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Opinião

Foi há 30 anos. E o mundo mudou para melhor

Hoje, precisamente 30 anos após a queda do muro de Berlim, é um excelente dia para celebrar o nosso modo de vida, a nossa democracia, a nossa liberdade para falar, discordar, votar, comprar, viajar, fundar empresas, criar associações, dizer mal de quem nos apetece e amar quem desejamos, sem outros constrangimentos além da Lei.

(Versão em áudio lida pelo próprio autor no final desta crónica)

De vez em quando – só muito de vez em quando – devíamos fazer um esforço para suspender a desconfiança e o cinismo que nos protege das desilusões, e conceder-nos o prazer de saborear com calma e demora aqueles momentos em que a História foi muito generosa para connosco, e onde, por uma misteriosa combinação de atrapalhação, surpresa e sorte, os astros se alinharam para produzir uma explosão rara de esperança e de felicidade. Foi assim a noite de 9 de Novembro de 1989.

Tenho 46 anos. No intervalo da minha vida assisti a dois momentos históricos que mudaram o mundo como antes o conhecia. Era um jovem de 16 anos quando caiu o muro de Berlim, nessa noite de quinta-feira de Novembro de 89 e no fim-de-semana prolongado que se lhe seguiu; e tinha 28 anos quando caíram as Torres Gémeas, na manhã de 11 de Setembro de 2001. Nos 12 anos que separam esses dois acontecimentos, eu passei de adolescente a adulto, e o mundo ocidental passou da confiança num futuro grandioso a uma grandiosa desconfiança no futuro, e em quase tudo aquilo que nos rodeia: os extremismos políticos, a crise ambiental, a desigualdade social, o inverno demográfico, as guerras culturais. O fim da História anunciado por Francis Fukuyama em 1992, logo após a dissolução da União Soviética, revelou-se manifestamente exagerado – mas não me parece menos exagerado o receio que tantos têm actualmente da implosão das democracias liberais.

Por isso, hoje, precisamente 30 anos após a queda do muro de Berlim, é um excelente dia para celebrar o nosso modo de vida, a nossa democracia, a nossa liberdade para falar, discordar, votar, comprar, viajar, fundar empresas, criar associações, dizer mal de quem nos apetece e amar quem desejamos, sem outros constrangimentos além da Lei – uma Lei que é igual para todos os cidadãos, que regula um regime em que escolhemos quem manda em nós, e com um sistema de pesos e contrapesos que nos protegem dos poderes absolutos. Sim, eu sei que tudo isto tem um “mas”, um “no entanto” e vários “infelizmente”. Mas não é isso que importa hoje. O que importa é perceber que nós temos a sorte (e é mesmo uma sorte) de estar do lado certo do muro, e que sempre que estes muros caem são os outros, os que estão de fora, que querem vir partilhar o nosso modo de vida, não somos nós que vamos a correr comprar casa em paralelepípedos sombrios ou guiar um Trabant.

A República Democrática Alemã – que, como dizia a velha piada, não era uma república, não era democrática, nem era alemã – caiu no preciso momento em que um porta-voz atrapalhado, chamado Günter Schabowski, disse que a nova lei que permitia aos alemães de Leste saírem do país tinha efeitos imediatos, e em que os soldados que guardavam o muro não tiveram coragem para disparar sobre a multidão que imediatamente se acumulou ao seu redor. A queda do muro de Berlim naquela noite foi um mero acaso, que ninguém esperava, o que apenas tornou a sua queda mais bela – mas não é um acaso a decadência da União Soviética, nem a derrota catastrófica do comunismo.

O mundo livre em que vivemos tem muitos defeitos, mas ainda ninguém inventou melhor. O PCP escreveu a propósito dos 30 anos da queda do muro que “é uma evidência” que, com o fim da RDA e da União Soviética, “a globalização capitalista que lhe sucedeu tornou o mundo mais oprimido, mais injusto, mais inseguro”. A única evidência que vejo aqui é que, 30 anos após a queda do muro de Berlim, já nem os comunistas acreditam nisso.

Ouça aqui a crónica em versão áudio gravada pelo próprio autor: