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França a 48 horas de um voto táctico e flutuante

Tudo pode acontecer. Há seis combinações possíveis para o duelo da segunda volta. Macron contra Le Pen ou esta contra Mélenchon. Sem esquecer uma recuperação de Fillon.

Os 11 candidatos no último debate televisivo Reuters

Os franceses vivem um momento particular da sua História, “o de uma eleição enlouquecida”, resume um politólogo. Entre 23 de Abril e 7 de Maio, “tudo pode acontecer”, escreve Jean-Louis Bourlanges, de Sciences-po. Há quatro candidatos susceptíveis de passar à segunda volta e seis combinações possíveis dos que disputarão a presidência. As sondagens são incapazes de nos darem uma resposta. No fim da campanha a incerteza atingiu um grau inédito.

Emmanuel Macron e Marine Le Pen continuam “favoritos”, mas nada têm garantido. François Fillon pode ser a surpresa da noite de domingo. Le Pen, em segundo lugar nas sondagens, pode ter a (improvável) surpresa de ficar pelo caminho. Quanto a Jean-Luc Mélenchon, cuja ascensão baralhou todas as contas, é prudente não fazer prognósticos. Não basta saber quem fica em primeiro lugar: é fundamental conhecer o segundo. É nessa combinação que se jogam as presidenciais e, em grande medida, as legislativas de Junho, ou seja, a capacidade de governar. O L’Express falou no risco de “uma segunda-feira negra”.

“A indecisão actual de bom número de eleitores resulta de uma situação de acelerada decomposição da paisagem política”, escreve Gérard Courtois, editorialista e antigo director editorial do Le Monde. “Muitos dos mecanismos habituais das presidenciais avariaram. A eliminação [nas primárias] de um bom número de favoritos (Juppé, Sarkozy, Valls...), a renúncia do Presidente cessante a apresentar-se, os ‘casos judiciais’ que põem em causa dois dos principais candidatos, as fracturas da esquerda após um quinquénio falhado: não é surpreendente que os franceses estejam desorientados e de cabeça à roda.”

Um dos grandes partidos que estruturam o centro da política francesa, o socialista, está há semanas arredado da competição. E o outro, Os Republicanos (LR, direita), está em risco de ficar de fora: a presidência seria então disputada pelos extremos do sistema (Le Pen e Mélenchon) ou por um “intruso”, Emmanuel Macron.

Três cenários possíveis...

Até há pouco mais de duas semanas, as sondagens sobre a segunda volta só contavam com três candidatos: Macron, Le Pen e Fillon. Passaram a interrogar os inquiridos sobre seis hipóteses: Macron-Le Pen, Macron-Fillon, Mélenchon-Fillon, Le Pen-Fillon, Macron-Mélenchon e Le Pen-Mélenchon. Não por acaso, esta lista manifesta a existência de quatro campos políticos, que traduzem diferentes clivagens, desde esquerda-direita ao europeísmo-eurocepticismo, passando pelo contraponto entre os partidos tradicionais do sistema e os extremos políticos. Especulemos um pouco sobre as várias hipóteses.

O mais claro duelo seria Macron-Le Pen: opção liberal-social e europeísta contra a opção proteccionista e antieuro, uma França aberta contra uma França nacionalista e identitária. Além desta dimensão, integraria a clivagem esquerda-direita. Deixa prever para as legislativas um acordo Macron-PS em oposição ao LR, que é desde já favorito para as eleições de Junho.

Um confronto Macron-Fillon seria encarado como o mais próximo do “sistema”, entre as duas grandes correntes ditas “liberais”, mas sob forma extremada. O social-liberalismo de Macron e o liberalismo thatcherista de Fillon, o primeiro com uma visão marcadamente europeísta, o segundo com a versão de “Europa das nações”. Fillon tenderá a virar ainda mais à direita para captar parte do eleitorado le-penista. Este confronto tem um preço: ao deixar de fora as alas extremas do sistema arrisca-se a “deitar gasolina” em cima da política de protesto. Será natural uma elevada abstenção. Os extremos não se podem aliar, mas partilham grande parte dos temas. O cenário Fillon-Mélenchon seria algo paralelo ao anterior: um confronto esquerda-direita muito polarizado, entre o representante da “esquerda da esquerda” e o candidato da direita com uma plataforma muito mais radical do que a tradição do seu partido.

