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Kennedy, O. J. Simpson, e agora Epstein: mais um caso polémico para o “patologista dos famosos”

Quando há mortes controversas de famosos nos EUA, Michael Baden entra em cena. Ao longo de várias décadas como patologista forense, Baden calcula ter feito mais de 20 mil autópsias. Agora, a família de Jeffrey Epstein, que morreu na prisão, contratou-o para seguir o caso.

Michael Baden é presença assídua nos canais de televisão norte-americanos Robyn Beck/Getty Images

Passadas poucas horas após a morte de Jeffrey Epstein no sábado, dia 10 de Agosto, a Internet foi inundada com teorias da conspiração. Apesar de as autoridades responsáveis terem declarado que tudo indicava que o empresário e investidor com muitas ligações ao mundo da política se tinha suicidado na prisão enquanto aguardava pelo julgamento relativo a múltiplas acusações de tráfico de mulheres (incluindo menores de idade), os mais cépticos afirmaram imediatamente que ele tinha sido assassinado e discutiram sobre qual dos seus poderosos conhecidos poderia ter ordenado a execução. Outros insistiram, sem qualquer prova, que Epstein, de 66 anos, não tinha realmente morrido, mas sim sido discretamente transferido para um outro qualquer lugar desconhecido.

Toda esta acalorada especulação é habitual quando uma pessoa muito conhecida morre em circunstâncias insólitas — como Michael Baden, o “patologista dos famosos” contratado pelos representantes de Epstein para observar de forma independente a sua autópsia, sabe muito bem e de experiência própria.

Ao longo dos muitos anos da sua carreira, Baden investigou os assassínios do presidente John F. Kennedy e do reverendo Martin Luther King, foi testemunha de defesa de O. J. Simpson e identificou os cadáveres do czar Nicolau II da Rússia e do médico nazi Josef Mengele. Aos 85 anos, calcula que terá efectuado mais de 20 mil autópsias, e foi contratado como especialista forense em casos que envolviam activistas de direitos civis (Medgar Evers), desportistas (Kobe Bryant, Aaron Hernandez) e celebridades (John Belushi). Ao longo desse percurso, deixou os tenebrosos recantos das morgues da cidade e tornou-se uma presença habitual na televisão, apresentando um programa na HBO e aparecendo regularmente na Fox News. E aí encontrou muitas das teorias da conspiração que, teimosamente, se recusam a desaparecer.

Michael Baden durante uma conferência de imprensa sobre o caso Michael Brown, o rapaz morto pela polícia de Ferguson, Missouri, em 2014 Joe Raedle/Getty Images

“Os famosos e os infames, os ilustres e os mal-afamados, não sangram e morrem como o resto de nós”, escreveu Baden no primeiro capítulo do seu livro de memórias publicado em 1989, Unnatural Death: Confessions of a Medical Examiner [Causas Não Naturais: Confissões de um Médico Legista). “Eles apresentam argumentos e cenários, dramas e conspirações intrincadas. Vilões enterrados continuam a assombrar a Terra, escondidos sob outros disfarces, e notícias das suas obscuras existências em vilórias longínquas apenas causam incredulidade.”

Talvez provando a veracidade desta afirmação, quando a directora dos serviços de Medicina Legal da cidade de Nova Iorque, Barbara Sampson, anunciou na noite de domingo, dia 11 de Agosto, que Baden tinha assistido à autópsia de Epstein a pedido da equipa jurídica do falecido investidor — uma precaução de rotina em casos de elevada visibilidade —, esta declaração inflamou ainda mais alguns teóricos da conspiração da Internet. Afinal de contas, como era possível que um médico pudesse estar ligado a tantos julgamentos milionários e mortes controversas?

A resposta a essa pergunta inicia-se no bairro nova-iorquino do Bronx, onde Baden, que se descreve a si mesmo como “um miúdo problemático” com predisposições antagónicas, nasceu em Julho de 1934. A sua família mudou-se pouco tempo depois para Brooklyn, onde o seu pai trabalhou como electricista na doca da Marinha durante a Segunda Guerra Mundial, e Baden cresceu numa vizinhança pobre onde era muitas vezes atacado por ser judeu. Num perfil feito em 1989 para o jornal New York Daily News, Baden reconheceu que o seu mau génio e a sua revolta o tinham levado a uma estadia de três anos num reformatório rural no estado de Nova Iorque. Mas conseguiu entrar para o City College de Nova Iorque, licenciando-se em 1955 com as melhores notas da turma.

