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Guterres afirma que existe um conflito sério entre pessoas e natureza

Há uma grande diferença no diálogo sobre alterações climáticas graças ao impulso dos jovens, considera o secretário-geral das Nações Unidas.

Guterres e Greta Thunberg na Cimeira da Acção Climática para a Juventude, em Nova Iorque Reuters/CARLO ALLEGRI

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, disse hoje, na abertura da Cimeira da Acção Climática para a Juventude que, pela primeira vez na história, existe um “conflito sério entre pessoas e natureza”.

António Guterres afirmou também que o mundo precisa de um novo modelo de desenvolvimento, ligado às alterações climáticas, que garanta justiça e igualdade entre as pessoas, mas também uma relação boa entre a população e o planeta. O secretário-geral declarou-se e foi apresentado como “ouvinte principal” em vez de orador na abertura da cimeira, que se iniciou hoje na sede das Nações Unidas em Nova Iorque, e fez estas observações depois de quatro jovens activistas, entre os quais Greta Thunberg, terem falado.

António Guterres mencionou que os conflitos políticos e geográficos acontecem há milhares de anos, mas a novidade é que as populações estão em conflito com o planeta e as consequências estão a atingir os mais vulneráveis. Este conflito “pode ser absolutamente destrutivo para o futuro das nossas comunidades e das nossas sociedades”, alertou. Para António Guterres, não faz sentido que existam, em várias partes do mundo, subsídios para a utilização de combustíveis fósseis, financiados com o dinheiro dos contribuintes.

“Não faz sentido que o nosso dinheiro seja usado para provocar furacões ou para branquear os corais ou para destruir comunidades”, observou o político português. O fim dos subsídios pode significar um alívio nas contas dos contribuintes, permitindo um maior movimento na economia verde e a criação de empregos decentes.

António Guterres afirmou que é possível criar uma estratégia de duplo ganho ("win-win") ao combinar acção climática com uma globalização justa, com a Agenda 2030 e os objectivos de desenvolvimento sustentável. Por outro lado, lembrou que há uma grande diferença no diálogo sobre alterações climáticas há dois anos a esta parte e que a principal fonte de uma mudança no impulso foi a juventude.

“Esta alteração no impulso foi em grande parte devido à vossa iniciativa e à coragem com que começaram o movimento e transformaram, de um pequeno movimento em frente a um parlamento [...] em milhões de todo o mundo a dizerem claramente que não querem só que os políticos mudem de comportamento, mas que também sejam responsabilizados”, disse António Guterres a todos os jovens.

O secretário-geral da ONU relembrou que há dois anos, quando começou os trabalhos para a Cimeira da Acção Climática, se sentia muito negativo e pessimista sobre o estado do ambiente e o combate às alterações climáticas, porque “havia uma sensação de apatia e era muito difícil pôr todos a dialogar” a nível político. A impressão negativa mudou “de repente” com o impulso dos movimentos de jovens. Apesar de o mundo estar em situação “dramática” e crítica em termo de ambiente, natureza e recursos naturais, o secretário-geral destaca o entusiasmo vindo desta faixa etária, incentivando os jovens a prosseguirem o combate às alterações climáticas.

“Cada vez mais, responsabilizem mais a minha geração. A minha geração tem fracassado até agora em preservar a justiça no mundo e em preservar o planeta”, declarou o português de 70 anos. O problema dos líderes políticos é falarem demasiado mas ouvirem muito pouco, concluiu.

Depois do encontro dos jovens, é a vez de, na próxima segunda-feira, os líderes mundiais também se reunirem em Nova Iorque, numa cimeira convocada pelo secretário-geral da ONU destinada à fixação de objectivos mais ambiciosos na contenção do aquecimento global.