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Itália: as mais extraordinárias eleições de 2020

A Emília-Romanha, a mais bem governada região italiana, tornou-se num fascinante laboratório e pode passar hoje das mãos da esquerda para as de Matteo Salvini. Este quer iniciar Bolonha a sua “marcha em sobre Roma”

As eleições de hoje na região da Emília-Romanha (Bolonha) poderiam ser qualificadas como as mais fantásticas do ano. “O destino passa por Bolonha”, titulou há dias La Repubblica. Raramente se apostou tanto numa eleição regional. Estão em jogo a sorte do governo italiano e a marcha para o poder de Matteo Salvini. Para o Partido Democrático (PD, centro-esquerda), uma derrota na Emília-Romanha equivaleria não só a perder a histórica “fortaleza da esquerda” como sofrer um imenso golpe simbólico.

As apostas são muito altas. Para forçar uma crise que leve à queda do governo, Salvini aposta na conquista da Emília-Romanha, que simboliza a esquerda e é por ela governada há 75 anos. Segundo as sondagens tudo está em aberto. Mas muitos, como o politólogo Giovanni Orsina, consideram mais provável a vitória da Liga.

Também há eleições na Calábria (Sul). Não poderia haver maior contraste entre duas regiões. “A Emília-Romanha é a região mais bem governada de toda a História da Itália”, sublinha o historiador económico Emanuele Felice. “E não é por acaso que regista as melhores performances: se, além do rendimento, entre os mais altos, tivermos em conta a esperança de vida, a instrução e a qualidade de vida, é em absoluto a parte do país em que melhor se vive, superando até a Lombardia e o Veneto.” É uma região “personificada por administradores competentes e idealmente de esquerda”.

Em contrapartida, a Calábria, também governada pelo PD, é pobre, tem uma tradição política clientelar, permeável à influência da N’drangheta, a máfia calabresa que será neste momento a mais poderosa de Itália. Foi durante décadas um feudo democrata-cristão. Na Emília, o PD apresenta como candidato o seu actual presidente, Stefano Bonaccini. Na Calábria, escolheu um candidato com prestígio local, o industrial Pippo Callipo, conhecida figura antimáfia. O resultado na Calábria terá repercussão nas eleições que se seguem, na Campânia (Nápoles) e na Apúlia (Bari). O da Emília influenciará o voto na Toscana. A Liga propõe-se dominar em breve todas as regiões italianas.

Laboratório social

Por outro lado, a Emília Romanha tornou-se num fascinante laboratório. Interroga-se o Corriere della Sera: “Como é possível que uma região com uma baixa taxa de desemprego – poderíamos dizer, americana – e que tem pequenas empresas com um altíssimo EBIDTA ou que, a nível económico, deixa para trás o Nordeste e desafia o primado da Lombardia pode estar à beira de uma viragem de 180 graus?” Ajudar-nos-á a perceber o que se passa não só na Itália mas pela Europa fora?

O politólogo Piero Ignazi reafirma o paradoxo: “Bolonha tem a melhor universidade pública italiana. No triângulo biomédico à volta de Modena prospera a excelência tecnológica europeia. É nesta região que estão o melhor serviço de saúde e o melhor índice de emprego. E podia dar mais exemplos. Mas tudo isto não basta para encher as urnas do partido que governa a região.”

Porquê? “Medo e Frustração, sempre com maiúsculas, solidamente enraizados numa zona de fronteira entre a realidade e a percepção”, responde o jornalista Dario Di Vico. Os eleitores, resume o Istituto Carlo Cattaneo, “vão votar com um misto de nostalgia, por um passado cheio de bons valores, e com ansiedade por um futuro em que vêem mais riscos do que oportunidades”. A Itália continua dominada pelo desencanto. Ou pela “falta de futuro”.

O “modelo emiliano”

 “Não é seguro que uma derrota da esquerda na Emília-Romanha faça cair o governo. Mas atingiria as raízes do PD. Seria um golpe no coração da sua razão social: o reformismo”, escreve o jornalista Antonio Polito. Foi nesta região que nasceu o reformismo italiano moderno. Onde encontrou as suas “duas almas, a comunista e a católica”, aliança patente desde o encontro histórico, nos anos 1960, entre o presidente comunista de Bolonha, Guido Fanti, o bispo de Bolonha, Cardeal Giacomo Lercaro. Onde nasceu um “sistema de alianças entre camponeses, operários e a burguesia produtiva”. O PCI emiliano tinha como força motora as classes médias, artesão e comerciantes. Foi “o terreno em que se fizeram grandes experiências e modernizações do Estado social” e se afirmou o “modelo emiliano”, bem antes da transformação do PCI em partido social-democrata.

