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Gerry Adams começa a dizer adeus às “armas”

O líder histórico do partido republicano Sinn Féin — o braço político do IRA — oficializa a sua saída da vida pública, que só vai acontecer no ano que vem.

O líder histórico do Sinn Féin Gerry Adams WILL OLIVER/EPA

O presidente do Sinn Féin, Gerry Adams, fez na noite deste sábado um discurso “histórico”. Em Dublin, onde decorreu o congresso do partido, confirmou que em 2018 se retira ao fim de uma liderança de 34 anos. 

A oficialização da decisão, que já era conhecida, completa a mudança geracional no Sinn Féin. Encerra-se o capítulo dos líderes ligada à violência republicana, e inicia-se o dos dirigentes que não tomaram decisões nos quase 30 anos de luta armada que mataram mais de três mil protestantes e militares britânicos.

Adams disse estar a seguir o exemplo de Martin McGuiness, que se afastou para dar lugar a uma liderança jovem na Irlanda do Norte — foi a presidente do Sinn Féin no Norte, Michelle O’Neill, quem chamou “histórico” ao discurso.

“É tempo de mudança e chegou o momento. Faço o mesmo que Martin fez e quero agradecer-lhe por isso”, disse Gerry Adams, que não fixou a data da saída mas deixou subentendido que será antes do próximo congresso.

Gerry Adams percorreu as suas décadas de combate à “opressão” britânica na Irlanda do Norte e pela reunificação da ilha — o partido quer um referendo sobre o tema em cinco anos. Recordou os camaradas mortos na greve de fome do início dos anos de 1980 (sobretudo Bobby Sands), os tempos que passou na prisão, o momento da decisão de levar a luta para a negociação — apresentou o currículo na hora de se despedir e emocionou-se nos momentos finais. “Acredito mesmo que uma pessoa pode fazer a diferença”, disse num discurso em que o nome McGuiness, que morreu em Janeiro e foi homenageado no congresso, surgiu inúmeras vezes, como se quisesse dizer à nova geração que é mais herdeira de “Martin” do que dele próprio. “Temos que fazer o que Martin McGuiness fez: fazer o nosso melhor, unidos, fortes, juntos. Essa tem sido a chave do nosso sucesso”.     

“Gerry Adams é notável. Ninguém, no mundo ocidental, manteve uma liderança durante tanto tempo como ele”, disse ao Politico Eamonn Mallie, comentador e co-autor do livro The Provisional IRA (1987). “Ele viu todos chegarem e partirem” — sobreviveu a cinco primeiro-ministros britânicos, seis irlandeses e cinco Presidentes dos EUA. Com um deles, Margaret Thatcher, iniciou contactos secretos em 1990 (quatro anos antes do cessar-fogo) com o IRA (Exército Republicano Irlandês) e o Sinn Féin, que culminariam com o Acordo de Sexta-Feira Santa (1998).

“Foi ele que levou os homens da linha dura a deporem as armas e a optarem pela via política, na senda de Mandela”, disse Eamon Mallie.

Adams sai do partido porque tem 70 anos, porque chegou o momento de renovar e porque com uma liderança desligada do passado do Sinn Féin — uma formação com existência política nos dois lados da fronteira — tem maiores possibilidades de cativar eleitorado na República da Irlanda. Nas eleições de 2016, o Sinn Féin obteve 13,8% dos votos (23 lugares no parlamento de Dublin); o Fine Gael do primeiro-ministro Leo Varadkar conseguiu 25,5% (50 lugares) e o Fianna Fáil 24,3% (44 lugares).

Uma subida no número de eleitores e de votos é essencial agora que o partido aprovou — na noite de sexta-feira — uma moção que lhe permite participar em coligações governamentais e Dublin, o que estava proibido até agora.

Um antigo guerrilheiro do IRA que falou sob anonimato ao Guardian diz que Adams vai sair, mas que é bem possível que mantenha a sua influência no partido porque a sua missão ainda não está completa. “Ele acha que ainda pode levar o partido ao poder no Sul, o que seria o seu último feito. Por isso deve manter-se por perto, nos bastidores”.

Na Irlanda do Norte há um acordo de partilha de poder que já garante ao Sinn Féin uma participação no governo da região — governo que não existe desde Março, quando o Sinn Féin conseguiu um resultado histórico e elegeu tantos representantes no parlamento de Belfast como o partido unionista mais votado, o DUP (que sustenta com os seus deputados no parlamento de Londres o governo minoritário dos conservadores de Theresa May). Adams acusou May de estar mais preocupada em manter o seu Governo do que aplicar os acordos, forçando o DUP a aceitar as reivindicações do Sin Féin para que haja um acordo de governo em Belfast.

Faltou um momento no discurso de Adams — muito analistas perguntavam se aconteceria: um pedido de desculpas directo às vítimas do IRA. McGuiness aceitou o seu passado ligado à violência (sem nunca assumir uma ligação directa ao IRA). Mas Gerry Adams nunca tocou no assunto.