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Espanha aceita receber o navio Open Arms em Algeciras, ONG recusa

O problema é que dificilmente a embarcação humanitária conseguirá chegar lá, diz a organização que usa o navio e recusou a porta aberta por Madrid. As condições de saúde, em especial psicológicas, dos imigrantes resgatados no mar, estão a deteriorar-se aceleradamente.

Vê-se terra do "Open Arms", mas não se pode alcançá-la FRANCISCO GENTICO/EPA

O Governo espanhol ofereceu o porto de Algeciras, na Baía de Gibraltar, para que o navio humanitário Open Arms desembarque os 107 imigrantes salvos do mar que ainda tem a bordo. Foi a única alternativa que surgiu, perante a intransigência do ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, em permitir sequer que o navio atraque num porto de Itália. Mas a associação recusou a oferta espanhola.

O problema é chegar lá. “De Lampedusa a Algeciras são sete dias de navegação, é inverosímil viajar com 107 pessoas a bordo nas condições em que estamos”, disse Roberto Gatti, presidente da associação Open Arms, que detém o navio, citado pelo jornal La Repubblica. "Não aceitamos Espanha. Não podemos pôr em perigo a segurança e integridade física dos imigrantes e da tripulação. Precisamos desembarcar já”, disse um porta-voz da organização”, citado pelo El País.

Os alertas sobre o estado de saúde, e o desespero dos imigrantes a bordo, têm-se multiplicado. Quatro pessoas lançaram-se à água, tentando alcançar a costa da ilha de Lampedusa a nado.

"Os portos espanhóis não são os mais próximos nem os mais seguros para o Open Arms, mas neste momento Espanha é o único país disposto a acolhê-lo, no quadro de uma solução europeia”, diz um comunicado do Governo de Madrid, citado pelo jornal El País.

Há um plano para distribuir os imigrantes por seis países da União Europeia, incluindo Espanha e Portugal, que já se disponibilizaram para os receber. França ofereceu-se para acolher 40 imigrantes. Esta crise humanitária aterrou no meio dos sismos políticos que abalam o Governo italiano, e fracturam a coligação entre a Liga (extrema-direita, de Salvini) e o Movimento 5 Estrelas (formação anti-sistema, de Luigi Di Maio, e da qual o primeiro-ministro Giuseppe Conte é próximo).

Matteo Salvini, que celebrou a oferta espanhola como uma prova de que a sua posição intransigente tinha resultado, considerou a recusa da associação Open Arms “incrível e inaceitável”. “Itália não é o campo de refugiados da Europa”, declarou.

Troca de acusações

Antes de a associação Open Arms ter rejeitado a oferta espanhola, o ministro do Interior italiano tinha-a acusado de mentir sobre o estado dos imigrantes. Disse que uma missão médica enviada pela Procuradoria de Agrigento, a que pertence Lampedusa, não detectou emergências a bordo. “Pediram-nos para deixar sair os doentes do navio e afinal não estavam doentes; para deixar sair os menores e afinal muitos deles nem sequer são menores; fomos ver as urgências e não há urgências”, afirmou Salvini no Facebook.

Sábado, em resposta a cartas do primeiro-ministro Conte, Salvini acedeu a permitir o desembarque dos 27 menores a bordo – mas “com desagrado”, sublinhou. É a primeira vez que um país da União Europeia recusa o desembarque de imigrantes quando já há um esquema para os distribuir por vários países, que nem sequer inclui o país de desembarque.

Nem Itália nem Malta aceitaram receber o Open Arms com os imigrantes resgatados no Mediterrâneo, salvos pelo navio humanitário ao largo da Líbia.

O primeiro-ministro italiano Conte enfrenta uma moção de desconfiança na terça-feira, apresentada por Salvini, e a coligação entre a Liga e o Movimento 5 Estrelas (M5S) parece definitivamente estilhaçada. Mas só o líder de extrema-direita, embalado pelas sondagens que nunca lhe deram tanta popularidade como agora, deseja eleições antecipadas. Nenhum outro partido, nem o Presidente da República, Sergio Mattarella, quer convocar os italianos para ir às urnas. Por isso, o cenário mais provável é a formação de um novo governo com uma maioria alternativa –​ ou, se não for possível, um governo de gestão.

Neste domingo, o M5S reuniu o seu quartel-general em casa do comediante Beppe Grillo. Uma possibilidade é a aliança do M5S com o Partido Democrata (centro-esquerda), embora não seja pacífica. Salvini, no entanto, assegura que não deixará o Governo, e que tudo fará para impedir o regresso de outro Matteo – Renzi, o ex-primeiro-ministro do Partido Democrata, agora senador, que se tem multiplicado em entrevistas e iniciativas para tentar articular uma nova aliança à esquerda.