Lembre-se ainda que foi na Emília-Romanha, na altura bastião do socialismo, que os “camisas negras” fascistas iniciaram, nos anos 1920, a conquista da Itália.

Evocar as “originalidades” de Bolonha não é apenas um exercício retórico. Os jovens das Sardinhas cantam a Bella Ciao, antiga canção da Resistência, hoje anacrónica. Para eles é a cultura local: foi na região emiliana que, no fim da II Guerra Mundial, que eclodiu o mais radical antifascismo da era republicana. Foi em Bolonha que Achille Occhetto, secretário-geral do PCI, anunciou em Novembro de 1989, a viragem que levou à dissolução do partido. Foi também na Emília, em Parma, que o M5S conquistou o seu primeiro município. E é em Bolonha que nasce um movimento “tipo século XXI”, as “Sardinhas”.

O “novo” é a pedra filosofal da política italiana e está paradoxalmente nas mãos do partido mais velho e do fenómeno mais novo, exactamente a Liga e as “Sardinhas”, conclui Ignazi.

A “tempestade perfeita”

Que se passou no terreno? Explica Michele Bambrilla, director de Il Resto del Carlino, o principal diário de Bolonha: “Foi uma campanha eleitoral anómala, porque de um lado estava o candidato regional do centro-esquerda, Stefano Bonaccini, e do outro um líder nacional, Matteo Salvini, que enchia as praças” e arrastava as televisões. Bonaccini fez uma campanha centrada nos problemas regionais. Salvini fez uma campanha contra o governo de Roma. As “Sardinhas” dinamizaram a campanha do PD. Mas os analistas consideram que será muito escassa a sua influência no voto: não acrescentam novos eleitores.

“Há algum descontentamento”, prossegue Bambrilla. Mas não regional, antes visando Roma, “centrado nas taxas, sobretudo entre pequenos artesãos e comerciantes, que pagam as políticas da burocracia. Respira-se uma certa vontade de mudança.” Segundo as sondagens, 69% dos eleitores dizem confiar “muito ou bastante” em Bonaccini, do PD. Mas muitos deles irão votar na candidata da Liga, Lucia Borgonzoni. Salvini marcou o terreno: vota-se a favor ou contra os equilíbrios nacionais. Conclui: “Se Bonaccini vencer, o mérito será atribuído às ‘Sardinhas’, se perder a culpa será do PD”.

E que se passa em Roma? O governo italiano, de Giuseppe Conte, assenta numa coligação entre o Movimento 5 Estrelas (M5S) e o PD. Tem a maioria absoluta no Parlamento. Desde que a Liga venceu as eleições europeias e se tornou no maior partido italiano, Salvini reclama a convocação de eleições gerais. O PD atravessa uma crise de identidade, enquanto o Cinco Estrelas parece em risco de desagregação, como mostrou a recente demissão de Luigi di Maio.

O Presidente da República, Sergio Mattarella, quer levar esta legislatura até ao fim. O seu mandato termina em Janeiro de 2022 e não quer que o seu sucessor seja eleito por um parlamento dominado por Salvini. O PR é o árbitro constitucional. Por outro lado, entre Março e Junho, os italianos deverão votar num referendo constitucional sobre a redução do número de parlamentares. Por razões constitucionais, que não cabe aqui resumir, o referendo inviabiliza a convocação de eleições gerais antes de 2021.

Se Salvini ganhar hoje, lançará uma ofensiva geral exigindo a demissão do governo, que declarará “ilegítimo”. Aposta em desagregar a coligação governamental. “Adensa-se uma tempestade perfeita sobre os céus desta legislatura”, anuncia o politólogo Michele Ainis. Saberemos amanhã de madrugada.

“As eleições [de hoje] tornaram-se numa espécie de referendo pró e contra Salvini. (…) E um plebiscito contra a esquerda de governo, não só em Bolonha, lugar simbólico, mas também e talvez sobretudo em Roma”, escreve o analista Stefano Folli. “A Emília-Romanha resume, como nenhuma outra região, as características, os contrastes e as contradições da Itália.”