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Ainda há dezenas de resistentes dentro da Universidade Politécnica de Hong Kong

Ao terceiro dia de cerco permanecem no campus universitário cerca de 100 manifestantes, em condições cada vez mais dramáticas. Governo diz que já se renderam 600 pessoas e que foram detidas mais de mil. Pequim rejeita decisão de tribunal de Hong Kong.

O cerco da polícia de Hong Kong à Universidade Politécnica já vai no seu terceiro dia e encontra-se esta terça-feira numa situação de impasse. Dentro do campus ainda resistem cerca de 100 estudantes e manifestantes antigovernamentais, que recusam render-se às autoridades, mas que se deparam com condições cada vez mais dramáticas – falta comida, medicamentos e agasalhos.

Segundo a líder do governo de Hong Kong, Carrie Lam, entregaram-se à polícia cerca de 600 manifestantes, na sequência de negociações entabuladas por dois mediadores indicados por si indicados. Desses, 400 foram imediatamente detidos e podem enfrentar penas de prisão até dez anos, pelo delito de participação num motim – um dos principais motivos pelos quais os que ainda resistem rejeitam render-se.

Os restantes 200, menores de idade, foram identificados pela polícia e autorizados a ir para casa. No total, já foram feitas mais de 1000 detenções nos últimos três dias.

“Vamos continuar a utilizar todos os meios para persuadirmos os restantes manifestantes a abandonarem o campus o mais brevemente possível, para que toda esta operação possa terminar de uma forma pacífica, estabelecendo as bases para a polícia pôr fim à violência em Hong Kong”, afirmou Lam esta terça-feira, citada pelo South China Morning Post.

Entre os que abandonaram o campus nas últimas horas, escreve o jornal local, contam-se dezenas de casos de hipotermia e de ferimentos vários, resultantes dos confrontos com a polícia. O deputado pró-democracia Ted Hui, que se encontra dentro da universidade, confessa que os manifestantes não têm mantimentos “para resistir durante mais um dia”.

“Estou encurralado na Universidade Politécnica há dois dias e já quase não há comida e água”, relata à BBC um manifestante que se encontra no campus. “A maioria das pessoas quis fugir deste inferno, muitos tentaram escapar e falharam. Foram detidos ou ficaram feridos”.

De acordo com as autoridades médicas, já deram entrada nos hospitais da cidade 235 pessoas, com idades compreendidas entre os 15 e os 66 anos. Uma está em estado crítico e 12 em estado grave.

Transformado num autêntico campo de batalha, o campus universitário encontra-se cercado pela polícia desde domingo à noite. “Não vejo outra solução viável para além da rendição”, proclamou na segunda-feira o comandante Cheuk Hau-yip.

Os ataques que sofreram flechas, tijolos, cocktails-molotov e outras armas improvisadas, por parte dos manifestantes, levaram as forças de segurança a montar um perímetro em volta da universidade, a exigir a rendição total de todos os barricados e a responder a fugas a partir de locais não autorizados com gás lacrimogéneo, canhões de água e balas de borracha – tendo já admitido utilizar “balas reais” se a violência continuar.

Muitos conseguiram escapar, quer utilizando cordas para descer até uma auto-estrada que passa ao largo da universidade, quer por outros pontos entretanto bloqueados pela polícia. Segundo a Reuters, houve até casos de activistas que fugiram através da rede de esgotos.

Os termos das rendições dos menores de idade foram apresentados aos manifestantes pelo político pró-Pequim Jasper Tsang. À Reuters, uma estudante de 16 anos que optou por se entregar, confirmou que existe um enorme receio junto dos que ainda se encontram dentro da universidade, por causa das penas pesadas que lhes podem cair em cima. 

A solução encontrada para os menores acabou por se revelar favorável, face ao cenário de desespero que ali se vivia: “Estamos a tentar escapar [do campus] desde ontem [segunda-feira] de manhã. Mas não encontrámos uma via de fuga e tínhamos medo de ser acusados. Estava desesperada e esta foi a única solução”.

O cenário de destruição e de caos em Hong Kong, fotografado, filmado e repetidamente publicado e partilhado nas redes sociais e nos principais sites de notícias internacionais, não se limita apenas à Universidade Politécnica. Milhares de pessoas aproximaram-se do cerco, na segunda-feira à noite, pedindo liberdade para os activistas encurralados e criticando a postura repressiva da polícia.

As autoridades policiais rejeitam, no entanto, as acusações de excessos na sua resposta à desobediência civil. Chris Tang, que esta terça-feira assumiu o cargo de novo chefe da polícia, substituindo o agastado Stephen Lo, disse que a reputação das forças de segurança está a ser colocada em causa à conta de “notícias falsas”.

Os protestos em Hong Kong – antigo território britânico, administrado desde 1997 pela República Popular da China, de acordo com o princípio “um país, dois sistemas” – já duram há cinco meses, tendo entrado nos últimos dias na sua etapa mais violenta e a poucos dias de eleições para os conselhos dos vários distritos em que o território está dividido, agendadas para domingo. A sua realização está, no entanto, em dúvida, depois de o governo ter admitido o seu adiamento por causa do conflito na Universidade Politécnica.

A contestação começou como um movimento de oposição a uma proposta de lei, entretanto suspensa, que permitiria extradições de detidos para a China continental – o que poria em causa a independência judicial e facilitaria julgamentos “políticos” de opositores e activistas, segundo os manifestantes –, mas evoluiu para um protesto generalizado, que exige a democratização das instituições políticas do território.

Pequim não treme

A China é que não parece disposta a mudar a sua posição em relação à sua posição sobre Hong Kong. Um editorial do Global Times – jornal de língua inglesa pró-Pequim –, publicado esta terça-feira, exige a punição para os promotores da violência urbana: “O Estado de Direito pode salvar Hong Kong, mas apenas no pressuposto de que os desordeiros serão punidos”.

E numa declaração que não foi bem recebida junto do movimento pró-democracia em Hong Kong, Zang Tiewei, um porta-voz do comité legislativo do Partido Comunista Chinês, disse que a mais recente decisão de um tribunal de Hong Kong, decretando como inconstitucional a proibição de máscaras decretada pelo governo local, com base em legislação da era colonial, não é da sua competência, mas do poder legislativo de Pequim.

“Só o Comité Permanente da Assembleia Popular é que pode julgar e decidir se as leis de Hong Kong são consistentes com a sua Lei Básica”, disse Tiewei, citado pelo SCMP. “Nenhuma outra autoridade tem o direito de fazer julgamentos ou tomar decisões”.