nas traseiras da Faculdade de Filologia. Os primeiros debates deste sábado estavam marcados para as 12h e, por essa altura, o recinto começava a encher-se de cor: das penas dos índios brasileiros, às saias coloridas das mulheres andinas e aos sacos-cama coloridos de quem ficou aqui a dormir.

Um dos primeiros debates está a cargo de duas organizações portuguesas: a SOS Racismo e a Climáximo. José Falcão e João Camargo falaram sobre a ascensão da extrema-direita e a sua relação com as alterações climáticas para uma sala do multiusos da Complutense quase cheia — e uma audiência mais velha do que o habitual. Começaram por explicar os motivos que levaram à ascensão dos partidos dos extremos, como o desemprego, e depois levaram o debate para a esfera dos direitos humanos, trazendo a questão dos refugiados climáticos para cima da mesa. “Estas pessoas tiveram de sair dos seus países devido a um colapso sistémico e este movimento foi descrito pela extrema-direita como uma invasão”, resumiu João Camargo.

“As pessoas agora estão atentas”

Se a meio da manhã o recinto parecia estar a meio-gás, à hora do almoço o espaço em frente à grande tenda já está bem mais composto – foi a essa hora que começaram a chegar centenas de manifestantes de bicicleta, vindos de Atocha. Entre eles está Caterina, 41 anos, ilustradora: “Estivemos quase duas horas a pedalar”, diz, sorridente. “Vim a este protesto porque é necessária uma mudança para políticas mais respeitadoras do meio ambiente”, conta.

"Salva o planeta, usa a bicicleta" Inês Chaíça

As bicicletas preenchem o espaço entre as bancas instaladas em frente à tenda principal – algumas vendem livros (títulos como o já conhecido A nossa casa está a arder), outras pedem assinaturas para petições e ainda há quem imprima pósteres manualmente.

Aproxima-se a hora do almoço e a zona da cantina improvisada, mesmo atrás da tenda principal, começa a ficar atarefada. Aí, come-se no chão à falta de cadeiras e todos os pratos são vegetarianos. Mas há outra razão para a enchente de pessoas: acabou de chegar mais um autocarro de portugueses.

Constança Albuquerque, estudante de Biologia de 20 anos, acabou de chegar. Nem teve tempo de pousar a mochila antes de ir almoçar: “A nossa viagem atrasou-se. Viemos de Lisboa, mas ainda fomos buscar pessoas a Coimbra e ao Porto”. Veio pela plataforma Salvar o Clima, uma das organizações portuguesas que alugaram autocarros para trazer os activistas portugueses à capital espanhola. Partem este domingo.

Ao seu lado seguem mais quatro portugueses e nem todos chegaram hoje: houve quem conseguisse ir à Marcha pelo Clima, na sexta-feira. “Foi lindo”, resume Rafael Oliveira, estudante de Física de 19 anos. Agora que a marcha acabou ficam para a contracimeira — sem saberem ainda que os esperam debates a abarrotar de outros activistas. Luís Borges, 19 anos, diz que veio “na esperança de saber um pouco mais” sobre as causas que defende, mas também ver “como podemos exigir mais acção aos poderes políticos”.

Sobre a COP25, a opinião geral é de que é composta por “um conjunto de governantes sem grande vontade de fazer alguma coisa”. “Estão um bocadinho mais preocupados porque agora as pessoas estão atentas.”

O átrio do edifício multiusos da Universidade Complutense Inês Chaíça

A jornalista viajou a convite da Talgo