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EUA e Israel saem da UNESCO, acusando-a de ser "anti-israelita"

A possibilidade de o próximo director da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura ser um árabe terá sido a gota de água para os dois aliados.

Um judeu reza no Túmulo dos Patriarcas, em Hebron, classificado pela UNESCO este ano Yonathan Weitzman/REUTERS

Os Estados Unidos vão sair da UNESCO no final do ano. "Esta decisão não foi tomada de ânimo leve", disse o Departamento de Estado norte-americano em comunicado, considerando necessária uma "reforma na organização". Horas depois, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu anunciou que também Israel se preparava para abandonar a UNESCO, referindo ainda que a decisão dos EUA tinha sido "corajosa".

O comunicado do Departamento de Estado repete as velhas críticas norte-americanas contra um alegado "enviesamento anti-Israel" na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Netanyahu saudou o passo de Washington: “É uma decisão corajosa e moral, porque a UNESCO se tornou um teatro do absurdo. Em vez de preservar a história, distorce-a”, afirmou.

Em resposta, a directora-geral da UNESCO, a búlgara Irina Bokova, lamentou a saída dos EUA: "Depois de receber uma notificação oficial do secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, pretendo expressar o meu profundo lamento em relação a esta decisão."

A decisão "reflecte as preocupações dos Estados Unidos com as crescentes dívidas da UNESCO, a necessidade de uma reforma fundamental na organização e o contínuo enviesamento anti-Israel", diz o Departamento de Estado. Ainda assim, os EUA dizem que se manterão “envolvidos” na organização enquanto Estado observador, para “contribuir com visões, perspectivas e experiência norte-americanas”.

De acordo com as regras da UNESCO, a saída dos EUA tornar-se-á efectiva no fim de Dezembro de 2018. Até lá, Washington, que contribui com cerca de 80 milhões de dólares para o orçamento desta agência da ONU, continuará a ser um membro de pleno direito.

Relação difícil

Em Julho passado, a UNESCO incluiu a cidade velha de Hebron, na Cisjordânia, na lista de património mundial e ao mesmo tempo, pô-la na lista do património em risco – uma decisão que enfureceu Israel e contou com a oposição dos Estados Unidos. Em Hebron fica um local de grande interesse patrimonial e religioso, a que os muçulmanos chamam Mesquita Ibrahimi e os judeus designam como Túmulo dos Patriarcas. 

Na Cidade Velha de Hebron vivem umas centenas de colonos israelitas, rodeados por uma forte protecção militar do exército do Estado hebraico, no meio de mais de 200 mil palestinianos.

Irina Bokova, directora da UNESCO durante dois mandatos Philippe Wojazer/REUTERS

Mas na garganta de Israel está ainda atravessada a resolução adoptada pela UNESCO em Outubro de 2016, que condenava as políticas israelitas em relação ao complexo da Mesquita al-Aqsa, em Jerusalém, lugar sagrado para as três religiões do Livro em Jerusalém Oriental, ocupada.

A resolução usava apenas os nomes muçulmanos dos locais religiosos, e preferindo por exemplo a designação Pátio das Mesquitas a Monte do Templo. Os políticos israelitas revoltaram-se contra o que disseram ser uma negação dos locais históricos e espirituais do judaísmo por parte da UNESCO, e estiveram suspensas as relações de Israel com a UNESCO durante algum tempo.

A gota de água

Esta decisão ocorre numa altura em que a UNESCO escolhe a sua próxima liderança, numa lista com sete candidatos, vários dos quais árabes e muçulmanos - um factor que poderá ter pesado na tomada de decisão norte-americana, já que o argumento é  a tendência “anti-Israel” deste organismo da ONU.

 Após dois dias de votações secretas, Hamad bin Abdulaziz al-Kawari, do Qatar, está a surgir como o candidato favorito a suceder a Irina Bokova, à frente da ex-ministra da Cultura francesa Audrey Azolay e a egípcia Moushira Khattab. Israel e os EUA terão visto o facto de Kawari estar a surgir à frente na votação como um falhanço das suas tentativas para promover um candidato mais próximo dos seus interesses.

A búlgara Irina Bokova abandonará o cargo ao final de dois mandatos, mas a sua direcção foi marcada por alguma polémica e acusações de politização do organismo, com um boicote anterior dos EUA. O reconhecimento da Palestina como Estado-membro, em 2011, fez com que Israel e os EUA, que já foi o maior financiador da UNESCO, tivessem cortado o seu financiamento a esta agência da ONU. 

A saída dos Estados Unidos da UNESCO não é uma surpresa quando se olha para o passado entre o país e a organização, até porque acontece numa época – a da Administração Trump – em que Washington tem adoptado como política a confrontação com acordos e organizações internacionais.

Apesar de terem ajudado a criar a UNESCO, após o fim da II Guerra Mundial, os EUA criticaram sempre a suposta tendência da organização para favorecer os países do Leste europeu (durante a Guerra Fria) e as decisões anti-Israel.

Em 1984, o então Presidente Ronald Reagan decidiu retirar os Estados Unidos da UNESCO, argumentando com suspeitas de corrupção e favorecimento de países do bloco soviético. O regresso à organização só aconteceria 18 anos mais tarde, em 2002, já na presidência de George W. Bush – o Presidente norte-americano disse então que a liderança da organização tinha conseguido afastar a influência anti-Ocidente e anti-Israel.

Mas a guerra voltou há seis anos, quando a UNESCO aceitou a Palestina como país-membro, e intensificou-se nos tempos mais recentes por causa de algumas decisões que os Estados Unidos consideram ser anti-Israel – entre elas a classificação como Património Mundial da cidade velha de Hebron, na Cisjordânia, em Julho passado.

Os Estados Unidos cortaram o financiamento à UNESCO em 2011, depois da entrada da Palestina na organização, mas as verbas que deixaram de ser atribuídas por Washington têm feito aumentar ainda mais as dívidas norte-americanas – para além do protesto contra as decisões supostamente anti-Israel, a Administração Trump aproveita também para estancar um pouco o avolumar dessas dívidas.