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As eleições não vão ser um confronto entre pró-europeus e eurocépticos

Os partidos populistas e nacionalistas estão cada vez menos anti-Europa, diz a investigadora do European Council on Foreign Relations Susi Dennison ao PÚBLICO. Agora apresentam-se como agentes de uma mudança na UE embora apostem na imagem de que “antes era tudo melhor”.

Líderes da extrema-direitas europeus reunidos por Matteo Salvini, em Milão, no sábado MATTEO BAZZI/EPA

Os políticos populistas fazem manchetes com as suas propostas radicais e os partidos nacionalistas estão a ganhar uma força que ameaça tomar de assalto a União Europeia, fazendo destas eleições um momento definidor da história da Europa e destas eleições um referendo ao futuro da União Europeia. Certo? Não, diz ao PÚBLICO Susi Dennison, do European Council on Foreign Relations (ECFR), numa entrevista por telefone.

Pelo menos, não é isso que as sondagens do ECFR mostram. “O que vemos é que os eleitores vão votar sobretudo de acordo com os assuntos que os preocupam, e estes são a economia, as alterações climáticas e migração”, diz Dennison, que chefia o programa European Power no ECFR – e dentro da migração, há vários países que estão mais preocupados com a saída de pessoas do país, do que com a entrada.

Durante meses, falou-se da vinda à Europa de Steve Bannon, o estratega de Donald Trump, para ajudar os partidos populistas e nacionalistas a desenhar uma estratégia e vencer em Bruxelas. Também se falou da ascensão eleitoral de partidos desde a Liga e o Cinco Estrelas em Itália (que na sua coligação de governo de dois populismos de ideologia diferente poderia servir de modelo para os populistas europeus), dos bons resultados nas sondagens de partidos desde a União Nacional de Marine Le Pen em França, até ao Partido Lei e Justiça na Polónia, passando pelo Fidesz na Hungria, os dois últimos no Governo – e que se dividem em três grupos políticos diferentes no PE (o Fidesz conseguiu mesmo escapar a uma suspensão do Partido Popular Europeu, auto excluindo-se do grupo enquanto decorre uma avaliação).

O líder da Liga e ministro do Interior de Itália, Matteo Salvini, propôs uma aliança de forças de direita nacionalista. Mas como lembrava a revista The Economist, o “sonho” de Salvini “tem pelo menos dois problemas: o primeiro é o facto de estarem actualmente em três grupos políticos diferentes. O segundo é serem nacionalistas”. Isto porque “se o passado da Europa serve de exemplo, é que defender os interesses de um Estado envolve muitas vezes esbarrar nos interesses de outro.

As divisões são variadas, a nível mais alargado (Dennison aponta a diferença sobre orçamento e fundos para os países, onde os populistas do Norte querem cortar, os do Centro/Leste e Sul não), ou a proximidade da Rússia (marca do austríaco Partido da Liberdade/FPÖ ou da União Nacional, mas visto com enorme desconfiança na Polónia, por exemplo) ou em questões bem mais localizado (o FPÖ e a Liga têm a dividi-los a proposta do primeiro dar dupla cidadania à minoria germanófila no Tirol, no Norte de Itália). Há quem tenha mesmo evocado um potencial choque de egos entre a anterior protagonista da porta-estandarte dos nacionalistas eurocépticos, Marine Le Pen, e a mais recente figura a querer esse papel de protagonista, Matteo Salvini.

O escândalo na Áustria

No fim-de-semana, Salvini mobilizou para Milão onze figuras de partidos de direita nacionalista, mas o encontro ficou ensombrado por uma notícia maior – um escândalo envolvendo o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), cujo líder, Heinz-Christian Strache, foi apanhado em vídeo a discutir financiamento ilegal para o seu partido com uma alegada sobrinha de um oligarca russo numa vivenda em Ibiza – o escândalo levou o chanceler conservador, Sebastian Kurz, a quebrar a coligação que mantinha com o FPÖ e convocar eleições antecipadas, enquanto o FPÖ já se apressava a retirar das ruas os cartazes para as eleições europeias com a imagem de Strache.

Salvini apresentou estas eleições como “um referendo à Europa”, tentando pôr o quadro das europeias, em que a mobilização é mais forte para quem vota “contra”, e que dificilmente mobilizará a “maioria silenciosa” pró-europeia.

“Os partidos do centro estão a reagir bem e a não fazer destas eleições um referendo ao futuro da Europa, e sim falar de respostas a questões: o que farão sobre este ou aquele assunto”, comenta Dennison. “As pessoas vão votar por causa das questões que lhes interessam, não pelo futuro da União Europeia. Vão votar por causa do clima, do ambiente, da economia, de questões que influenciam a sua vida no seu país.”

