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“Estamos em guerra”, disse Presidente do Chile — e choveram críticas

Sebastian Piñera usou linguagem bélica e mandou as tropas avançar contra os manifestantes que protestam contra a desigualdade no Chile. Foi posto em causa por um general e internacionalmente. Os protestos nas ruas chilenas causaram 13 mortos.

Manifestantes enfrentam um veículo antimotim em Valparaiso Rodrigo Garrido/REUTERS

Face aos violentos protestos nas ruas, que começaram por ser contra o aumento do preço dos bilhetes de metro, mas agora são contra a profunda desigualdade da sociedade chilena, o Presidente Sebastian Piñera declarou que o país “está em guerra contra um inimigo poderoso, implacável, que está disposto a usar a violência e a delinquência sem limites.” Foi corrigido pelo chefe da Defesa Nacional, o general Javier Iturriaga: “Eu sou um homem feliz, não estou em guerra com ninguém”.

Com os mineiros da maior mina de cobre do mundo, a Escondida, a convocarem um dia de greve em solidariedade com os protestos para terça-feira – “pelo menos durante um turno”, disse Patricio Tapia, presidente do Sindicato nº1 de Escondida –, a bolsa de Santiago de Chile e o peso a descerem, estes protestos que se alargaram a várias cidades tornaram-se um pesadelo para Piñera.

Mas a reacção posta aos protestos montada pelo Presidente, de direita, não ajudou em nada. A oposição confrontou o Presidente nos media, acusando-o de falta de liderança política e de não saber dialogar, criticando a imposição do estado de excepção no país, que vigorará durante duas semanas, segundo dita a lei.

Os protestos no Chile causaram pelo menos 13 mortos, segundo um balanço feito esta terça-feira pelas autoridades depois de terem encontrado o corpo de um homem que morreu electrocutado durante a pilhagem a um supermercado em Santiago. 

A ex-Presidente (de esquerda) e actual Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, apelou esta segunda-feira a que sejam feitas investigações independentes sobre estas mortes, afirmou, citando “acusações perturbantes” de uso excessivo da força pela polícia. Segundo Bachelet, haverá ainda 44 feridos, nove deles em estado grave, e 283 detidos. O Ministério do Interior contabilizou o número de detidos em 1906, acrescentou a ex-Presidente chilena.

Sem fazer referências explícitas ao seu sucessor na presidência, Michelle Bachelet apelou ao diálogo imediato e a que cesse a “retórica inflamatória”, que só poderá agravar a situação, diz a Reuters.

Internacionalmente, a imagem de Sebastian Piñera e do Governo do Chile estão a sofrer com esta reacção contra os manifestantes que parece saída de outros tempos de má memória da América do Sul. “A resposta do Governo foi inábil”, classificou a revista The Economist, cuja opinião é valorizada pelas democracias liberais. Destacou como o ministro da Economia chileno sugeriu aos habitantes da capital que se levantassem mais cedo para pagarem bilhetes do metro mais baixos.

“A distância da elite política chilena é parte da explicação para esta crise, mas a arrogância da elite no Chile não é apenas da elite política, é da elite em geral. É como se não se tivessem dado conta de que estão noutro país, com pessoas que esperam ser tratadas de outra forma”, disse à BBC Mundo a psicóloga Kathya Araujo, que se estuda as formas de autoridade e e transporte no Metro de Santiago do Chile.

 A Economist sublinha as desigualdades. “Os chilenos não estão indignados apenas por causa do preço dos transportes. Pagam imenso pelo sistema de saúde [quase todo privado] e geralmente têm de esperar muito tempo para ter uma consulta com um médico. A educação pública é pobre. As pensões, geridas por empresas privadas sob um sistema criado pelo regime de Pinochet, são baixas”, resume a revista britânica. A desigualdade não pára de crescer: “Em 2017, os rendimentos do décimo mais rico da população eram 39,1 vezes mais altas do que as do décimo mais pobre – e isso é 30,8 vezes mais do que em 2006”.

Notícia actualizada às 8h47 de 22 de Outubro: foi acrescentado o balanço de mortes feito pelas autoridades.