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Entrevista

“Há uma opinião generalizada de que Johnson é desonesto, mas que é o único que pode resolver o ‘Brexit’”

Roger Eatwell é um académico britânico que assume que a saída da UE é fundamental nas legislativas de quinta-feira e prevê mobilização do eleitorado remainer em redor de candidatos em melhor posição de derrotar concorrentes tories.

Para Roger Eatwell, professor de Política Comparada da Universidade de Bath, o favoritismo de Boris Johnson, nas eleições legislativas britânicas, deve-se a uma visão partilhada por grande parte do eleitorado de que o primeiro-ministro é o político melhor posicionado para resolver finalmente o “Brexit”, apesar de polarizador e disruptivo. 

Quanto a Corbyn, considera o co-autor do livro Populismo – A revolta contra a democracia liberal, da Desassossego, houve uma perda de protagonismo nos últimos anos, em grande medida pelas “hesitações” sobre o posicionamento do Partido Trabalhista sobre a saída britânica da União Europeia, 

Esta eleição é sobretudo sobre o “Brexit”?
Tendo em conta os motivos que levaram à sua convocação, a resposta simples é: sim, claro. A eleição foi convocada apenas dois anos depois da última, por causa das enormes divergências, na Câmara dos Comuns, sobre como proceder depois do referendo de 2016. Mas também porque Boris Johnson se convenceu que o Partido Conservador poderia aumentar a sua representação parlamentar e porque, face ao impasse, os outros partidos ficaram sem justificações para bloquear legislativas antecipadas.

E qual é a resposta complicada?
Se me perguntar sobre a natureza da campanha, a resposta é mais complexa. Os conservadores estão muito focados na narrativa da resolução do “Brexit”, evitando, no entanto, falar sobre a probabilidade elevada de as negociações com a União Europeia, sobre um futuro acordo de livre comércio, poderem vir a demorar mais do que o previsto, independentemente de os tories conseguirem uma maioria no Parlamento. Cenário que, tendo em conta o calendário apertado definido por Johnson [saída a 31 de Janeiro de 2020 e período de transição de um ano] poderá significar um “Brexit” sem acordo. Para além disso, os conservadores têm outras propostas, que se identificam mais com a ala One Nation do partido, e que são mais tradicionais do que a sua linha dura liberal gostaria. São um claro gesto de agradar às classes trabalhadores – um eleitorado a crescer – e de, ao mesmo tempo, evitar que a sua base de apoio, junto da classe média liberal, fuja para os Liberais-Democratas.

Como vê a estratégia do Partido Trabalhista? 
O Partido Trabalhista esquivou-se, em certa medida, da questão do “Brexit”, ao dizer que quer negociar um novo acordo de saída, levá-lo a referendo em seis meses e manter-se neutral em vez de apoiar a permanência na UE. Quanto ao resto, apresentou um conjunto muito radical de propostas políticas, que incluem nacionalizações, ou renacionalizações, e o aumento dos gastos com o serviço nacional de saúde – ao mesmo tempo que critica a possibilidade de abrir o NHS às empresas farmacêuticas norte-americanas. Se olharmos para estas eleições do ponto de vista do eleitor comum, o “Brexit” é essencial. E é a principal razão para que os ex-eleitores do Labour mudem para os conservadores. Por isso mesmo, haverá mais votos tácticos do que o habitual e é provável que muitos eleitores remainers votem no candidato melhor posicionado para derrotar o concorrente conservador. Mas em qualquer eleição, ou referendo, as pessoas não votam apenas por um motivo. O Labour está a tentar angariar eleitores atacando a desonestidade de Jonhson e assustando as pessoas com os anos de austeridade imposta pelos conservadores, a partir de 2010. O primeiro-ministro, por seu lado, garante que a austeridade vai acabar definitivamente.

Como se explica o favoritismo de Johnson?
Johnson é um político bastante polarizador. Há gente que o odeia e há gente que se sente bastante próxima dele. Parece haver, no entanto, uma opinião generalizada de que é desonesto e que apenas se guia pelos seus interesses pessoais. Apesar disto e até por isto, muitos acreditam que é o político britânico que tem mais possibilidades de resolver finalmente a questão do “Brexit”.

E como vê as dificuldades de Corbyn em convencer os britânicos?
Corbyn perdeu grande parte do brilho que tinha em 2017. Mesmo que afastasse muitos eleitores devido ao seu percurso, era visto por outros como um político autêntico, alguém com convicções profundas e pouco influenciado pelos comentadores e meios de comunicação. Porém, as suas ideias antigas de esquerda são entendidas por cada vez mais eleitores como perigosas, e as suas hesitações sobre o posicionamento do partido no “Brexit” ou num segundo referendo afastaram aqueles que procuram líderes “fortes”.

Os Liberais-Democratas e o Partido do Brexit perderam algum do seu ímpeto inicial. Porquê?
O sistema eleitoral britânico, uninominal e por maioria simples, tende a comprimir os terceiros partidos nas eleições mais importantes. Nas eleições europeias, por exemplo, há mais votos de protesto, etc. Os Liberais-Democratas comprometeram-se firmemente, e desde o início, na defesa da revogação do artigo 50.º [cancelamento do pedido de saída à UE], mas a estratégia não parece estar a convencer uma grande fatia de eleitores remainers. A isto somam-se algumas dificuldades em aliciar estes eleitores com propostas políticas mais concretas e desempenhos menos bons da sua nova líder [Jo Swinson] em debates televisivos. Quanto ao Partido do Brexit, acabou por perder espaço quando Johnson assumiu a sua posição irredutível sobre o “Brexit” e ficou fragilizado quando [Nigel] Farage desistiu de criticar o actual acordo de saída, de defender o divórcio total com a UE e o partido abdicou de concorrer a vários círculos eleitorais conservadores.