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Irão foi a surpresa do G7 com visita de Zarif à cimeira

Dia foi ainda marcado por declarações contraditórias de Trump em relação à China e aviso de Boris Johnson sobre a factura do divórcio no processo do “Brexit”.

O G7 junta os EUA, Reino Unido, Japão, Canadá, França, Alemanha e Itália, e a União Europeia como convidada Reuters

O Presidente francês, Emmanuel Macron, quer dirigir um esforço diplomático para fazer diminuir a tensão com o Irão, o esforço que resultou na surpresa da cimeira do G7 em Biarritz: a meio da tarde deste domingo, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros iraniano, Mohammad Javad Zarif, aterrou na cidade francesa.

O convite foi feito após o jantar de sábado, segundo fontes diplomáticas francesas que classificaram a iniciativa como “inédita” e “audaciosa”. O diário Libération chamou-lhe “golpe de teatro”. Zarif reuniu-se com o chefe da diplomacia francesa, Jean-Yves Le Drian 

Macron disse no sábado à televisão francesa que havia uma mensagem comum do G7 para o Irão, que os líderes teriam aprovado durante o jantar (o G7 junta os EUA, Reino Unido, Japão, Canadá, França, Alemanha e Itália, e a União Europeia como convidada). Questionado este domingo sobre esta mensagem, diz o site Politico, Donald Trump disse não ter discutido essa questão.

A União Europeia gostaria de manter um tratado sobre o programa nuclear do Irão, que está cada vez mais ameaçado depois de os EUA se terem retirado dele. Várias iniciativas, incluindo uma visita do ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Heiko Maas, a Teerão, têm terminado sem resultados.

Paris procura um modo de permitir ao Irão voltar a exportar petróleo mesmo que por um período limitado e que em troca reverta as recentes quebras do acordo sobre o nuclear.

Trump tem-se mantido irredutível nas sanções aplicadas ao Irão. Os restantes signatários não têm força suficiente para permitir ganhos económicos relevantes a Teerão. Assim, o Irão ameaça retomar o seu programa nuclear com uma escala que lhe permite chegar à bomba atómica (embora negue que este seja o objectivo). Cresce o medo de um conflito armado envolvendo o Irão e os EUA (e Israel).

Este domingo, responsáveis iranianos apressaram-se a dizer que não haveria encontro entre o seu ministro e representantes americanos. Questionado sobre um encontro, Trump respondeu: “Sem comentários.”

Enquanto isso, responsáveis norte-americanos acusaram em privado o Presidente francês de dar demasiada atenção a “questões de nicho”, como as alterações climáticas, em detrimento de questões como a desaceleração da economia mundial (fonte do Eliseu já dissera que os dois tópicos não se excluíam e que era preciso falar de ambos).

Reconsiderar taxas?

Do lado do comércio, EUA e Japão lançaram as bases para um acordo comercial que esperam assinar no próximo mês em Nova Iorque.

E uma resposta de Trump ao ser questionado pelos jornalistas sobre se estava a reconsiderar o aumento das taxas alfandegárias - “Claro, por que não?”, disse - levou a interpretações de que poderia estar a considerar suavizar a sua posição em relação à China.

A porta-voz da Casa Branca Stephanie Grisham apressou-se, no entanto, a clarificar que o Presidente dos EUA não estava a recuar: quando falou em reconsiderar as taxas, referia-se à possibilidade de ter aplicado taxas ainda mais pesadas.

Trump também aludiu a um “grande” acordo comercial com o Reino Unido pós-“Brexit”, assim que o Reino Unido deixar de estar “agrilhoado” pela União Europeia.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, deu várias entrevistas a media britânicos, avaliando agora como maior a possibilidade de haver um acordo de saída antes do final de Outubro: pode ou não acontecer, disse, quando antes afirmara que as hipóteses do no deal eram “de um milhão para um”.

Na véspera, Boris Johnson e o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, envolveram-se numa troca de galhardetes sobre quem seria o “Sr. No Deal”, ou seja, de quem seria a culpa caso o Reino Unido saia da União Europeia sem acordo.

Este domingo, Johnson declarou que em caso de uma saída sem acordo, o Reino Unido não pagará à União Europeia a quantia acordada da chamada “factura do divórcio”, 39 mil milhões de libras, cerca de 43 mil milhões de euros, decorrentes de obrigações britânicas assumidas enquanto membro da UE. “Nesse caso não haverá tecnicamente uma dívida”, disse Johnson. “Isto não é uma ameaça, é simplesmente a realidade.”

Já quando era ministro dos Negócios Estrangeiros de Theresa May, Johnson tinha afirmado que a UE não teria direito a qualquer pagamento, mas depois recuou. A afirmação deste domingo assemelha-se mais a uma estratégia de endurecimento de negociação por parte do chefe do Governo britânico em relação à União Europeia, de quem espera ver abertura para discutir o backstop (o mecanismo de último recurso para assegurar que após o “Brexit” não há fronteira física entre a República da Irlanda, na UE, e a Irlanda do Norte, território do Reino Unido).

Na mesma linha, na semana passada Johnson afirmou que a liberdade de circulação de cidadãos da União Europeia vai acabar a 31 de Outubro se não houver acordo de saída (quando antes, mesmo em caso de no deal, não tinha sido estipulada uma data). 

O encontro em Biarritz termina esta segunda-feira, com uma declaração do anfitrião, abdicando do comunicado conjunto. Na última reunião a negociação do comunicado foi morosa, e Donald Trump acabou por retirar a sua assinatura do documento por desagrado com uma declaração do primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau.