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Assad dá uma mão aos curdos para travar ofensiva turca

As tropas do regime de Assad dirigiam-se este domingo para as cidades curdas de Kobani e Manbij para impedir que estas caiam nas mãos dos turcos.

Combatentes do Exército Livre da Síria, treinado e armado pela Turquia, combatem no Nordeste da Síria Reuters/KHALIL ASHAWI

As forças do regime de Assad começaram este domingo a dirigir-se para as cidades curdas de Kobani e Manbij, no Nordeste da Síria, depois de as Forças Democráticas da Síria (SDF) e Damasco terem chegado a acordo para impedir que os turcos as capturem. O anúncio foi feito pouco depois de se saber que os Estados Unidos iam retirar os mil soldados de forças especiais que ainda ali permaneciam, abandonando os curdos no combate ao Daesh. 

“Esta noite, o exército sírio vai regressar a Kobani”, disse o chefe das forças armadas de Assad, Sheikh Hassan. “Esta ocupação colonial turca não tem apenas como alvo as SDF e a minoria curda, mas também toda a demografia síria, a geografia da Síria e todos os componentes do povo sírio”, complementou em comunicado o deputado curdo no Parlamento em Damasco, Omer Ousi. 

A Rússia, que tinha avisado Ancara para terminar a ofensiva, participou nas negociações e poderá ter forças entre as colunas de militares que se dirigem para essas duas cidades. Também há relatos não confirmados de negociações para os curdos permitirem a entrada das forças de Assad nas zonas que controlam em Alepo, para evitar que os turcos as conquistem. Não é a primeira vez que os curdos fazem um acordo deste género com Assad: em Dezembro de 2018 também se viraram pra Assad, para travar o avanço turco sobre Afrin.

Há cinco dias, quando a ofensiva começou, que os curdos se viam a combater em duas frentes - contra os turcos e contra os jihadistas – e sem forças para o fazer por tempo indeterminado. Já perderam 25 vilas e as cidades de Tal Abyad, Suluk e Ain Issa e sofreram pesadas baixas – mais de cem combatentes, com Erdogan a anunciar mais de 400. 

“Fizemos tudo o que podíamos”, disse o comandante de Kobani, general Ismet Sheikh Hasan, ao Defense Post. “Pedimos ao Ocidente e à Liga Árabe, mas ninguém nos veio ajudar, não tivemos ninguém para lá de nós próprios para defender a cidade”. 

Americanos saem

O avanço das forças de Assad para travar os turcos contrasta com a retirada dos mil soldados de forças especiais norte-americanas. “Por termos forças [no terreno], encontramo-nos no meio de dois exércitos em movimento e isso é uma situação insustentável”, disse à CBS o secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper. “Soubemos nas últimas 24 horas que [os turcos] pretendem estender a zona da ofensiva ainda mais para Sul e Ocidente do que estava planeado”. 

A decisão de Washington foi motivada por ter aumentado muito o risco de entrar em rota de colisão directa com Ancara. No sábado, um posto militar norte-americano foi bombardeado pela artilharia turca e com a captura da cidade de Ain Issa por Ancara, um pequeno número de militares dos EUA retirou-se do aglomerado urbano por Washington temer confrontos com o Exército Livre da Síria, treinado e armado pela Turquia. Além disso, as tropas norte-americanas viram-se isoladas em Kobani, onde têm a sua base, quando os turcos cortaram a auto-estrada M4, que liga a zona ocidental e a oriental no Nordeste da Síria. 

O corte da auto-estrada foi mais um sinal de como a ofensiva turca, apelidada Operação Fonte da Paz, está a ser imparável. Os curdos, desdobrados em centenas de quilómetros e sem apoio aéreo ou de artilharia, não conseguiram impedir que as forças do Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, conquistassem 109 km quadrados de território curdo. 

A influência norte-americana deverá diminuir significativamente face à da Rússia na zona. Os curdos foram os grandes responsáveis pela queda do califado do Daesh e continuaram a combatê-lo ao lado dos EUA depois de Trump ter dado luz verde à ofensiva de Erdogan, decisão vista pelos curdos como “facada nas costas”, e este anúncio prejudicará as suas relações. 