... e três menos prováveis

O confronto Le Pen-Fillon é improvável com os dados actuais das sondagens. Deixaria de fora da disputa toda a esquerda e o centro. Seria uma “guerra civil no povo de direita”. Implicaria também elevada abstenção.

Um duelo Macron-Mélenchon é improvável pelas análogas razões: deixaria fora do tabuleiro as “duas direitas”. Ora, a direita é sociologicamente maioritária. O confronto programático seria intenso, no plano económico, nas opções europeias e na política internacional. Poderia assumir a forma perversa de segunda volta das “primárias da esquerda”. A direita capitalizaria provavelmente a sua marginalização nas legislativas, mobilizando-se em massa.

Finalmente o “cenário explosivo”: Le Pen contra Mélenchon. É um cenário muito pouco provável. Anota o politólogo Laurent Bouvet, que inspirou algumas destas notas, que seria absolutamente inédito “o afrontamento para a presidência entre os dois pólos extremos da paisagem política”. Para mais, por candidatos que se propõem demolir o sistema institucional. “O combate entre um antiliberalismo social-libertário e um antiliberalismo nacional-identitário permanece a priori na ordem do sonho ou do pesadelo e não do realismo político”, conclui Bouvet.

As incertezas

Indicam as sondagens que Macron, se for apurado, vencerá todos os concorrentes na segunda volta. E que, inversamente, Marine Le Pen com todos perderia. As sondagens podem enganar-se e, sobretudo, poderão mudar ao longo das duas semanas de campanha. Por outro lado, desde já se põe o problema da governabilidade, a dificuldade de constituir uma maioria presidencial nas legislativas. São coisas a analisar depois de domingo à noite.

Até lá dominam as incertezas da primeira volta. Estas eleições provocaram já inimagináveis surpresas. Há ainda um vasto eleitorado flutuante ou indeciso. “As eleições passadas mostraram que os eleitores são cada vez mais voláteis e decidem-se cada vez mais tarde”, observa uma análise da Fundação Jean Jaurès.

A campanha da França Apaziguada de Marine Le Pen está a derrapar. “A sua base é muito sólida, não diminuiu, mas não atraiu novos eleitores”, diz Yves-Marie Cann, do instituto de sondagens Elabe. E está em erosão nas sondagens. Temendo o risco de ficar de fora, radicalizou o discurso para mobilizar a base. O mesmo fez Fillon nos últimos dias, tentando captar votos a Le Pen. Mas a sua grande expectativa é mobilizar à última hora as hostes do LR que lhe fugiram. “A sua resiliência é positivamente apreciada”, diz um observador. Que fará o eleitor de direita no momento do voto? A ascensão de Mélenchon pode influenciar as opções.

O linguista Patrick Charaudeau, que usa a noção de “voto táctico” em lugar de “voto útil”, analisa a complexidade das escolhas. Uma das suas formas é “o voto de eliminação” do adversário que não queremos a nenhum preço, como Le Pen, mas que agora pode dizer respeito a mais concorrentes. Macron terá sido um dos beneficiados, “por vingança contra a esquerda e contra a direita”. Um dos seus trunfos é ser o único candidato que não é rejeitado pela maioria dos franceses.

O pano de fundo não mudou. “A França muda, mas uma grande parte dos franceses recusam a mudança. Esta contradição explica tudo, ou quase tudo”, diz o filósofo Michel Gauchet. “A polarização económica arrasta uma perigosa polarização política.” Assinala o fenómeno da “politização negativa”. Os franceses são apaixonadas pela política, mas não suportam o actual pessoal político. A sua paixão alimenta portanto a sua indignação.