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Eleições na Áustria: Sebastian Kurz vai ganhar, mas a quem se irá juntar?

Poucos arriscam uma previsão: nova coligação com a extrema-direita, coligação com os social-democratas, coligação a três com Verdes e liberais ou ainda um governo minoritário. Está tudo em aberto.

Sebastian Kurz num debate televisivo com Norbert Hofer, o novo líder do Partido da Liberdade, de extrema-direita Leonhard Foeger/REUTERS

Os austríacos vão votar este domingo numa eleição onde há uma certeza: o partido mais votado será o do antigo chanceler conservador, Sebastian Kurz, de 33 anos, que aparece nas sondagens com 34%. Na corrida para o segundo lugar estão os social-democratas (22%) e a extrema-direita (20%), com os Verdes a destacarem-se por protagonizarem a maior subida em relação à votação de 2017 (e com 12%, voltarem a entrar no Parlamento).

As eleições foram antecipadas na sequência da queda do Governo de Kurz, que estava coligado com o Partido da Liberdade (FPÖ), um partido com raízes nazis. Isto aconteceu por causa de um escândalo sem precedentes que estourou em Maio: o então vice-chanceler e líder do FPÖ, Heinz-Christian Strache, e o vice-presidente do partido, Johann Gudenus, foram filmados a discutir, numa casa de férias em Ibiza, com uma alegada sobrinha de um oligarca russo, a compra de uma parte de um tablóide austríaco para ajudar as perspectivas eleitorais do seu partido, troca de favores por contratos públicos, e doações que pudessem contornar os limites do financiamento dos partidos.

Os dois defenderam-se escudando-se na grande quantidade de álcool consumida e em dificuldades de comunicação, mas o vídeo, divulgado pela revista alemã Der Spiegel e pelo diário Süddeutsche Zeitung, revelou-se fatal, levando a manifestações imediatas pela demissão de Strache.

O Parlamento austríaco aprovou, de seguida, pela primeira vez uma moção de censura ao Governo, o que levou o Presidente, Alexander Van der Bellen, a nomear um governo de tecnocratas até à tomada de posse do governo saído das eleições marcadas para este domingo.

O chamado “caso Ibiza” foi um terramoto político. Mas depois do afastamento de Strache, o FPÖ parece ter tido uma recuperação rápida: nas eleições para o Parlamento Europeu, em Maio, ainda conseguiu 17%, e agora, com 20% nas sondagens, está a disputar o segundo lugar com o Partido Social Democrata (SPÖ), que com 22% nas sondagens arrisca ter o mais baixo resultado da sua história (desde 1945).

O novo líder do FPÖ é Norbert Hofer, sorridente e polido, nos antípodas de Strache, que é mais abrasivo. Hofer quase venceu as presidenciais em Dezembro de 2016, também marcadas por adiamentos e um enorme suspense – o ecologista Alexander Van der Bellen acabou por ser o vencedor.

Extrema-direita preferida

Nestas eleições, se é certo que Kurz será o novo chanceler, poucos arriscam dizer quem escolherá para ser o seu ou os seus parceiros de coligação.

Segundo as sondagens, a hipótese preferida dos eleitores é ainda uma coligação que inclua a extrema-direita: 28% dos inquiridos numa sondagem do Instituto austríaco Research-Affairs dizem preferir um Governo de conservadores e extrema-direita, com 7% a preferir a coligação de bloco central entre conservadores e social-democratas. Só 7% optariam por uma coligação a três, de conservadores-liberais-verdes, que em Maio era a hipótese a ser apontada como preferida nas sondagens.

Apesar de nesta campanha não se ter focado no tema da migração, o que justificou em boa parte a sua escolha anterior de uma aliança com o FPÖ, Kurz virou o seu partido à direita. Seria preciso inverter o curso para que formasse uma aliança com liberais e Verdes.

Os Verdes devem protagonizar a maior subida, passando de uns meros 3,8%, o que os fez ficar de fora do Parlamento (o limite na Áustria é de 4%) para uns projectados 12%. Há várias razões, elenca a jornalista de Política do jornal Die Presse Ulrike Weiser por telefone ao PÚBLICO: o facto de o clima ser a primeira preocupação dos eleitores, o abandono da estratégia do voto útil das últimas eleições, em que potenciais eleitores dos Verdes queriam fortalecer os sociais-democratas contra a extrema-direita, o facto de o partido ter perdido a sua imagem de “elitista” e, em menor grau, a popularidade do Presidente, que vem do partido. 

Reinhard Heinisch, professor de ciência política da Universidade de Salzburgo, aposta que Kurz vai aliar-se de novo com a extrema-direita. “O Partido da Liberdade é muito mais perigoso na oposição, e Kurz sabe que pode trabalhar com eles sem que a sua popularidade seja muito afectada”, disse ao diário britânico The Guardian.

Final prematuro?

Mas Heinish sublinha que, apesar de achar que há mais possibilidades de se formar esta coligação, também são grandes as hipóteses de não ser duradoura – os governos em que a extrema-direita marcou presença desde o final da II Guerra acabaram sempre antes do fim normal da legislatura.

Segundo a AFP, o factor decisivo pode ser Herbert Kickl, que ocupou o Ministério do Interior, ordenando um raide aos serviços de informação interna (após o qual estes foram excluídos do Clube de Berna, organização de troca de informação dos países da União Europeia, Suíça e Noruega – os outros países temiam que fossem passadas informações à Rússia, já que o FPÖ é próximo do partido Rússia Unida, de Vladimir Putin, com quem tem um acordo de cooperação). Kurz não quererá que este esteja no Governo, e se o FPÖ insistir na inclusão de Kickl, esta pode ser uma razão para que Kurz se decida por outra combinação.

A “grande coligação” entre os dois principais partidos tem o perigo óbvio de fortalecer a extrema-direita, que seria o principal partido da oposição de um governo de mínimo denominador comum das políticas aceitáveis para os dois partidos.

A opção tem sido frequente na política austríaca: desde 1945, foi esta combinação que governou num total de 44 anos, o que justifica o cansaço. Além disto, a jornalista de Política do jornal Die Presse Ulrike Weiser aponta uma aparente inimizade e desconfiança entre Sebastian Kurz e a líder dos sociais-democratas, Pamela Rendi-Wagner. “Não parecem confiar um no outro.”

A coligação com três partidos tem recebido o nome de coligação dirndl, que são os vestidos típicos de muitas zonas da Áustria, baseados num traje tradicional dos Alpes: as cores azul, rosa e verde são uma combinação frequente nestes trajes.

Embora fosse uma estreia a nível nacional (além dos liberais serem um partido relativamente novo, fundado em 2012, nunca houve três partidos no Governo a nível nacional), a coligação existe no parlamento regional de Salzburgo há mais de um ano.