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Editorial

A Itália a caminho da Europa escura

A direita nacionalista, autoritária e antieuropeia não ficará confinada ao Leste da Europa. Só um milagre permitirá afastá-la da Itália.

A sessão do Senado italiano convocada para votar a moção de desconfiança ao Governo apresentada pela Liga de Matteo Salvini reuniu na sua gravidade todos os dramas que afligem a Itália (e a Europa).

Um ministro que se dispõe a derrubar no parlamento o Governo que integra ou um primeiro-ministro que se demite por antecipação criticando duramente um dos membros do seu gabinete são momentos que superam até o delírio que por vezes toma de assalto a política em Roma: são principalmente sinais da confiança da direita autoritária e do desespero de um regime assustado, que dá conta pela primeira vez de que as forças antidemocráticas que o querem desvirtuar (ou derrubar) têm uma possibilidade real de sucesso.

Matteo Salvini, o ministro suspeito de ligações financeiras obscuras à Rússia de Vladimir Putin que pede, sem qualquer pudor, “plenos poderes”, que recusa a atracagem de um navio com refugiados em grave situação humanitária, não é portador de “qualidades fundamentais para quem quiser ser presidente do Conselho de Ministros, na verdade até ministro do Interior” – tais como a cultura democrática e a responsabilidade institucional.

Quem o diz sabe-o de experiência feita: o primeiro-ministro que se demitiu, Giuseppe Conte. Mas é este homem sem qualidades públicas reconhecíveis que lidera as sondagens de opinião em Itália, com uns confortáveis 36%. O perigo extremista que há dois ou três anos se limitava a uma presença incómoda, mas marginal, está hoje a um passo do poder real.

Mesmo que os populistas do 5 Estrelas se juntem aos Democratas de Renzi para criar uma frente de contenção a Salvini, mesmo que o Presidente da República, Sergio Mattarella, insista na velha fórmula de governos de iniciativa presidencial para afastar o medo das eleições, mais cedo que tarde a Liga e o seu programa extremista conquistarão a Itália.

A crise económica, a pressão migratória, a descrença e a falta de rumo da Europa do pós-crise financeira abriram-lhe as portas e Salvini soube escancará-las criando inimigos externos, alimentando o vírus nacionalista, servindo-se da demagogia, e explorando o medo.

Está, portanto, na hora de reconhecer a dura realidade: a direita nacionalista, autoritária e antieuropeia não ficará confinada ao Leste da Europa. Só um milagre permitirá afastá-la da Itália, um dos países fundadores da União, um dos alicerces da sua identidade e um dos mais brilhantes exemplos da sua excelência cultural.