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Crónica

A floresta vista de cima

A desflorestação é um comboio difícil de travar, mas fácil de destravar. E o tempo dirá em que medida a agenda anti-ambientalista de Jair Bolsonaro não estará a dar um empurrão desastroso ao processo.

O avião saiu de Brasília perto da hora do almoço, rumo a Manaus. Durante pouco mais de uma hora, a moldura da janela exibiu uma sucessão regular de grandes propriedades rurais, ocupando o espaço do cerrado — a vegetação do centro-oeste do Brasil. Do alto, é tudo harmonia. O campo lavrado, verdinho, interrompido por vales, montes e manchas esparsas de árvores, um interessante mosaico. Há poucas coisas tão aprazíveis como a natureza moldada.

Um pouco mais à frente, a paisagem assume outra configuração. Quando a aeronave se aproxima do rio Xingu, o espesso tapete da floresta impõe-se. A transição é brusca, nota-se o limite retilíneo das últimas parcelas agrícolas, como se a mata tivesse sido cortada com um xis-ato. E a partir daquele ponto, é verde a perder de vista.

Ou quase. Entrámos na Amazónia pelo estado do Mato Grosso, sobrevoamos a divisa do Pará e logo surgem as cicatrizes da desflorestação. Lá em baixo está uma estrada, a BR163, ao longo da qual a floresta foi retalhada para dar lugar à agricultura, junto a cidades com nomes sintomáticos como Castelo dos Sonhos e Novo Progresso. É a imagem perfeita para assinalar que estamos sobre o “arco do desmatamento”, que circunda a floresta pelo sul, de Belém ao Acre.

Daí em diante, a selva engole tudo, até nossa respiração. A intensidade da paisagem é tal que, mesmo sabendo que há grandes urbes na Amazónia, parece impossível que na região vivam 25 milhões de pessoas.

No dia em que esta viagem foi feita, em meados de julho, os fogos já tinham começado, mas sem atingir nem a proporção, nem o impacto mediático a que agora chegaram. Sempre se pode argumentar que estamos na época deles, que é a estação seca na região, quando agricultores fazem suas queimadas. E que o está a acontecer não passa de uma variação sazonal da dimensão dos incêndios.

O contexto do Brasil não permite uma leitura tão cândida. Nem seria preciso usar estes fogos como argumento. A área anualmente desflorestada na Amazónia, que vinha caindo desde 2004, retomou uma tendência de subida desde 2012. No ano passado, 7,5 mil quilómetros quadrados desapareceram. E este ano, os números preliminares indicam um aumento acentuado.

A desflorestação é um comboio difícil de travar, mas fácil de destravar. E o tempo dirá em que medida a agenda anti-ambientalista de Jair Bolsonaro não estará a dar um empurrão desastroso ao processo. Por certo, já está a colher efeitos colaterais incontestáveis, como a suspensão dos milhões que a Noruega e Alemanha investiam em projetos de preservação — dos quais dependem muitas comunidades locais, para um desenvolvimento sustentável.

O ministro brasileiro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse recentemente, numa entrevista à BBC, que a Amazónia precisa de “soluções capitalistas”. Não deixa de ter alguma razão — os problemas ambientais mais facilmente se resolvem quando alguém ganha dinheiro com a solução. Perante o rol de polémicas que o Governo brasileiro tem semeado na área do ambiente, resta saber que tipo de capitalismo está na cabeça do ministro Salles. No limite, poderíamos nos perguntar se o Brasil não teria o direito de fazer o que a generalidade dos países desenvolvidos fez com suas florestas: substituir a Amazónia por outra coisa que o torne mais rico. A vista lá de cima, com avião a caminho de Manaus, basta como resposta.