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Opinião

Duas entrevistas

Não poderia haver um contraste maior entre a entrevista de Merkel ao Financial Times e a que Macron deu à Economist há dois meses.

1. Numa longa entrevista ao Financial Times, a chanceler Angela Merkel reafirma a sua convicção de sempre sobre a importância vital da União Europeia (e da NATO) para a Alemanha e os desafios que se colocam ao seu país nos próximos tempos. