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Entrevista

“A imagem de sucesso da família Dos Santos no exterior ficou manchada”

Estelle Maussion, que publicou em França um livro sobre José Eduardo dos Santos e a sua família, diz que, embora esta tenha perdido influência, “alguns dos numerosos beneficiários do antigo sistema podem ver-se tentados a apoiar a antiga família presidencial”.

Toby Melville/REUTERS

Correspondente em Angola da RFI e da AFP entre 2012 e 2015 e actualmente jornalista da revista Jeune Afrique, Estelle Maussion publicou em França, em Outubro passado, o livro La Dos Santos Company – Mainmise sur l’Angola (A empresa Dos Santos – domínio total de Angola), um estudo sobre o poder de José Eduardo dos Santos e da sua família e a forma como controlaram e usufruíram das riquezas do país como se fossem próprias. Em entrevista por escrito, fala sobre o arresto de bens de Isabel dos Santos e do marido, Sindika Dokolo, e de como o caso está a ser visto em França, país que chegou a manter uma relação muito próxima com o regime angolano até as coisas azedarem por causa do julgamento de Pierre Falcone, que vendeu armas ao MPLA nos anos 1990, apesar do embargo internacional, e a quem o então Presidente deu a nacionalidade angolana e chegou a nomear como representante na UNESCO, só para que tivesse passaporte diplomático.

O que pensa do processo de arresto de bens de Isabel dos Santos e Sindika Dokolo? É um processo político? 
É assim que Isabel dos Santos e Sindika Dokolo qualificam o congelamento dos seus bens em Angola pelo tribunal provincial de Luanda, a pedido do Serviço Nacional de Recuperação de Bens. A Justiça angolana, por seu lado, refere que se trata de uma medida preventiva para poder recuperar os fundos devidos ao Estado angolano. A questão da independência da Justiça em relação à presidência é antiga em Angola: apesar da separação dos poderes executivo e judicial consagrada na Constituição, o poder político tem, de facto, influência sobre a Justiça, e não é só porque o Presidente nomeia os altos magistrados. Durante a presidência de José Eduardo dos Santos, houve quem falasse de uma justiça às ordens do chefe de Estado. À sua chegada ao poder, João Lourenço prometeu uma nova realidade, que pressupõe o respeito pelo papel de cada instituição e a não-interferência nos assuntos da Justiça. Ainda é um pouco cedo para saber se será assim ou não.

Estamos perante mais uma batalha da guerra entre João Lourenço e José Eduardo dos Santos? 
Esta acção judicial vem pressionar ainda mais as relações já por si complicadas entre o antigo e o novo Presidente angolano. As tensões começaram na transferência de poder em 2017 e não pararam de crescer à medida que os membros da família Dos Santos enfrentavam problemas. José Filomeno, o primeiro filho de José Eduardo dos Santos, está a ser julgado e pode ser condenado a uma pena de prisão. A sua meia-irmã, Tchizé dos Santos, foi excluída da Assembleia Nacional por ausência demasiado prolongada do país e do MPLA, por desrespeitar as regras de disciplina do partido presidencial. Até agora, a filha mais velha do ex-Presidente, Isabel dos Santos, tinha conseguido limitar o impacto das medidas impostas contra ela à demissão da Sonangol em 2017 e à perda de contratos ou posições das suas empresas. Esta acção judicial, com grande cobertura mediática, constitui um golpe muito duro. A imagem de sucesso da família Dos Santos no exterior ficou manchada. Dito isto, lembremos que se trata, por agora, de uma medida preventiva e que a mesma é contestada por Isabel dos Santos.

Será este o princípio do fim da família Dos Santos em Angola ou é ainda muito poderosa em Angola? 
A família regista uma perda de influência inegável desde a eleição de João Lourenço. Isso explica-se pelas decisões da nova presidência, que afastou os membros da família Dos Santos de posições de poder. Mas a natureza do sistema político angolano, tal como foi construído por José Eduardo dos Santos, também desempenha um papel. O Presidente concentrou todo o poder nas suas mãos e, quando se deixa o lugar, perde-se a situação hegemónica. No entanto, alguns membros da família Dos Santos, e em particular Isabel dos Santos, conservam um poder considerável na economia angolana. Por outro lado, alguns beneficiários do antigo sistema, e são numerosos, podem ver-se tentados a apoiar a antiga família presidencial e travar as reformas lançadas pelo presidente João Lourenço para defender os seus interesses. Esse risco, juntamente com a necessidade de manter a unidade dentro do MPLA e de estabilizar a situação económica do país, constituem importantes desafios para Lourenço.

A França chegou a ter relações muito estreitas com Angola que se tornaram mais frias com o julgamento de Pierre Falcone, no chamado “Angolagate”, mas nos últimos anos houve uma reaproximação. O caso teve repercussão em França? 
Os media especializados em África noticiaram, alguns deles até falaram com Sindika Dokolo para obter a sua reacção e a sua leitura da situação. Ele denunciou uma “cabala” e uma vontade de “reescrever a história” por parte da administração Lourenço. Que eu saiba não houve nenhuma declaração oficial de França pela razão óbvia do respeito pela soberania angolana. Com efeito, a diplomacia francesa tem uma estratégia de reforço das relações com Angola há alguns anos. João Lourenço foi recebido por Emmanuel Macron em Maio de 2018 e falou-se de uma visita do Presidente francês a Luanda em 2020. Mas ainda não há confirmação dessa visita, nem uma data possível.

A família regista uma perda de influência inegável desde a eleição de João Lourenço, diz Estelle Maussion Pierre Morel

José Eduardo dos Santos ainda tem aliados em França? E poderão eles fazer alguma coisa para dificultar as relações entre os governos dos dois países? 
É uma questão difícil de responder. A França, como muitos países, apoia e saúda o desejo de reforma do pesidente Lourenço, com fim de desenvolver o país e diversificar a sua economia. E não faz menção, oficialmente, a eventuais relações com a antiga família dirigente do país. Todavia, é uma questão interessante e que mereceria também ser colocada em Portugal, onde a família Dos Santos e aqueles que estavam mais próximos do clã têm interesses económicos e relações políticas importantes.