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Entrevista

Catalunha: “A nossa arma foi uma urna eleitoral”

A partir da prisão de Lledoners, Jordi Sànchez, um dos condenados no processo dos independentistas da Catalunha, deixa um aviso: “Não é possível que Aznar tenha negociado com a ETA e Sánchez não o faça com um movimento pacífico”.

Jordi Sánchez no Congresso dos Deputados de Espanha, para o qual foi eleito em Abril REUTERS

Na prisão há dois anos, Jordi Sànchez, de 55 anos, era um dos homens responsáveis por trazer milhões de pessoas a Barcelona nas grandes manifestações pela independência na Catalunha, enquanto esteve à frente da Assembleia Nacional Catalã. Pelo seu papel na organização do referendo sobre a independência a 1 de Outubro de 2017, foi acusado de sedição e condenado a nove anos de prisão pelo Supremo Tribunal espanhol no processo dos líderes independentistas catalães.

Está na penitenciária de Lledoners, nos arredores de Barcelona, e esta entrevista foi feita através de mão amiga, que lhe levou as perguntas do PÚBLICO. Diz que não foi objecto de uma sentença justa, e que Espanha, e todo o processo da independentista catalão, está a ser vítima da judicialização da política. “A violência é fruto da judicialização da política”, afirma. “A única forma de travar a violência é dar protagonismo à política”, avisa.

Por isso, considera “incompreensível” que o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez “não se queira reunir com o presidente catalão”, Quim Torra, como quando se deslocou a Barcelona, na segunda-feira, recusando qualquer contacto. “Não é possível que [José María] Aznar tenha negociado com a ETA e Sánchez não o faça com um movimento pacífico”, declara Jordi Sánchez.

Como interpreta a sentença do procés?
A sentença consagra o conflito político e agrava-o. A Espanha persiste no erro e hoje a a solução para o problema é mais difícil.

Foi condenado a nove anos de prisão, pelo crime de sedição, e absolvido pelos crimes de rebelião e organização criminosa. Era esse o resultado que esperava?
Esperava a absolvição. São sentenças de prisão equivalentes a um assassínio ou violação. Um julgamento justo teria resultado em absolvição. As tomadas de posição de organismos de defesa dos direitos humanos, como o Comité da Nações Unidas contra as Detenções Arbitrárias ou a Amnistia Internacional, para citar só dois, fizeram-me ter esta expectativa.

Qual será a estratégia dos seus advogados para as várias instâncias judiciais a que pode ainda recorrer?
Chegaremos até aos tribunais internacionais. O problema é que o Tribunal Constitucional bloqueará com total impunidade durante anos a decisão sobre o nosso caso. Assim conseguirão que o Tribunal Europeu não receba os nossos recursos se não dentro de muitos anos. É mais uma violação das que habitualmente faz o Constitucional com o argumento de que a lei não o obriga a resolver os casos num prazo concreto.

A internacionalização do processo é fundamental para o futuro da causa independentista catalã?
Sem dúvida. Nesse sentido, chegar a instâncias judiciais e políticas europeias é imprescindível. O trabalho do president [Carles] Puigdemont a partir do exílio [na Bélgica] é muito importante. Os apoios de eleitos de muitos parlamentos de países europeus é, para nós, uma prova de que essa internacionalização avança. Vimo-lo há uns dias, até em Westminster (Londres).

As forças políticas independentistas tiveram dificuldade em unir-se após a declaração de independência no parlamento catalão. A sentença pode significar um ponto de inflexão nessa realidade?
Esse é o meu desejo. Não é fácil, já que muitas vezes os interesses partidários afectam a união necessária para defender o interesse geral.

O território catalão mobilizou-se desde o primeiro momento. Acredita que a desobediência civil é o caminho ou defende uma desobediência institucional?
A desobediência civil é um dos caminhos legítimos. Se a política institucional não está a dar resposta, é claro que a sociedade está legitimada para forçar vias de solução democrática. É preciso não esquecer que o que os catalães querem é que simplesmente nos deixem votar. Estamos na Europa do século XXI e um tribunal acaba de nos impor penas de prisão entre nove e 13 anos, por termos defendido o direito a votar. A nossa arma era uma urna eleitoral. Incentivar as pessoas a irem votar vai-me valer nove anos de prisão. Perante isto, a desobediência civil é legítima.

O que espera o movimento independentista de Pedro Sánchez nos próximos dias ou semanas?
Que dialogue, que seja corajoso e exerça uma liderança para solucionar o problema mais importante que se coloca hoje a Espanha. Não é possível que o Governo de [José Maria] Aznar tenha dialogado com [a organização terrorista basca] ETA e o Governo de Sánchez não o faça com o movimento pacífico e democrático.

Acredita que as eleições de 10 de Novembro serão cruciais para o futuro imediato da causa independentista?
Há que deixar para trás os cálculos eleitoralistas que hoje contaminam qualquer proposta política. Estou convencido que as eleições darão um bom resultado às forças independentistas na Catalunha e espero que em Espanha se criem as condições para um governo com uma maioria parlamentar que, embora de coligação, seja sólida, para abordar uma solução para a crise catalã. Ninguém deseja mais que nós ter um interlocutor forte e não condicionado pela direita e pelo populismo espanhol de extrema-direita.

E como se pode travar a violência que tomou as ruas?
A única maneira de parar a violência é dar protagonismo à política. É urgente regressar à política, por isso é tão incompreensível que o presidente do Governo espanhol não se queira reunir com o presidente catalão [Quim Torra]. Não estamos apenas perante um problema de ordem pública. Não podemos banalizar a violência que se registou na Catalunha. São jovens que se sentem frustrados, sentem raiva por causa da sentença e o pior é que afirmam que “o pacifismo e o civismo que até agora caracterizou o independentismo não serviu para nada. O Estado condenou à prisão pessoas pacíficas.” Estes jovens vivem uma sensação de injustiça. É preciso voltar a dar uma oportunidade à política. Os motins são frutos da judicialização da política. Não justifico a violência e desde a prisão pedi, juntamente com outros presos políticos, que não nos deixemos cair nela. A violência, dissemos, não nos representa. Estou convencido que retrocederá. Em qualquer caso, essas pessoas que participam em actos violentos não podem esconder a resposta maciça e pacífica da cidadania na passada sexta-feira, com as marchas pela liberdade. Centenas de milhares de pessoas andaram dezenas de quilómetros para protestar. As imagens aéreas das marchas a entrar em Barcelona são a maior expressão do carácter não violento do movimento independentista.

Com Clara Barata