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Greta cruza o Atlântico de barco para mudar consciências

A jovem sueca decidiu cruzar o Atlântico num iate para alertar para a ameaça das alterações climáticas e provar que há alternativas de transportes não poluentes aos voos comerciais. Críticos não lhe perdoam e continuam “campanha de ódio e conspiração”.

O mar está a agitado, o vento forte e, por alguns momentos, golfinhos chegam a acompanhar a embarcação. É a época dos furacões no Atlântico e o objectivo é cruzar em duas semanas o oceano para chegar a Nova Iorque, nos Estados Unidos, a tempo de uma conferência climática das Nações Unidas. A bordo vai a jovem sueca Greta Thunberg, que fez sua missão despertar o mundo para a ameaça das alterações climáticas. Já passou cinco dias em alto mar e ainda faltam bastantes mais até poder dizer terra à vista.

Sem ilusões sobre o desafio que a esperava, Greta, de 16 anos, despediu-se da mãe e dos seus mais próximos e embarcou no iate a 14 de Agosto. Com ela foram o pai, um operador cinematográfico, Nathan Grossman, e dois velejadores experientes, o capitão Boris Herrmann e Pierre Casiraghi, neto do príncipe Rainier III do Mónaco. As ondas estavam calmas quando o Malizia II abandonou a doca da Marina de Mayflower, em Plymouth, no Reino Unido. Com a costa a afastar-se, a jovem acenava em despedida a quem a via, em terra, partir para a aventura.

“As pessoas precisam de se unir e pressionar os poderosos para que façam alguma coisa”, disse Greta em conferência de imprensa antes de seguir viagem. É precisamente esse o objectivo: mostrar que “existem alternativas” aos combustíveis fósseis e obrigar a que acções mais assertivas sejam feitas para travar as alterações climáticas. Em vez de se viajar de avião, deviam-se usar outras alternativas, mesmo que a viagem de iate não esteja ao alcance da maioria das pessoas, argumenta. E não há tempo a perder, garante. 

Construído em 2015 para competições mundiais de vela, o Malizia II tem 18 metros de comprimento e é conhecido pelo seu desconforto. Não tem casa de banho, duche nem cozinha e nele há pouco espaço para se esticarem as pernas, com cordas e velas a intrometerem-se. Os tripulantes terão de fazer as necessidades num balde e a dieta das próximas duas semanas serão à base de refeições vegans liofilizadas –​ processo de desidratação em que o produto é congelado sob vácuo e se forma gelo. 

Os únicos luxos de Greta serão uma lamparina para ler e um pequeno colchão, ainda que confortável, num espaço mínimo. Para ser totalmente independente de combustíveis fósseis, o iate tem painéis solares e turbinas submersas para gerar a pouca electricidade que a embarcação consome – também tem um motor a carbono, por razões de segurança. O acesso à Internet é tumultuoso e a bordo há um telefone por satélite.

“A viagem não vai ser confortável, mas eu consigo viver com isso. Só tenho que pensar que são duas semanas e que depois volta tudo ao normal”, disse Greta. Este domingo voltou a dar sinais de vida nas redes sociais e garantiu às mais de um milhão de pessoas que a seguem no Twitter que tudo está a correr pelo melhor e que está a ser “um dia de sol com bons ventos”. “A comer e a dormir bem e sem enjoos até agora. A vida no Malizia II é como acampar numa montanha russa”, escreveu no sábado. E nem em alto mar deixou, na sexta-feira, de apelar e participar, ainda que simbolicamente, na greve estudantil climática: “Semana 52 da greve estudantil. Posição: 47 graus, 17 minutos norte e 13 graus, 17 minutos oeste”.

Greta sabe que a viagem é sobretudo simbólica e que nem todas as pessoas podem suster os custos de uma aventura do género –​ só o iate custa quatro milhões de libras (quatro milhões e 300 mil euros). É simplesmente muito cara, garante o capitão Boris Herrmann. “O custo seria astronómico. Muito poucas pessoas têm o luxo ou a capacidade para fazer duas semanas de viagem”, disse. “Não digo às pessoas o que fazer. Podem fazer o que quiserem”, reiterou a jovem.

Uma viagem de avião até Nova Iorque seria muito mais barata e, certamente, muito mais poluente. A jovem activista tem-se dedicado a criticar a poluição produzida pela aviação civil e, quando viaja pela Europa, faz questão que seja por comboio. Com o destino a ser o outro lado do Atlântico, Greta teve de improvisar e a viagem de iate foi a solução encontrada. Os seus apelos e críticas têm tido tanto sucesso que alguns aeroportos suecos anunciaram que o número de passageiros diminuiu significativamente, atribuindo-se a responsabilidade ao “Efeito Greta”, segundo o Vox. “As viagens aéreas na Suécia caíram 4,5% no primeiro trimestre. Há menos 400 mil passageiros”, festejou a activista no Twitter.

