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Porque é que o Leste da Alemanha ainda hoje é diferente?

A subida da AfD nos “novos estados federados” – é assim que são ainda denominados os que pertencederam à ex-RDA – apanhou muitos de surpresa. Para o sociólogo Steffen Mau, por uma razão: ninguém se lembrou de estudar o Leste.

Steffen Mau, professor de sociologia na Universidade de Humboldt, em Berlim, passou décadas a estudar macrossociologia, estado social, digitalização. Até que, há três anos, resolveu olhar para a Alemanha de Leste. E descobriu algo que nem ele, sociólogo, tinha reparado. “Não há quase literatura nenhuma sobre o assunto. E dado que temos dois sistemas totalmente diferentes a tornar-se num só, poderíamos pensar que é o caso de sociologia mais interessante que pode haver!”

A sua história pessoal – Steffen Mau é de Rostock, na antiga RDA, a queda do muro apanhou-o a meio do serviço militar – foi um dos motivos que o levou a considerar o tema. O outro foi ter começado a ver “alguns sinais de tensão e irritação” na relação com o antigo Leste.

Pode dizer-se que o apogeu desta tensão foi este ano, quando em três eleições em estados da ex-RDA (aqui chamam-se, ainda hoje, os “novos estados federados”) o partido de direita radical Alternativa para a Alemanha (AfD) disputou o primeiro lugar, e em algumas sondagens chegou a ser o partido mais popular em todos estes estados. E a pergunta repetiu-se: o que está a acontecer no Leste?

Poucos saberiam, porque poucos estudaram o que aconteceu – “o que havia tinha a ver com política, efeitos da repressão, etc,”, diz Mau. Isto porque na altura da unificação “partiu-se do princípio de que a Alemanha de Leste ia desaparecer e ser assimilada pela Alemanha Ocidental, e por isso não havia razão para estudar as diferenças, ou até lógicas de desenvolvimento diferentes”, explica Mau. “Mas foi uma ilusão: descobrimos que há duas sociedades numa.”

Ralf Pasch era jornalista na altura da reunificação e fez trabalhos sobre as empresas desmanteladas na região de Brandeburgo, à volta de Berlim: houve programas de reintegração no trabalho de pessoas cujas empresas tinham falido: faziam pequenas reparações, limpavam as ruas, por exemplo. Mas se isto resultou em locais com pequenas empresas, com grandes empresas já não. Às vezes, os antigos trabalhadores receberam a missão de desmantelar as fábricas onde trabalharam.

“Só nessa altura me apercebi destas questões”, diz Pasch, que tinha 22 anos quando o muro caiu e se descreve como um Wendegewinner, alguém que ganhou com a mudança.

Ralf Pasch vivia numa pequena cidade do Sul da Turíngia, e após a reunificação mudou-se para Kassel, do lado ocidental, onde viveu 15 anos. “Nunca me senti um cidadão de segunda”, diz. “E nunca achei que esta fosse uma questão”. Até que se mudou para Berlim, há cerca de cinco anos. “Aqui não se pode fugir a isto, está muito presente. A primeira vez que passei aqui na Avenida Karl Marx saí do metro e nem queria acreditar: não podia ser mais soviético!”, diz a rir.

Pessoas celebram nas ruas a reunificação alemã, em Outubro de 1990 Fabrizio Bensch/REUTERS

Em Leipzig, Toralf Kessler, produtor de 50 anos, também ganhou com a reunificação. Muito crítico do sistema da então RDA, também o é do sistema capitalista actual. Mas “temos tanto que na RDA não seria possível” – no seu caso, trabalhar fora do país, ou viver numa cidade viva, renovada, “com coisas mais modernas do que em muitas cidades da parte ocidental!”

Mas “30 anos depois, o passado não é lembrado, é interpretado”, diz Kessler. É o único modo que encontra para perceber quem tem saudades do regime.

Tanto Ralf Pasch como Toralf Kessler têm dificuldades em apontar vantagens à ex-RDA. “Era tudo fruto do mesmo sistema”, diz Kessler.

Algumas pessoas fazem-no: a patinadora Katarina Witt (bicampeã olímpica da então-RDA), por exemplo, fala de um certo orgulho numa tradição de mulher do Leste – que trabalha e é independente, por oposição ao modelo do Ocidente, em que a mulher muitas vezes ficava em casa a tratar dos filhos.

Orgulho difícil

Mas orgulho ou associações positivas com o tempo da ex-RDA são ainda difíceis. Numa “entrevista fotográfica” do jornal Die Zeit, também há três anos, a actriz Sandra Hüller (protagonista do filme Tony Erdmann) respondeu à pergunta sobre a vida antes da queda do muro com um abraço a si própria e uma expressão de conforto – afinal, foi a sua infância (tinha onze anos quando o muro caiu). Logo choveram críticas.

