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Entrevista

“Os eleitores austríacos queriam mudança. Tiveram-na, e acabou num drama”

A jornalista de política Ulrike Weiser analisa o que se prevê como desfecho das legislativas antecipadas na Áustria. Com um vencedor anunciado, o mais interessante será a formação de uma nova coligação de governo.

O conservador Sebastian Kurz e a social-democrata Pamela Rendi-Wagner CHRISTIAN BRUNA/EPA

A coligação entre conservadores e extrema-direita terminou com um escândalo. Mas a hipótese de se repetir não está afastada, nota a jornalista de Política do jornal Die Presse Ulrike Weiser, numa entrevista telefónica com o PÚBLICO.

Quais foram os temas desta campanha?

Na sequência do “vídeo de Ibiza”, em que o então líder do FPÖ [Partido da Liberdade, extrema-direita], Heinz-Christian Strache, discutiu que oligarcas russos comprassem uma parte do jornal Kroner, e financiassem o partido através de clubes ou associações [o escândalo que ditou o fim do Governo anterior] o tema do financiamento dos partidos foi muito discutido – e ainda foi aprofundado por um segundo escândalo, em torno de despesas pessoais do então líder Strache. Temos uma lei de financiamento dos partidos relativamente branda, e por isso houve debate sobre os limites, a transparência, etc. O segundo tema é global, foi o clima. Os Verdes, que nas últimas legislativas ficaram fora do Parlamento, vão agora eleger deputados, e nenhum partido ignorou o tema.

Além destes dois temas centrais, discutiu-se como se vão financiar os cuidados a uma população envelhecida, e ainda o Exército, depois de o ministro da Defesa ter apresentado um quadro muito dramático do seu mau estado financeiro. Também foram discutidos os temas habituais: migração, impostos, educação, mas nesta campanha os primeiros foram novos.

"O primeiro lugar está garantido para Sebastian Kurz", diz Ulrike Weiser DR

Algum factor pode ser decisivo?

Há um ponto de partida muito raro nestas eleições, que é não haver um duelo pelo primeiro lugar. O primeiro lugar está garantido para Sebastian Kurz, cujo partido ÖVP vai ser o mais forte. O que quer dizer também que não poderia ter havido durante a campanha nenhum tema que pudesse mudar esse ponto de partida. Desde o início que a narrativa do ÖVP foi que a inveja dos outros partidos fez cair o seu governo e a confiança dos cidadãos vai permitir que Kurz volte a ser chanceler. Mas a pergunta interessante é com quem poderá coligar-se.

Qais são as hipóteses de coligação?

Houve coisas na campanha que deram a sensação de que Kurz poderia pender para um lado ou para outro, foi mudando. Houve ondas de aproximação do ÖVP ao SPÖ (Partido Social Democrata) e ao FPÖ (Partido da Liberdade).

Todas as hipóteses têm problemas. Uma nova “grande coligação”, com os sociais-democratas, é voltar a um modelo que existiu durante muitos anos, que deu uma sensação de imobilidade, e as pessoas fartaram-se - o que poderia oferecer de novo? Uma coligação com o FPÖ teve problemas a nível interno e internacional, e as pessoas pensarão para que votaram se foi para obter o mesmo governo. As pessoas estavam fartas da “grande coligação”, queriam mudança. Tiveram mudança, e a mudança acabou num drama…

E uma coligação com os conservadores, liberais e verdes, a coligação dirndl”?

Isto seria muito novo, nunca houve uma coligação com três partidos a nível nacional. Seria talvez a variante mais interessante, em termos de conteúdo seria a mais nova. Mas tem alguns problemas, por exemplo no tema da migração, conservadores e Verdes têm posições opostas.

Não consigo mesmo dizer qual coligação é a mais provável, ninguém sabe.

Há uma última possibilidade. Que Kurz forme um governo minoritário e que coopere com partidos diferentes para diferentes políticas. Tivemos um governo minoritário uma vez, mas é relativamente novo e não é uma opção muito estável. Está sobre a mesa, mas não consigo dizer, e ninguém consegue dizer, qual é a mais provável. O que sabemos é que vai demorar muito até termos governo, porque as conversações vão ser muito difíceis.