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Opinião

“It’s the end of the world as we know it”

No início deste ano, a tensão provocada entre os EUA e o Irão foi farta no tipo de análises sobre a vinda do Armagedão, chegando Moscovo oficial e cinicamente a declarar que estaríamos perigosamente a escalar a caminho de uma guerra nuclear.

A última crise entre o EUA e o Irão fez ecoar por todo o mundo um coro de prognósticos alarmistas sobre a possibilidade de ocorrência de uma guerra regional, ou mesmo, de uma 3.ª guerra mundial. Esta crise no Médio Oriente voltou a atrair os holofotes mediáticos para a nova morfologia da geopolítica global, que se tem vindo a desenrolar no combate internacional contra o terrorismo transnacional de matriz islâmica, comprovando aquele dizer de que “o mundo já não o que era”.

Mas para o entender não basta afirmá-lo, nem declarar que vivemos num “novo paradigma das relações internacionais”, é preciso ir mais longe e atualizar vetustos conceitos, como crise internacional ou escalada, e inovar na sua aplicação às leituras da realidade internacional, para sofisticar, tornar mais perspicaz e contemporânea a nossa análise. Se não o fizermos arriscamo-nos a imitar o coro das velhas rabugentas e repetir sempre o mesmo refrão, desta vez, sobre a política internacional. Para tal, nada melhor do que compreender as lições oriundas dos acontecimentos recentes no Médio Oriente.

No final de 2014, após o blitz ultraviolento da organização terrorista Estado Islâmico através do noroeste do território iraquiano, o Papa Francisco deixou avisos sobre a possibilidade de uma 3.ª guerra mundial. Alguns meses mais tarde, já em janeiro de 2015, as forças armadas israelitas eliminavam cirurgicamente um general da Força al Quds (Irão) e elementos do Hezbollah nos Montes Golã, na Síria. Em resposta, fizeram-se ouvir as promessas de vingança e destruição de Israel, oriundas de Teerão faziam, segundo alguns, antevendo o pior, designadamente, a abertura de mais uma frente de conflito no Médio Oriente. Contudo, este assassinato seletivo foi rapidamente esquecido quando em março desse ano, uma coligação liderada pela Arábia Saudita invadiu militarmente o Iémen. Novamente, as mesmas vozes apressaram-se a determinar um futuro conflito entre as duas potencias regionais Irão e Arábia Saudita, que se situavam em lados opostos da luta pelo poder neste depauperado país da península arábica.

Já olvidado o conflito do Iémen, quando no final desse ano um F16 turco abateu um avião russo, que sobrevoava o espaço aéreo ao longo da fronteira turco-síria, voltando a emergir os medos globais de uma 3.ª guerra mundial, que arrastaria os países da NATO, da qual a Turquia faz parte, no confronto contra Moscovo, o que nunca veio a acontecer, optando o Kremlin pela imposição de sanções muito mais criativas e vantajosas no jogo de forças regional.

O ano de 2016 começava com um ataque da “população” iraniana à Embaixada da Arábia Saudita em Teerão, temendo-se, desde logo, o pior. Mais tarde, em junho de 2017, uma coligação liderada pela Arábia Saudita cortava relações diplomáticas e provocava o bloqueio económico do Qatar. Rapidamente a Turquia e o Irão vieram em auxílio desta pequena potência gasífera do Golfo Pérsico e, novamente, o mundo se afligiu sobre a possibilidade de uma 3.ª guerra mundial, provocada pelo derby regional Teerão-Riade.

Passado quase um ano, em abril 2018, os EUA bombardeavam alvos na Síria como resposta à utilização por Damasco de armas químicas, estamos todos ainda hoje a aguardar a retaliação de Moscovo e o início da guerra tantas vezes prometida. No final do ano o mundo assistiu estupefacto às notícias sobre o assassinato e desmembramento de um jornalista crítico do regime de Riade no Consulado da Arábia Saudita em Istambul que tudo leva a crer (e confirmam, publicamente, fontes norte-americanas) terá sido ordenado pelo próprio príncipe herdeiro.

Configura-se que este assassinato macabro de difícil digestão política, tenha sido encarado com a passividade geral, tal como o acontecimento mais marcante de 2019, e que praticamente passou sem ser estrategicamente vivido (pelo menos não foi alvo do regozijo e da especulação geral), a consumada morte do líder terrorista Al Baghdadi, que fez mover, consideravelmente, os equilíbrios estratégicos no Médio Oriente. Suleimani foi o primeiro a sentir na pele as suas consequências.

Por fim, no início deste ano, a tensão provocada entre os EUA e o Irão foi farta no tipo de análises sobre a vinda do Armagedão, chegando Moscovo oficial e cinicamente a declarar que estaríamos perigosamente a escalar a caminho de uma guerra nuclear. Se atentarmos a alguns aspetos dessa crise, o ataque em curso à Embaixada norte-americana em Bagdade, para muitos era tido como normal, não justificava ou legitimava a decapitação de Soleimani, ao invés, para os mesmos observadores, as declarações de Donald Trump ameaçando a destruição de locais históricos no Irão, já per si eram consideradas imorais e a raiar o crime contra a humanidade. Enquanto alguns ativistas norte-americanos gritavam que a guerra que Trump tinha projetado, e estava a tentar provocar, não poderia ir avante porque o Pentágono é o “maior consumidor de combustíveis fósseis do mundo”.

Nenhum destes acontecimentos provocou uma reação em cadeia que conduzisse a uma guerra mundial ou sequer regional, como muitos peritos preveniram e previram, apesar do combustível de belicosidade ser abundante na região. Estamos numa era altamente competitiva, com inúmeros atores com capacidade e meios para participar na complexa arena internacional. Estamos a passar de um mundo do risco, sempre calculável e controlável, para o mundo de incerteza, turbulento e ambíguo, repleto de interconexões entre os diversos atores, que recorrem a novas formas (e tecnologias) de exercício e projeção do seu poder internacional, livres dos tradicionais medos inibidores.

Não existe um modelo de análise de referência, ou incorrigível, mas repetir a utilização de modelos obsoletos ou discursos com prazos já vencidos, certamente não trará resultados diferentes daqueles que não vingaram no passado, e que nos possam iluminar sobre o nosso mundo.

Tal como a turbulência sociopolítica no Médio Oriente, desde o seu início, a presidência de Trump convida-nos a refletir “fora da caixa” (lembram-se do AMEXIT!), a ultrapassar as nossas preferências ideológicas ou preconceitos teóricos, para compreendermos melhor a guerra global contra o terrorismo que se alastra desde 2001. Trump pode até não se aperceber de nada disto, mas he feels fine!