O acordo entre os curdos e Damasco segue-se ao anúncio de Erdogan de que apenas dará por terminada a ofensiva quando as cidades de Hasak e Ain al-Arab, para lá dos 30 km da “zona de segurança” inicialmente definida, forem capturadas. Uma extensão de território que vai para além do acordado com Washington em Agosto e o prometido por Erdogan aquando do início das operações. Kobani e Manbij podiam assim constar nos próximos alvos de Ancara.

Execuções 

Mas foi sobretudo a insuficiente capacidade curda em travar a ofensiva e o medo das represálias turcas que terão contribuído para o sucesso das negociações com Damasco. A sul de Tal Abyad, uma das principais cidades curdas na fronteira, foram assassinados nove civis e as execuções foram filmadas. Ouvem-se os milicianos a gritarem insultos aos civis antes de dispararem à queima-roupa. Entre as vítimas está a política feminista curda Hevrin Khalaf, do Partido Futuro Sírio: forçaram-na a sair do carro, e executaram-na à beira da estrada. Tê-la-ão violado e apedrejado, segundo alguns relatos.

Além disso, o número de civis mortos ultrapassou os 40 e, este domingo, um comboio de veículos civis com jornalistas a bordo foi bombardeado pelos turcos nas proximidades de Ras al-Ayn, causando a morte a pelo menos 11 pessoas e ferimentos outras 74, segundo números do Crescente Vermelho Curdo prestados ao Rojava Information Center. 

Os curdos receiam ficar sob o jugo destas milícias e, por isso, mais de 130 mil fugiram das suas casas nas cidades fronteiriças para o interior da Síria, com as Nações Unidas a dizerem que o número de deslocados pode chegar aos 400 mil nos próximos dias. É que os membros destas milícias, muitos dos quais viviam nas cidades fronteiriças com a Turquia, como Ras al-Ayn e Tal Abyad, foram vítimas de deslocação forçada pelos curdos em 2015 e agora têm a oportunidade para a tão aguardada vingança. 

Erdogan quer usar essa “zona de segurança” para deslocar mais de dois milhões de refugiados árabes sírios para o Nordeste da Síria com o objectivo de arabizar a região e, assim, terminar com uma significativa extensão de território demograficamente curda. Ao mesmo tempo, salva a indústria da construção civil turca, em profunda crise, com a construção de vilas e cidades para essa nova população e dá um duro golpe aos intentos curdos de um dia terem um Estado próprio

Fuga do Daesh

Mas os intentos de Erdogan estão a criar uma oportunidade para o Daesh renascer, como temiam os observadores. Quase 800 jihadistas fugiram este domingo da prisão curda de Ain Issa, ajudados por bombardeamentos turcos nas proximidades e pelo ataque das milícias aos guardas do campo, entre 60 a 70, que deviam controlar os 12 mil detidos. 

“Queremos que a Turquia pare o mais rapidamente possível com a ofensiva”, disse a porta-voz do Governo francês, Sibeth Ndiaye, à televisão France 3. A situação no Nordeste da Síria está a “piorar de hora a hora”, complementou o secretário de Defesa norte-americano. 

O elevado número de civis deslocados e mortos, o acentuar da instabilidade na Síria e o renascer do Daesh têm feito com que os aliados da Turquia na NATO teçam duras críticas a Ancara, chegando a suspender a venda de armamento, como fizeram a Alemanha e a França, mas sem quererem intervir directamente. Por sua vez, a Liga Árabe classificou a ofensiva turca como “invasão de terras árabes”, aliando-se ao regime de Assad. 

A chanceler alemã, Angela Merkel, tentou este domingo forçar a mão a Erdogan, pedindo-lhe numa chamada telefónica para “terminar de imediato” as operações militares, mas o Presidente da Turquia rejeitou-o, tal como tem feito até agora. Recusa as críticas dos seus aliados e chega inclusive a ameaçá-los com a abertura das fronteiras para permitir que os 3,6 milhões que se encontram em solo turco se possam dirigir para a Europa.