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Elisa Ferreira, comissária, cosmopolita e tripeira

A economista vai ser responsável pela pasta da Coesão e Reformas. “Elisa Ferreira tanto está à vontade numa reunião de banqueiros no centro da Europa como na bancada do Dragão a aplaudir o FC do Porto”.

Elisa Ferreira, antes de assumir funções governativas, a comissão europeia passou pela CCRN, onde desempenhou funções de vice-presidente. dro Daniel Rocha

Há muito que se habituou aos holofotes e quase não precisa de apresentações, Elisa Ferreira é, sem dúvida, a mulher portuguesa mais vezes mencionada para cargos de topo em organizações fundamentais para o país. Mas, desta vez, o primeiro-ministro, António Costa, quis indigitá-la para comissária europeia, sendo a primeira mulher portuguesa escolhida para um cargo destes. A ex-eurodeputada, que entrou pela primeira vez para o Parlamento Europeu pela mão do PS, regressa a Bruxelas, três anos após ter assumido funções no Banco de Portugal, para ocupar a pasta da Coesão e Reformas.

Formada em Economia pela Universidade do Porto, Elisa Maria da Costa Guimarães Ferreira tem o seu percurso ligado ao PS, mas nunca quis ter filiação partidária. Quem já trabalhou com a nova comissária europeia destaca-lhe a capacidade de trabalho, a competência, a determinação e a segurança com que fala dos dossiês. Defeito que mais lhe atribuem: ser pouco tolerante.

Quem a conhece associa o seu percurso à “escola de Valente de Oliveira”, que “nasceu” na Comissão de Coordenação da Região Norte (CCRN) e que forjou um conjunto de quadros.

“Elisa Ferreira, Silva Peneda, Arlindo Cunha, Luís Braga da Cruz, entre outros, estiveram ligados à ‘escola’ de Planeamento de Valente de Oliveira”, afirma uma fonte do PSD. Mais tarde, Elisa Ferreira e Braga da Cruz viriam a ser ministros de António Guterres. Entre 1995 e 1999, Elisa tutelou a pasta do Ambiente (José Sócrates era secretário de Estado-Adjunto do Ministério do Ambiente), e de 1999 a 2001 foi ministra do Planeamento. Braga da Cruz foi ministro da Economia.

Antes de assumir funções governativas, a comissária europeia passou pela CCRN, onde desempenhou funções de vice-presidente. O seu actual marido, Fernando Freire de Sousa, com quem é casada em segundas núpcias, é o actual presidente deste organismo, que tem agora a designação de Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN).

O primeiro marido da ex-eurodeputada, António Taveira, que foi secretário de Estado dos Recursos Naturais no Governo de Cavaco Silva, foi candidato pelo PSD à Câmara do Porto em 1993. Dezasseis anos depois, o PS convida Elisa Ferreira para liderar a lista à presidência da mesma autarquia. Ambos falharam a corrida à Câmara do Porto. Taveira perdeu para Fernando Gomes, Elisa para Rui Rio.

No âmbito da sua candidatura ao Porto, ficou célebre a declaração que fez a propósito da sua candidatura. “É uma grande vantagem ter alguém que não vem para a câmara porque quer protagonismo ou porque quer uma gamela. Eu perco uma gamela para vir para o Porto por amor à cidade”, afirmou Elisa Ferreira durante uma visita ao mercado do Bom Sucesso, na Boavista.

A um mês de fazer 64 anos

Fernando Gomes recorda a passagem da antiga ministra do Ambiente como assessora da Câmara do Porto. “Convidei-a a integrar o ‘grupo de sábios’ que criei no primeiro mandato como presidente, onde se discutiam as ideias e projectos para a cidade”, revela Gomes, enaltecendo o perfil e a competência da então assessora. “Elisa Ferreira tinha uma grande apetência pela economia urbana e conhecia muito bem a região. Aliás, foi com o apoio dela que o Porto lançou as bases da regionalização”, conta o antigo presidente.

Do currículo da economista portuense, que está a um mês de completar 64 anos, consta uma passagem pela Assembleia da República, como deputada, durante dois anos. Em 2004, é eleita como eurodeputada para o Parlamento Europeu, quando já estava operacional a supervisão única centrada no Banco Central Europeu (BCE). Nessa altura, Elisa Ferreira foi a relatora da proposta de regulamento do Parlamento e do Conselho Europeu que estabeleceu as regras de resolução das instituições de crédito no quadro do Mecanismo Único de Supervisão. Eram então desenhadas as regras da União Bancária que vieram a pôr de pé, desde 1 de Janeiro de 2016, o “resgate interno” dos bancos em risco de colapso, chamando os accionistas e credores a assumir prejuízos (e abrindo a possibilidade de serem imputadas perdas aos depositantes acima de cem mil euros).