A chanceler alemã, Angela Merkel, foi esta semana mais longe do que o costume a falar da sua vida como alemã oriental numa entrevista à revista Der Spiegel. “Talvez ela tenha lido o meu livro”, diz Mau a rir-se (o sociólogo é dado a riso fácil). “Mas eu não teria dito melhor: ‘havia uma vida real no sistema errado’, disse ela.”

E quem não viveu neste sistema tem dificuldades em perceber, admite Steffen Mau. “Porque se definimos a ex-RDA como uma ditadura – e eu defino – achamos contraditório que se possa ter tido uma vida com satisfação”, diz. Muitas pessoas que viveram na então RDA sentem “que tudo o que fizeram no passado, a sua experiência de vida, fora contaminado pela ideologia e não teve valor em si”, diz Mau. “Tinham sempre de o defender ou explicar.”

Diferenças acentuadas

O que Mau percebeu agora, ao olhar para a evolução social na ex RDA, é que as estruturas sociais que existiam antes da queda do muro se cristalizaram – às vezes, fortaleceram-se. “A ex-RDA era um exemplo de mobilidade social fixa, apesar de se considerar uma sociedade de trabalhadores e agricultores. E esperar-se-ia que isto desaparecesse depois da reunificação, porque há escolha livre de formação, profissão, emprego…” Mas ele próprio se surpreendeu ao ver os indicadores: a mobilidade social diminuiu.

E depois há uma falta enorme de alemães de Leste em posições de liderança. “Temos 90 universidades públicas na Alemanha. Nenhuma é liderada por um alemão de Leste. Mas algumas são por estrangeiros, da Áustria, ou da Suíça…”, nota. “E isto repete-se em todos os sectores da sociedade: administração pública, educação, Forças Armadas, os media”: não há alemães de Leste nos cargos de topo. A chanceler é uma excepção absoluta.

Fartos de mudanças

Tudo isto são factores que não foram muito considerados durante muitos anos. A chegada da AfD despertou algo.

“Eu não consigo perceber”, exaspera-se Toralf Kessler, produtor, num café no centro de Leipzig – hoje uma das cidades mais populares da Alemanha e que tem visto um grande aumento de população. “Fico alterado se falo disto”, diz, enquanto faz um gesto do coração a bater mais depressa e fala mais rápido. “Ou as pessoas são burras e não vêem – custa-me a acreditar – ou então … não sei.” Pára por um momento. “Na verdade, sabes o que acho? Acho que estamos demasiado bem. Acho que é isso. Demasiado bem.”

Ralf Pasch tem menos dificuldade em entender. E vê paralelos com uma época que tem estudado, o século XX: os anos 1920. “Não acho que seja por acaso que haja agora filmes ou séries mais populares sobre esta época, como Babylon Berlin”, aponta. “Há violência, não só da direita, mas de outros radicais, anda recentemente atacaram aqui um pequeno encontro da CDU”, o partido conservador da chanceler Angela Merkel. “Quer dizer, eu também não gosto da CDU, mas nada justifica isto.”

O sociólogo tem explicações diferentes. Uma é que o sistema político foi exportado da Alemanha ocidental, deixando partidos tradicionais pouco ancorados no Leste (aliás, até os líderes da AfD no Leste vêm do lado ocidental).

Depois há factores mais ligados à identidade: “Nós, de Leste, tivemos de deixar tudo para trás e o nosso bilhete de entrada [na Alemanha reunificada] foi a nacionalidade alemã. E por isso também há relutância de estender este privilégio a estrangeiros – nós tivemos de desistir da nossa cultura, e eles não têm”, diz.

Manifestação da AFD Ralph Orlowski/REUTERS

Finalmente, a sociedade no Leste está “farta de transformações sociais”, sublinha. “Os cosmopolitas dizem ‘vocês têm de mudar e de se adaptar a um mundo a mudar depressa’. E os populistas dizem, ‘não, o mundo é que se tem de adaptar ao vosso modo de vida’.”

Para o sociólogo, não há um modo fácil de superar este fosso entre os dois lados da Alemanha. “Porque crescemos juntos de um modo diferente em termos estruturais, e muito enraizado”.

No mínimo, pode-se, no entanto, ver o ponto de vista do outro, defende. Fala-se sempre dos milhares de milhões que foram gastos na recuperação e renovação da Alemanha de Leste, que o lado ocidental vê como uma transferência de verbas. Mas os alemães de Leste podem dizer que a reunificação “foi uma enorme transferência de activos do Leste para o Ocidente, 80% foram para alemães ocidentais, e quanto às casas renovadas do centro de Leipzig ou Rostock, a maioria também pertence a alemães ocidentais”, sublinha Steffen Mau. Em conclusão, diz, rindo-se: “Os alemães de Leste mais ricos são alemães ocidentais”.