Depois, Baden entrou na Faculdade de Medicina da New York University, onde se iniciou o seu fascínio pela patologia forense. Nessa altura, tal área era considerada “a lixeira onde se despejava os incompetentes, um refúgio para os médicos que não se conseguiam safar no mundo real”, escreveu nas suas memórias, em conjunto com Judith Adler Hennessee. Mas Baden percebeu que estava dominado “pelo mistério, o frémito da descoberta, o rigor da pesquisa” no interior da morgue, apesar da péssima reputação de que esta gozava. Após terminar o seu internato, aceitou um emprego no gabinete da direcção dos serviços de Medicina Legal da cidade de Nova Iorque.

Em 1977, o Congresso dos EUA constituiu um comité para reexaminar os assassínios de Kennedy e King, esperando com isso eliminar as persistentes alegações de encobrimento da verdade. Baden, que era então já um patologista respeitado, foi colocado à frente das investigações forenses. Nas suas memórias, critica a autópsia efectuada após o homicídio de John Kennedy, fazendo notar que foi levada a cabo por patologistas militares que nunca tinham enfrentado um caso que envolvesse uma ferida de arma de fogo. Apesar disso, concluiu que o veredicto deles estava correcto: Lee Harvey Oswald tinha agido isoladamente, não tendo existido qualquer segundo atirador. 

Michael Baden explica o assassínio de John F. Kennedy, em 1978 Bettmann/Getty Images

Da mesma forma, após reapreciar o relatório da autópsia de Martin Luther King, Baden lançou um balde de água fria sobre a teoria de que o pó negro que fora encontrado no pescoço do líder do movimento pelos direitos civis assassinado seria pólvora — uma alegação que permitira que alguns tivessem sugerido que King teria sido atingido à queima-roupa, o que significaria então que o seu assassino teria sido não James Earl Ray, mas outra pessoa.

A investigação do Congresso marcou o início da ascensão de Baden em direcção à fama, mas também coincidiu com um período conturbado na sua carreira. Foi nomeado director dos serviços de Medicina Legal da cidade de Nova Iorque em 1978, mas acabou por ser despedido menos de um ano depois, após desentendimentos com outros altos funcionários concelhios. Após aceitar um novo posto como vice-director dos médicos legistas no condado de Suffolk, em Long Island, viu-se envolvido numa controvérsia bizarra. Em 1982, um artigo da revista Oui citava Baden como aconselhando acerca das drogas adequadas para uma pessoa se suicidar e como evitar que elas fossem detectadas. O executivo concelhio exigiu a sua demissão, mas Baden negou que tivesse sequer alguma vez falado com a revista. Por fim, o jornalista freelancer que escrevera o artigo admitiu que tinha inventado citações, e Baden pôde manter o emprego.

Manifestantes pedem justiça pelos crimes pelos quais Epstein era acusado Shannon Stapleton/Reuters

Em 1985 Baden já passara para uma nova posição, como director de Ciências Forenses na polícia estatal de Nova Iorque. Este trabalho era apenas um part-time, o que lhe permitia aceitar simultaneamente casos privados, desde que esses não o colocassem em conflito com os procuradores do estado de Nova Iorque, afirmou mais tarde Baden ao jornal Los Angeles Times. Servir como testemunha de defesa em julgamentos repletos de estrelas lá longe na Califórnia não trazia problemas, e em breve o patologista forense de óculos começou a fazer viagens frequentes à Costa Oeste, cobrando honorários acima dos 100 mil dólares pelos seus conhecimentos e tornando-se uma figura conhecida nos canais de televisão nacionais. Tornar-se comentador nos telejornais após décadas passadas em lúgubres laboratórios de investigação criminal não era um percurso habitual, mas Baden não sentiu dificuldades, pois sentia-se à vontade em frente às câmaras e aos projectores.

“Não há câmara de que o Michael não goste”, disse à NBC News, em 2014, Lowell Levine, que trabalhou ao lado de Baden enquanto co-director de Patologia da polícia estatal de Nova Iorque. “Ele costumava gritar comigo por causa dos jornalistas: ‘Eles estão apenas a tentar ganhar a vida, porque é que não lhes dás uma ajuda?’”