Elisa Ferreira no 29.º aniversário do PÚBLICO, quando foi directora por um dia do jornal

O protagonismo que então ganhou como relatora e representante do Parlamento nas negociações com os governos da União Europeia valeu-lhe um reconhecimento quer dentro do Parlamento, quer da Comissão Europeia, quer até do então executivo de Passos Coelho. Ex-colegas que acompanharam o trabalho da ex-eurodeputada enaltecem os “bons desempenhos” em áreas como a economia financeira, por exemplo, ao mesmo tempo que lhe apontam a “falta de visão política e a incapacidade para negociar com os seus pares”.

Na qualidade de vice-governadora viu o seu nome envolvido numa das polémicas mais intensas dos últimos anos no sector financeiro, nomeadamente os créditos ruinosos da Caixa Geral de Depósitos que geraram perdas avultadas cobertas pelos contribuintes. Em especial, no caso de um dos clientes mais problemáticos, a La Seda, Elisa Ferreira viu-se forçada a esclarecer que não iria pedir escusa nas decisões do BdP relacionadas com este cliente especial, onde o seu marido, Freire de Sousa, teve um papel importante a determinada altura.

Portuense especial

Nas palavras do recém-eleito eurodeputado do PS, Manuel Pizarro, a nova comissária é “uma portuense especial: é ao mesmo tempo absolutamente tripeira e completamente cosmopolita, consegue combinar estas duas características de uma forma suave”. “Tanto está à vontade numa reunião de banqueiros no centro da Europa como na bancada do Dragão a aplaudir o FC do Porto”, prossegue.

De vez em quando Manuel Pizarro cruza-se com a comissária que vai tutelar os fundos comunitários no Estádio do Dragão. Há dias, no jogo de FC Porto-Guimarães, lá estavam os dois a apoiar a equipa de Sérgio Conceição. Sempre que vai ao Dragão — e são muitas as vezes — não dispensa o cachecol azul e branco. É sócia do FC Porto desde o dia 10 de Outubro de 1991 (o seu número é o: 18.167) e tem lugar cativo no Dragão, mas muitas vezes é convidada para assistir a jogos no camarote presidencial de Pinto da Costa.

“Elisa Ferreira é uma economista com um grande banho de território, o que não era comum na geração dela. Como ministra do Ambiente teve um papel importantíssimo na concretização do sistema de despoluição do Rio Ave e da recuperação do Vale do Ave”, afirma fonte socialista, sublinhando que a despoluição do Ave foi crucial para a recuperação económica da região, que na década de 80 atravessou uma situação dramática no plano social e económico. Elisa Ferreira coordenou a equipa técnica e foi autora do estudo preparatório da OID (Operação Integrada de Desenvolvimento) do Vale do Ave.

Filha única e tardia de uma família para quem a austeridade era um valor, a recém-eleita comissária europeia raramente tira os pés do chão, ainda que seja capaz de sonhar, conforme a própria assume. E sabe como reagir em situações embaraçosas que exigem fair play.

A contestada co-incineração em cimenteiras como forma preferencial de tratamento dos resíduos industriais perigosos — uma decisão tomada em 1997 pelo Governo de Guterres — valeu-lhe um cartoon de António, no Expresso, no qual Elisa Ferreira aparece como tendo saído de uma explosão. Quando deixou o ministério, os seus colaboradores mais próximos surpreenderam-na, oferendo-lhe o cartoon original de António. Elisa adorou e mandou fazer um quadro que ocupa um “lugar de grande destaque” na quinta que tem em Santo Tirso.

Há um outro episódio que retrata a “grande” capacidade da economista de “entender o sentir das pessoas e de estar próxima delas”. A construção do aterro sanitário em S. Pedro da Torre, em Valença do Minho, foi alvo de grande contestação, que se estendeu até ao dia da inauguração. A líder do movimento era uma mulher chamada Rosa, que Elisa Ferreira fez questão de cumprimentar quando chegou ao local para inaugurar o aterro, gesto que repetiu com os restantes manifestantes. No final da sessão, a então ministra dirigiu-se à mesma senhora, oferecendo-lhe o ramo de flores que recebera pouco antes das mãos dos construtores do aterro.

Há uma outra cerimónia que ficou famosa. Aconteceu na inauguração da Estação de Tratamento de Águas Residuais, em Rabada, em Santo Tirso, no âmbito do sistema de despoluição do Ave. O evento deixou em êxtase o apresentador de serviço que, no entusiasmo do momento, disse: “Pela primeira vez, está uma ministra, em Rabada, na inauguração de uma estação de tratamento.” A comitiva riu a bandeiras despregadas. E Elisa também.