Um avião que cruze o Atlântico emite por passageiro quase uma tonelada de dióxido de carbono, diz a BBC. A imagem piora se se tiver em conta que todos os dias mais de 2500 voos cruzam os céus do Atlântico Norte e que a Organização Internacional de Aviação Civil calcula que em 2050 a poluição aumentará entre 300 a 700%, se se comparar com a poluição de 2005, segundo o Vox. Por isso mesmo tem Greta apontado baterias ao sector e os seus críticos, como já a habituaram, não o toleram.

Campanhas de ódio

Uns acusam-na de ser uma catastrofista e outros de não passar de uma simples marioneta ao serviço de interesses do capitalismo verde. A extrema-direita alemã até a definiu como um dos principais alvos e os deputados dos Republicanos e da União Nacional apelaram a que se boicotasse o discurso dela no Parlamento francês. E até valem golpes baixos: gozar com o seu autismo – Greta tem Asperger.

“Nunca vi uma rapariga tão nova e com tantas perturbações mentais ser tratada como guru por tantos adultos”, escreveu numa coluna de opinião Andrew Bolt. A resposta da jovem sueca não tardou no Twitter: “Estou ‘profundamente perturbada’ pelo facto de se permitir que estas campanhas de ódio e conspiração continuem e continuem”.

Os ataques não cessam e, para Greta, já faz parte da sua ‘nova’ vida. Há até quem aproveite a viagem para lhe desejar o indesejável: “Acontecem estranhos acidentes de iates em Agosto”, escreveu Arron Banks, celebridade do negócio das seguradoras e uma das figuras mais importantes da defesa do “Brexit”, também no Twitter.

Porém, o embate mais recente foi com Steve Milloy, antigo membro da equipa de transição do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e conhecido comentador negacionista da Fox News. “Quando se recorre a uma adolescente fantoche para se argumentar na política, perdeu-se. Choramingões do clima, o mundo ri-se desta fantochada”, escreveu no Twitter.

Greta sabe quem está do outro lado e a verdade é que não parece perder muito tempo a responder a cada crítica e acusação. Ao invés, prefere desvalorizar, desprezando até, deixando-os a falar sozinhos. “Vai haver sempre pessoas que não compreendem ou aceitam a ciência. Vou ignorá-los. Os negacionistas das alterações climáticas querem mudar o foco da crise climática para outra coisa. Não me vou preocupar com isso. Vou fazer o que tenho de fazer”, respondeu a jovem.

Mais uma greve climática

Em 2018, Greta deu início ao seu activismo quando, sozinha e então no nono ano de escolaridade, fez greve climática todas as sextas-feiras para protestar em frente ao Parlamento sueco. Exigia ao Governo que reduzisse as emissões de dióxido de carbono para não agravar o efeito de estufa que causa as alterações climáticas – a Suécia tinha acabado de sofrer alguns dos mais intensos incêndios florestais dos últimos anos.

A greve chamou a atenção e a jovem transformou-se num símbolo. Um ano depois, a greve estudantil climática levava milhares de jovens e adultos para as ruas de mais de 100 países, entre os quais Portugal. Entretanto, Greta tem sido presença assídua em eventos públicos (como a Cimeira do Clima), parlamentos e manifestações em que alerta para os riscos das alterações climáticas. 

Agora vai participar na Conferência Climática das Nações Unidas em Nova Iorque, a 23 de Setembro, e numa segunda, desta vez em Santiago, no Chile, em Dezembro. E a viagem pode mesmo não ficar por aqui: Greta adiantou ao New York Times haver a hipótese de visitar o Canadá e o México para conhecer pessoas mobilizadas pela luta contra as alterações climáticas.

Uma luta que também tem mobilizado deste lado do Atlântico, levando milhões para as ruas por todo o continente europeu. A 27 de Setembro há uma nova greve estudantil pelo clima e espera-se que os estudantes não sejam os únicos a aderir, pelo menos é esse o desejo dos organizadores em Portugal. Querem que trabalhadores se lhe juntem e que autarquias lhe adiram numa exigência comum para que os poderosos façam mais no combate às alterações climáticas. Uma greve para “dar um sinal inequívoco a todo o planeta de que o que está a ser feito não chega”, como relembrou ao PÚBLICO o activista João Camargo, do Climáximo.

Por agora, a jovem grevista climática vai encontrar-se com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e já disse não ter a intenção de conversar com Donald Trump. Sabe “não conseguir convencer todas as pessoas”, não fosse o chefe de Estado norte-americano um conhecido negacionista com fortes ligações aos interesses petrolíferos. Entretanto, o iate de Greta lá vai surfando as ondas a caminho do em tempos chamado novo mundo.