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Entrevista

Estela ouviu um general argentino dizer-lhe na cara que a sua filha ia ser morta

A presidente da Associação das Avós da Praça de Maio nunca esqueceu como o futuro último ditador da Argentina lhe deu a entender qual seria o destino da sua filha e do neto que ela trazia ainda na barriga. Mais de 30 anos depois, Estela de Carlotto conheceu o neto que a ditadura também lhe quis tirar.

"As crianças eram criadas pelos próprios assassinos dos seus pais", diz Estela de Carlotto Sérgio Azenha

À sua frente, Estela de Carlotto tinha o todo-poderoso general Reynaldo Bignone, que expunha um revólver na secretária. Estamos em Dezembro de 1977, poucas semanas depois do desaparecimento de Laura, a filha mais velha de Estela. Ter acesso a um dos generais que controlava a Argentina era um feito raríssimo, mas Estela só queria saber de uma coisa - o paradeiro da filha. “Dizia-lhe que, se Laura cometeu um crime, então que seja julgada e condenada”, recorda agora Estela.

De Bignone, que anos depois se tornaria o último ditador argentino, ouviu uma confissão que revelava o raciocínio por trás de um dos episódios mais sombrios da História do século XX: “De forma alguma. Não queremos que aconteça como no Uruguai, onde na prisão saem fortalecidos. Aqui é preciso fazê-lo, matar.”

Porém, naquele dia, Laura ainda vivia. Seria mantida viva por mais uns meses até que desse à luz o seu filho, que lhe seria retirado e entregue a outra família. O corpo da jovem de 24 anos foi entregue aos seus pais, algo também muito pouco usual durante a ditadura militar argentina, mas do seu neto Estela nada soube. A apropriação de crianças filhas de opositores ao regime é um traço “verdadeiramente escabroso”, diz Estela, no contexto da onda de sequestros e execuções levados a cabo durante o chamado “Processo de Reorganização Nacional”, como era oficialmente conhecida a ditadura que vigorou na Argentina entre 1976 e 1983.

“Essa criança era como um despojo de guerra. Eram criadas pelos próprios assassinos dos seus pais”, diz Estela, que de mãe passou a avó da Praça de Maio, quando soube que a sua filha desaparecida lhe tinha deixado um neto. Hoje com 89 anos, esta antiga professora primária preside à Associação das Avós da Praça de Maio, fundada em 1977 para procurar os filhos dos desaparecidos durante a ditadura. Esteve em Coimbra na semana passada para participar no Simpósio Internacional de Acção Forense Humanitária, organizado pela Cruz Vermelha Internacional, e recordou ao PÚBLICO a sua história.

“Projecto de terror"

O desaparecimento forçado de opositores ao regime ditatorial argentino foi uma experiência traumática para o país. As organizações estimam que 30 mil pessoas tenham sido assassinadas ao abrigo de uma política de extermínio com pouco paralelo no pós-guerra. A ausência de esclarecimentos sobre o seu paradeiro é um drama para as suas famílias e ainda hoje, mais de 40 anos depois do início da ditadura, as mães dos desaparecidos continuam a concentrar-se na Praça de Maio, em Buenos Aires, todas as quintas-feiras, às três horas da tarde.

Há muitos, como Estela, que sofreram duplamente com a repressão dos generais argentinos – perdeu uma filha e um neto de cuja existência nem sequer sabia. A busca pelos desaparecidos tornou-se “simbólica”, nota a activista, mas para as mães e avós que ainda não sabem o que aconteceu aos seus familiares, a esperança de que sejam encontrados mantém-se. “Não falamos de mortos.”

"Quando chegou esta ditadura, ninguém imaginou que traziam um projecto de terror", diz Estela de Carlotto Sérgio Azenha/PÚBLICO

Em meados dos anos 1970, a sociedade argentina estava habituada a ver os períodos democráticos serem interrompidos por intervenções militares, frequentemente com o apoio dos EUA, interessados em manter regimes favoráveis num continente que foi um dos campos de batalha da Guerra da Fria. “Mas quando chegou esta ditadura ninguém tinha imaginado que traziam um projecto de terror”, recorda Estela.

Primeiro viu o marido ser sequestrado por mais de vinte dias, durante os quais foi torturado e só foi libertado depois do pagamento de um resgate. Foi através dos seus relatos que tomou conhecimento do terror dos raptos. Depois de torturarem os presos até que lhes dessem as informações desejadas, os militares administravam-lhes uma injecção para que desmaiassem, embora alguns acabassem por não resistir logo nesse momento.

Os que sobreviviam eram transportados em malas e as suas cabeças eram tapadas para não verem onde estavam. Apenas podiam ouvir os seus sequestradores a discutirem “onde os vão atirar”, conta Estela. “Podiam estar num cemitério, em frente a uma campa anónima, podiam estar no mar, no rio, em qualquer sítio do país, em fogueiras, em poços.”

Poucos meses depois, foi Laura, que estudava História e era militante do movimento peronista, que desapareceu. A vida de Estela mudou radicalmente.

