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Hologramas, Instagram e porta-vozes: como não deixar morrer as histórias dos sobreviventes do Holocausto

Já só restam 400 mil sobreviventes ainda vivos, o que acontecerá quando já não existir ninguém para testemunhar o que se passou?

A sobrevivente Eugenia Unger no Museu do Holocausto, em Buenos Aires JUAN IGNACIO RONCORONI/EPA

A cada aniversário do Dia das Vítimas do Holocausto se repete a pergunta, que ganha a cada ano mais importância: como preservar os relatos dos testemunhos directos da Shoah? No 75º aniversário, apenas 400 mil sobreviventes continuam vivos, e se muitos ainda conseguem repetir as suas histórias – em sessões públicas, entrevistas, ou sessões mais pequenas em que podem responder a perguntas – outros já não. E o temor do que acontecerá quando morrer o último sobrevivente é comum a historiadores, responsáveis de museus, e aos próprios sobreviventes.

Um dos projectos mais ambiciosos neste âmbito é o Forever Project, do National Holocaust Center and Museum, no Reino Unido, em que hologramas de sobreviventes respondem em tempo real a perguntas postas pela audiência. 

Dez sobreviventes, agora com 70 ou 80 anos, foram filmados durante dias e dias de entrevistas, respondendo a até 1400 perguntas postas por milhares de crianças que visitaram o museu em mais de 20 anos. 

Perante uma sala, estão presentes em holograma. A audiência faz perguntas, o holograma responde, tudo é ligado com ajuda de um programa de reconhecimento de linguagem e algoritmo. É uma experiência mediada e limitada pelo que foi gravado e pela capacidade dos programas, mas permite participação activa de quem ouve. 

Esta participação é comum a muitos destes projectos e é a componente essencial para o seu sucesso, nota, numa conversa telefónica com o PÚBLICO, Tobias Ebbrecht-Hartmann, professor do Departamento de Comunicação da Universidade Hebraica de Jerusalém, e que  faz parte de um consórcio europeu a trabalhar no projecto “História visual do Holocausto: repensar a curadoria na era digital”. 

Outro tipo de experiência que tem vindo a ser oferecida é em locais que hoje são muito diferentes, dar tablets com imagens para ver o que existiu e onde: o ter de acertar com o local faz toda a diferença de cartazes informativos, por exemplo. No campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, onde quase nada restou (o campo foi queimado pelos britânicos, que temiam doenças) é possível receber os tablets e ver o que havia no local que se pisa no momento.

Neste caso, existiu o cuidado que também é comum a muitas destas experiências com tecnologia: o que é mostrado é um desenho abstracto do que estava e não uma reconstrução. “Não podemos sentir o que sentiram as pessoas, por isso não queremos ter tecnologia ‘imersiva’ a simular o passado, uma ilusão tipo jogo de computador”, sublinha o investigador. 

“Toda a gente tem medo de chegar a haver uma aplicação de realidade virtual em Auschwitz em 1943 ou 44 em que as pessoas cheguem a uma plataforma a ter uma experiência de selecção”, explica, referindo-se à altura em que os prisioneiros chegavam e eram divididos, alguns eram considerados aptos a trabalhar e mandados para um lado, e sobrevivam, outros para outro lado, e iam directamente para as câmaras de gás onde morriam. 

O que esta tecnologia quer não é recriar o passado mas sim “ligá-lo com o presente”, dar hipótese de contextualização, informação sobre quantas pessoas estiveram num dormitório, que estruturas havia, mostrar histórias de pessoas que passaram por lá, por exemplo.

Na tentativa de ligar o passado e o presente, um projecto, “Eva Stories”, teve uma recepção menos unânime. É uma conta de Instagram de uma adolescente, Eva, como se estivéssemos em 1944 e Eva Heyman, 13 anos, judia húngara assinada em Auschwitz, tivesse uma conta na rede social.

Foi lançado o ano passado em Israel e houve quem dissesse que estava “a um passo de selfies em frente aos portões de Auschwitz”. Ebbrecht-Hartmann tem outra opinião, e acha que o projecto, de vídeos curtos, é “interessante” pelo potencial não de levar a aprendizagem de factos, mas a “pôr os sobreviventes no presente”.

Além de todas as tecnologias, há um método muito antigo de fazer passar histórias de pessoas: na Alemanha, há voluntários que são uma espécie de embaixadores de sobreviventes que já estão demasiado cansados para se deslocar ou enfrentar plateias. Os voluntários, que conhecem as suas histórias, a maioria por as terem ouvido pessoalmente, contam-nas por eles.

A emissora alemã Deutsche Welle conta como Vanessa Eisenhardt, 29 anos, se tornou a porta-voz de Erna de Vries, 95 anos, e a representa em sessões escolares dedicadas aos Holocausto.

Eisenhardt não viveu a Shoah, mas ouviu Erna contar como ainda hoje, todos os dias há algo que faz a sobrevivente lembrar-se dos dias que passou no campo de Auschwitz: um pedaço de pão que esteja no chão traz-lhe a memória da muita fome que passou. O tronco branco de uma árvore faz com que se lembre do campo. 

De Vries e a mãe foram deportadas para Auschwitz, onde a mãe terá morrido. Erna saiu antes; quando se despediu da mãe, ambas sabiam que não iriam voltar a ver-se. A última coisa que Erna ouviu da mãe: “tens de lutar, tens de sobreviver, e tens de contar a toda a gente o que nos fizeram”.