Foi o julgamento de O. J. Simpson, em 1995, e a consequente absolvição que acabaram por cimentar a reputação de Baden como “patologista dos famosos”. Contratado pela equipa de defesa, Baden colocou em causa as versões dos procuradores relativamente aos assassínios de Nicole Brown Simpson e Ronald Goldman, e questionou a exactidão das conclusões do médico legista do condado de Los Angeles.

O.j. Simpson em tribunal Issac Brekken/Reuters

Tal como os mais dados às teorias da conspiração rapidamente apontaram na semana passada, a equipa de advogados de O. J. Simpson também incluía Alan Dershowitz, o professor da Faculdade de Direito de Harvard e advogado de defesa que também defendera Epstein em tribunal. Não foi a única ocasião em que Baden e Dershowitz se colocaram do mesmo lado da barricada num julgamento de grande divulgação: Dershowitz defendera Claus von Bulow, o socialite acusado, mas depois ilibado, de tentativa de homicídio da sua milionária mulher, injectando-lhe insulina. Baden, que testemunhou a favor da defesa em dois subsequentes julgamentos que agarraram a atenção do país nos anos 80, escreveu mais tarde nas suas memórias que tinha chegado à conclusão de que Sunny von Bulow tinha entrado em coma devido ao seu próprio consumo de drogas e álcool.

Baden causou controvérsia em 2007, quando se pronunciou, na qualidade de testemunha de defesa, durante o julgamento do produtor musical Phil Spector, que era acusado de ter assassinado a actriz Lana Clarkson. Como os procuradores da acusação revelaram no contra-interrogatório, a esposa de Baden, Linda Kenney Baden, era advogada na equipa de defesa de Spector, o que colocava um potencial conflito de interesses. Baden rejeitou vigorosamente a sugestão de que a função da sua mulher poderia ter influenciado o seu testemunho, afirmando que tinha chegado às suas próprias conclusões antes de ela ser contratada, noticiou o jornal Pasadena Star-News. (O caso terminou com um processo nulo, tendo Spector sido mais tarde considerado culpado de homicídio em segundo grau.)

Quando não estava a testemunhar em julgamentos altamente publicitados, a disposição de Baden para ir à televisão e comentar investigações de homicídios macabros — especialmente os que envolviam celebridades — revelou-se um trunfo fácil de utilizar e muito disputado. Apresentou a série de documentários da HBO Autopsy durante nove temporadas, e foi colaborador da Fox News, onde ainda regularmente discorre sobre casos em destaque. Também trabalhou como consultor para a série policial da NBC Crossing Jordan, e escreveu dois livros, ambos thrillers forenses, a meias com a sua esposa.

Em 2005 Baden abandonou a polícia estatal de Nova Iorque e passou a exercer exclusivamente como privado, de acordo com a cadeia NBC. Cerca de uma década depois, o movimento Black Lives Matter deu origem a uma série de novos e controversos casos, à medida que activistas começaram a questionar as versões oficiais das mortes de negros às mãos da polícia. Baden foi contratado para efectuar em 2014 autópsias independentes nas mortes de Eric Garner, que faleceu após ter sido asfixiado por um agente da polícia de Nova Iorque, e de Michael Brown, que foi mortalmente atingido pela polícia em Ferguson, no estado do Missouri. Em ambos os casos, no essencial as suas conclusões coincidem com as versões das autoridades locais, e nenhum dos agentes policiais foi acusado de crime.

De acordo com o relatório oficial da autópsia ao corpo de Jeffrey Epstein, divulgado esta sexta-feira, o milionário norte-americano acusado de abuso sexual e tráfico de menores suicidou-se por enforcamento. A médica legista chefe da cidade de Nova Iorque, Barbara Sampson, afastou qualquer possibilidade de homicídio. Entretanto, os advogados de Epstein anunciaram que não aceitam os resultados da autópsia, e que vão continuar a sua própria investigação.

Se o livro de memórias de 1989 de Baden estiver certo, ele já sabe qual será a reacção: “Mesmo após ter sido feita uma autópsia, as especulações não acabam.”

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

Tradução de Eurico Monchique