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A “melhor semente é a Frelimo”, disse Nyusi a fechar a campanha

O comício de encerramento de campanha do partido do poder em Moçambique foi um verdadeiro espectáculo de organização, com um mar de gente vestida de vermelho e amarelo para ouvir o Presidente.

Ao fim de 44 anos no poder, a máquina política da Frelimo está bem oleada. Quando se pergunta: quantas pessoas estão aqui, a resposta vem com rigor: “Um hectare preenchido, a três pessoas por metro quadrado, estão aqui 48 mil pessoas”. O Presidente moçambicano encerrou os 43 dias de campanha com um “showmício” na Matola, a capital da província de Maputo, frente a um mar de gente com camisolas vermelhas e capulanas com o seu rosto, apelando ao voto em si e na Frelimo.

Uma festa popular cheia de músicos apoiantes do partido, com danças, cantares, frases de ordem e um clima geral de bonomia, assim se pode resumir o que foi o comício de encerramento da Frelimo. Autocarros e autocarros trouxeram militantes garridos no vermelho vivo do partido que já foi único, apoiados por vuvuzelas ensurdecedoras – fazendo lembrar os gritos constantes dos pavões do palácio presidencial que circulam à solta pela vizinhança e chegam a cortar o trânsito.

Até um longo camião basculante de transporte de areia ou pedra serviu para se engalanar de amarelo, que também é cor do partido, e meter-se ao caminho, desde Maputo até à Matola, cheio de militantes ruidosos.

Tudo organizado para relembrar a popularidade do partido, principalmente no sul de Moçambique, onde a sua influência é muito maior – na capital, enquanto Nyusi tem direito a uma profusão de outdoors, com uma cara nitidamente rejuvenescida em estúdio, a oposição mal se vê, com uns pequenos cartazes tímidos de Ossufo Momade e a quase ausência do MDM e de Daviz Simango, que nem se lhe enxerga a propaganda. Daí que ambos tenham preferido acabar a campanha em territórios que lhes são mais favoráveis, Momade em Nacala e Simango na Beira.

“Camarada secretário-geral, a esta gente toda que está aqui o que é que lhe prometeu?”, perguntou Nyusi a Roque Silva, a quem coubera abrir a parte política do “showmício”. “Foram prometidas bicicletas?”, questionou o líder da Frelimo, para ouvir o “não” esperado do coro da multidão; “foi-lhes dito que depois das eleições cada um terá direito a uma motorizada?”, e ouviu-se outro “não” colectivo. A mesma resposta tiveram outras perguntas do género, destinadas a um único propósito, responder à oposição e a organizações da sociedade civil que falam de manipulação do recenseamento eleitoral e de aliciamento dos eleitores por parte da Frelimo.

Com tanta coisa agendada, Nyusi acabou por ser vítima da maratona de entusiasmo em que se transformou o comício, porque quando começou a discursar já a tarde ia adiantada e ao passar para os assuntos sérios no discurso – “algo que vocês não gostam”, como referiu – já havia militantes a preparar-se para partir. Alguns caminhavam em direcção aos veículos em que haviam sido transportados, outros já esperavam o arranque dos autocarros instalados nos seus assentos.

Nada que beliscasse um comício preparado com profissionalismo e onde o chefe de Estado optou por um tom pedagógico, numa linguagem popular de pai para filhos – ensinando onde colocar a cruz no boletim, relembrando que têm de receber três boletins para votar (para a Assembleia da República, para a Presidência e para as assembleias provinciais), contando “histórias da peregrinação” que foram os 43 dias de campanha por todo o país e falando de uma senhora mais velha e da sua metáfora da semente de abóbora, só para garantir que a Frelimo é “a melhor semente”.

No fim, o clima era de relaxamento de quem está a contar com mais uma vitória eleitoral. Como cantou um dos artistas que se foram sucedendo em catadupa no pequeno palco colocado ao lado do palco maior, onde estava sentado Nyusi com alguns dirigentes da Frelimo, acompanhado em uníssono pelos apoiantes da Frelimo presentes: “Relaxa” porque “é só teu, o meu voto Nyusi, é só teu”.