Mas isto não quer dizer que não haja preocupações legítimas a ter em conta que estão a ser sobretudo verbalizadas pelos populistas. “Há de facto uma grande desconfiança dos eleitores no sistema, nas instituições, quer nacionais quer europeias, uma sensação de que o ‘contrato’ já não funciona”, nota Dennison. Uma ideia que teve particular força no movimento dos Coletes Amarelos em França.

As três emoções

Para Susi Dennison o “suporte emocional” dos partidos populistas foi o que mais mudou desde a última votação europeia. “as três emoções mais fortes são o medo (do terrorismo, das migrações), a ansiedade (a precariedade, a sensação de que o ‘establishment’ não ouve as suas preocupações na sequência da crise económica e financeira) mas também algum optimismo, uma ideia de que é possível mudar: penso que é isso que cria algum entusiasmo” por alguns partidos populistas, que defendem agora a mudança dentro da UE, que afirmam representar o povo contra a elite, e prometem uma realidade diferente.

“Sob essa imagem não há muito que seja diferente”, diz a analista. “Os nacionalistas continuam nacionalistas, e jogam na agenda doméstica. Além de não conseguirem formar uma coligação de longo prazo que lhes permita mudar a União Europeia, também não têm tido ideias políticas interessantes sobre como seria possível mudar as coisas. E em geral têm falhado no teste da governação, como é o caso da Lega e do 5 Estrelas que têm enfrentado limites sobre o que podem fazer quando chegaram ao poder”.

A par desta novidade há uma em sentido contrário. O facto de muitos destes partidos terem uma ideologia nacionalista fez com que nos últimos dois anos o nacionalismo passasse para um dos lugares cimeiros das preocupações nas sondagens – na Áustria, Alemanha, Espanha, Grécia e Polónia, é visto como uma ameaça maior, ou tão grande, como as migrações (emigração e imigração).

Numa das sondagens, o ECFR e YouGov perguntaram o que seria a maior perda de a União Europeia deixasse de existir. A primeira resposta foi o mercado comum e tudo o que implica, como a liberdade de estudar, trabalhar ou viver noutro Estado-membro. A segunda, viver numa união com poder de agir em bloco num mundo de poderes como os EUA ou a China. A terceira, a protecção da democracia e do Estado de direito.

Mais, à pergunta de se a União Europeia protegia os cidadãos dos excessos ou falhas dos governos nacionais ou se, por outro lado, impedia os Estados de defender os seus interesses, a maioria vê um papel protector na União Europeia.

Sair ou não sair

Muitos dos partidos populistas adaptaram e mudaram o seu discurso em função de atitudes mais positivas em relação à União Europeia - uma mudança para a qual o confuso processo do ‘Brexit’ terá contribuído. Um dos modos foi deixarem de fazer abertamente campanha pela saída dos seus países da União Europeia ou do euro – em 2016, o ECFR contava 15 países a fazer campanha por referendos à saída; hoje praticamente nenhum faz (a AfD, na Alemanha, tem andado à volta do assunto, acabando por se declarar “neutra” em relação a uma saída da Alemanha da União Europeia).

Assim, vários partidos populistas defendem agora uma mudança dentro da União Europeia. E fizeram-no casando duas ideias aparentemente antagónicas. “É muito inteligente como misturaram o medo do futuro com a ideia de que podem mudar o futuro e trazendo como ideal uma imagem nostálgica que não é de uma altura específica mas apenas uma ideia de que as coisas estavam melhor antes”, diz Dennison. “Isso joga muito bem com a ideia do eleitorado de que o futuro dos seus filhos pode não ser melhor do que o seu próprio: 2/3 acham que não, e muitos pensam que os pais tiveram uma vida melhor, se não em termos de rendimento pelo menos em termos de qualidade de vida.”

Em conclusão, Susi Dennison diz que esta não é uma eleição definidora entre um cenário idílico e um de cataclismo. 

“Não acho que [estas eleições] sejam um momento de potencial fiasco para a Europa que vai ser vencido ou perdido”, declara. “Ao longo do tempo vemos uma ideia de erosão da essência da ideia do que é a Europa. Mas o que vejo nos dados é que isto não é um reflexo dos eleitores: o que vejo é que as pessoas acreditam na Europa, acreditam é menos nos políticos e nos partidos políticos e negociatas no Parlamento Europeu, e no modo como há muito decisões transnacionais no Conselho”.

A divisão actual não é entre partidos mais ou menos europeus (ou pró/anti-europeus, ou cosmopolitas pró-europa/fechados no Estado-nação): é entre eleitores que pensam que o sistema não funciona e os que pensam que sim.

Os partidos do centro têm de encontrar um modo de se apresentar, e ser, agentes da mudança, em questões que preocupam as pessoas – e de ganhar a confiança dos eleitores de que vão trazer esta mudança.