A procura pela filha, e depois pelo neto, tornou-se na sua missão e juntou-se aos movimentos das mães e avós da Praça de Maio que acabavam de ser criados. Contra si tinham uma sociedade cúmplice do regime, por medo ou simpatia. Foi um período “duro”, recorda. Escondeu das suas colegas na escola primária onde trabalhava que a filha tinha desaparecido. “Só souberam no dia em que fizemos o seu velório. Eu não podia contar-lhes, porque as ia comprometer”, explica.

O seu activismo ao lado das outras mães e avós foi um longo processo de aprendizagem. “Ao início éramos muito crédulas, inocentes, nunca tínhamos vivido uma situação destas, em que as pessoas eram levadas para um lugar e ninguém sabia mais nada delas.” Viam pedidos de habeas corpus serem rejeitados uns atrás dos outros até perceberem que este terror kafkiano tinha permeado todo o sistema. “Quando alguém comete um crime, levam-nos a uma esquadra, uma pessoa sabe que está lá, pode visitá-lo. Neste caso, não. Não está detida, não existe”, diz Estela.

A tenacidade destas mães e avós foi mais forte que o regime que as escolheu como inimigas. “O facto de não obtermos respostas não nos dominou”, observa. Olhando para trás, Estela não vê pura e simplesmente outra opção que não a que foi tomada. “Envolver-se é resultado do que sente uma mãe quando o seu filho não aparece. Vai procurá-lo enquanto tiver vida e mesmo correndo o risco de perder a sua”, diz, lembrando que houve casos de desaparecimento de mães da Praça de Maio.

Um neto, 36 anos depois

Estela conseguiu enterrar a filha, mas tinha perdido o seu neto sem nunca o ter visto. Conheceu-o finalmente a 5 de Agosto de 2014, ao fim de quase 36 anos de procura. Foi o próprio que se dirigiu às associações depois de lhe terem sugerido que era possível que o casal que o criou não fossem os seus pais biológicos. Estela fala de Ignacio com o sorriso aberto e acredita que algo o fez perceber que a história que sempre lhe contaram não era real.

Ignacio, que é músico e compositor, escreveu uma música sobre a memória antes de saber que era um neto da Praça de Maio. “Com a sua música, sem desconfiar absolutamente de nada, estava a aproximar-se do tema dos desaparecidos”, diz Estela. Com o neto, Estela fala pouco de Laura. São sobretudo os seus outros filhos que vão contando a Ignacio o que se passou com a sua mãe. “O meu papel, com o pouco tempo que tenho pela frente, é aproveitar e ter uma relação de amor com ele”, afirma.

Apesar de ter cumprido a sua missão pessoal, Estela não pensa nem por um segundo em abandonar as restantes avós. Há ainda 300 netos por identificar que podem estar em qualquer ponto do mundo - alguns foram encontrados fora da Argentina, diz.

Macri negacionista

O número de desaparecidos ainda continua a ser objecto de debate na Argentina, apesar do cálculo das organizações de direitos humanos em torno dos 30 mil. Em 1984, a Comissão Nacional de Pessoas Desaparecidas (Conadep) fixou em quase nove mil o número de desaparecidos. Estela acusa o Governo de Mauricio Macri de ter sido o primeiro “negacionista” desde o fim da ditadura. “É um Governo que nos ofende, dizendo que mentimos e que não são 30 mil”, lamenta a dirigente, que acrescenta que Macri foi o primeiro Presidente a negar-se a receber as mães e as avós da Praça de Maio.

À sua volta, Estela vê o regresso de sinais incómodos, tanto na Argentina como no resto da América Latina, que descreve como um “continente assediado”. “Hoje em dia há planos de alguns governos para apagar parte da sua população por interesses económicos. Está em jogo o petróleo, a água, o lítio, tantas coisas”, diz, lembrando-se dos protestos e da instabilidade política no Chile, na Bolívia, Colômbia e Equador.

Estela conseguiu enterrar a filha, mas tinha perdido o neto sem nunca o ter visto. Conheceu-o finalmente a 5 de Agosto de 2014 Sérgio Azenha/PÚBLICO

Passar a ser avó da Praça de Maio mudou a vida de Estela, embora nada substitua a falta que a filha lhe faz e a dor por não ter criado o neto. Tenta recordar-se de como era a vida antes desse momento e lembra um episódio particular. Em 1955, um golpe militar pôs fim ao Governo constitucional de Juan Domingo Perón. Na altura, Estela era anti-peronista e lembra-se de ter quase celebrado o bombardeamento da Praça de Maio em que morreram mais de cem pessoas.

“Sempre disse que se em vez de ter dito ‘que bom’ tivesse dito ‘que mal’ e se os familiares daqueles mortos tivessem saído às ruas em protesto, como nós saímos anos depois, não teria havido o 24 de Março de 1976 e Laura e os seus 30 mil companheiros estariam vivos. Faço esse reparo a mim própria e digo-o para os equivocados de hoje.”