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Opinião

L’Affaire e o filme

Numa altura em que assistimos ao deflagrar da violência antissemita um pouco por todo o lado, o novo filme de Polanski, que recomendo vivamente, é um bom motivo de reflexão sobre a intolerância violenta num mundo cada vez mais desigual.

No próximo dia 30 de Janeiro estreia em Portugal o filme J’accuse – O Oficial e o Espião, dirigido pelo realizador polaco Roman Polanski. O filme trata do que a história registou como o “Caso” (L’affaire) Dreyfus.

O “Caso” conta-se em poucas palavras: Alfred Dreyfus, judeu e capitão do exército francês, é preso a 15 de Outubro de 1894, acusado de alta traição a favor da Alemanha por alegadamente ter transmitido dados secretos militares ao exército alemão. Imediatamente, a 1 de Novembro, o jornal antissemita La Libre Parole denunciava em enorme manchete: “Alta traição! Prisão de um oficial judeu! O capitão Dreyfus!”

Julgado pela primeira vez em Dezembro do mesmo ano, Dreyfus é condenado a prisão perpétua e deportado para a Ilha do Diabo. Até ao fim do julgamento não se cansou de repetir: “Juro e declaro que degredam um homem inocente. Vive la France!” O verdadeiro culpado, o major Esterhazy, foi declarado inocente, permitindo assim ao exército reabilitar a sua honra e glória. Partindo a França ao meio, o “Caso Dreyfus” suscitou paixões e ódios desmedidos, espelhando o antissemitismo virulento da população, de grande parte da intelectualidade e do poder. Judeu e alsaciano, portanto duplamente suspeito de traição, Dreyfus é condenado pela opinião pública antes mesmo de o ser numa farsa judicial.

Nesses anos, a França mergulha num imenso turbilhão antissemita, incentivado por jornais como La Libre Parole ou L’Intransigeant e apoiado pela intelectualidade antissemita: nas cidades, vilas e aldeias, multidões manifestam-se violentamente clamando: “Abaixo Dreyfus e os judeus!”, “Morte aos judeus”, “A França para os franceses”; brutalizam-se rabinos, atacam-se sinagogas, quebram-se montras de lojas judaicas, queimam-se bonecos de palha representando Dreyfus; para além da violência física, generalizam-se a delação, a troça, o desprezo e o ódio em canções ou em poemas. É mesmo composta uma versão da Marselhesa antijudaica cuja primeira estrofe rezava assim: “Avante, filhos da pátria, o dia da vingança chegou, contra nós pela judiaria, foi erguido o estandarte imundo, ouvis bradar nos seus antros esses infames escroques, que vêm até às nossas bandeiras vazar a sua baba de víbora!”

Só muitos anos mais tarde a sua inocência será provada, graças em grande parte à acção de Émile Zola e da sua carta aberta “J’accuse, dirigida ao Presidente da República, Félix Faure. Publicada no semanário L’Aurore, em 1898, Zola acabou ele próprio por ser condenado a um ano de prisão e exilado temporariamente em Londres. Na carta aberta escreveu: “Somente hoje a questão começa, pois só hoje as posições são nítidas: de uma parte os culpados que não querem que a luz se faça; da outra, os justiceiros que darão a sua vida para ela ser feita. Já o disse noutro lado e repito-o aqui: quando encerram a verdade debaixo da terra, ela concentra-se e toma uma força explosiva tão poderosa que se um dia rebenta faz saltar tudo consigo. Ver-se-á se não acabam de preparar, para mais tarde, o mais estrondoso dos desastres.” No Verão de 1899, Dreyfus é de novo condenado num segundo julgamento, embora reduzindo a prisão perpétua para dez anos. Só em 1906 o capitão Dreyfus será ilibado e a sentença considerada ilegal.

Um dos episódios mais dramáticos deste caso foi o esbulho público dos galões de oficial a Dreyfus numa cerimónia aviltante em 1895, durante a qual foi palco de cenas de intenso ódio e onde a população não se limitava a gritar “Abaixo Dreyfus!”, mas também “Abaixo os judeus!”. Face a este ódio colectivo, o jornalista judeu húngaro Theodor Herzl, correspondente em Paris do jornal vienense Neue Freie Presse, ficou profundamente perturbado, concluindo que se tal podia acontecer no país dos Direitos do Homem, cem anos depois da emancipação judaica, era porque a integração era um fracasso: o resultado dessa reflexão foi o livro que mudou o destino dos judeus, O Estado dos Judeus, base do sionismo político que meio século depois dará origem ao Estado de Israel.

Esta é sucintamente a história de L’Affaire. O filme, que recomendo vivamente, centra-se não tanto na figura de Alfred Dreyfus, mas na de um oficial de nome George Picquart, cujo papel foi decisivo na demonstração da falsidade da acusação e na revelação do verdadeiro culpado, o major Esterhazy. Picquart confessa que não gosta de judeus, mas acima de tudo está a justiça e esta é para se cumprir. E vai até ao fim arriscando a carreira e até a vida para provar quem é o verdadeiro culpado.

Picquart é na verdade o herói do filme. Mas talvez mais importante é a forma detalhada como é desmontada a acusação e revelado aos espectadores o antissemitismo do aparelho do Estado francês e de largos sectores da população para quem o culpado é naturalmente o judeu, independentemente de qualquer tipo de prova. Estamos perante um dos casos mais emblemáticos da teoria da conspiração, elemento fundamental antijudaico, recorrente ao longo da história.

Este ano de 2020 marca os 75 anos do final da Segunda Guerra e da libertação do campo nazi de extermínio de Auschwitz. Será que aprendemos alguma coisa? Ou estamos condenados a reviver a história, de forma sempre diferente, mas no fundo sempre igual? Numa altura em que assistimos ao deflagrar da violência antissemita um pouco por todo o lado, incluindo nos EUA até há pouco considerados o “paraíso” judaico intocável, este filme é um bom motivo de reflexão não só sobre o antissemitismo, mas sobre a intolerância violenta que num mundo cada vez mais desigual atinge, não apenas judeus e sinagogas, mas também igrejas e mesquitas.

Parafraseando o historiador britânico Ian Kershaw: “A estrada de Auschwitz foi construída pelo ódio, mas o seu pavimento foi a indiferença.”