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Hamas e Israel aproximam-se – e afastam-se – de nova guerra

Trégua segue-se a dois dias de rockets disparados contra Israel e de fortes bombardeamentos israelitas. Mas morreram dois palestinianos nos protestos da Marcha do Retorno.

Habitantes da Faixa de Gaza passaram duas noites afastados das janelas das casas para não serem atingidos por estilhaços, evitando afastar-se muito de casa, enquanto aviões israelitas bombardeavam o território. A acção israelita foi a resposta ao disparo de mais de cem projécteis da Faixa em direcção a Israel, levando os israelitas que moram perto do território palestiniano a passar grande parte dos mesmos dois dias nos seus quartos seguros (cada casa tem um), e ao cancelamento de alguns transportes e actividades na zona.

Foram dois dias e duas noites em que o Hamas e outras facções lançaram cerca de 180 rockets contra Israel, deixando sete feridos – um dos rockets atingiu a cidade de Beersheba, a 40 km, a primeira vez desde a última guerra, em 2014. Foram dois dias em que Israel atingiu 140 alvos em Gaza, matando três pessoas – incluindo, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, uma mulher grávida e a sua filha de 18 meses.

“Não percebemos nada”, dizia uma habitante de Gaza por telefone à jornalista Amira Hass, do diário israelita Ha’aretz. “Ambos os lados dizem que não querem guerra e ambos se atingem mutuamente como se estivessem em guerra.”

“Estou francamente surpreendido por ainda não ter havido uma guerra” entre Israel e o Hamas, comentou Khaled Elgindy, antigo conselheiro da liderança palestiniana que está hoje no centro de estudos Brookings Institution, em Washington, ao site Vox. “É apenas uma questão de tempo.”

De Israel, o jornalista Yossi Verter argumentou no diário Ha’aretz que o Hamas está a explorar a falta de vontade do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, lançar uma nova operação militar de larga escala em Gaza. As últimas três guerras desde que o movimento está no poder no território acabaram com um número enorme de vítimas palestinianas, um grande custo para Israel, e não conseguiram causar dano ao Hamas, que continua no poder.

O bloqueio a Gaza, que vai entrar no 11º ano, tem tornado a vida miserável aos habitantes do território, e até pode ter contribuído para alguma animosidade destes em relação ao Hamas – mas muito mais em relação a Israel. Organizações de defesa de direitos humanos consideram que é um caso de castigo colectivo. E não conseguiu beliscar a autoridade ao Hamas no território.

Edifício totalmente arrasado na Cidade de Gaza por bombardeamento israelita esta semana HAITHAM IMAD/EPA

A escalada dos últimos dias levou a tentativas renovadas da ONU e do Cairo para uma trégua de longo prazo entre o Hamas e Israel e um alívio ao bloqueio que faz com que as saídas de habitantes de Gaza para o exterior sejam ditadas por graus de urgência e arbitrariedade, as entradas de bens sejam rigorosamente controladas e restritas a apenas alguns produtos, e a que até a electricidade seja racionada: há apenas quatro horas de fornecimento, o que tem consequências no funcionamento de hospitais, que recorrem a geradores, tratamento de esgotos e acesso a água potável – isto além da dificuldade em arrefecer casas com as temperaturas do Verão.

O enviado da ONU, Nickolai Mladenov, falou de um “esforço sem precedentes” para evitar conflito. O Egipto começa, diz o Ha’aretz, a focar-se em medidas para estabilizar a situação na Faixa de Gaza, independentemente de outras iniciativas (acordos de reconciliação interpalestiniana entre Hamas e Fatah, ou potenciais iniciativas de paz dos EUA, o chamado “acordo do século” prometido por Donald Trump). 

Apesar da trégua, houve mais violência. Em mais um dia de protestos da Marcha do Retorno, para o qual o Hamas apelou a uma grande mobilização face às acções de Israel dos últimos dias, o Ministério da Saúde de Gaza reportou duas mortes, uma de um paramédico, vítimas de tiros dos soldados israelitas do outro lado da barreira que separa os dois territórios.

Desde o final de Março, quando começaram estes protestos semanais, morreram 159 palestinianos, segundo as autoridades de Gaza, e dezenas de milhares ficaram feridos. Israel avisou que dispararia contra quem se aproximasse da vedação, temendo ataques. Organizações de defesa de direitos humanos vêem potenciais crimes de guerra no uso de força letal para uma ameaça não letal.

Num território sujeito a enormes restrições, com uma grande percentagem de desemprego e subemprego, estes protestos acabaram por dar um objectivo a muitos habitantes de Gaza que não têm emprego e nada para fazer, e têm-se assim mantido depois de meados de Maio, quando deveriam ter terminado.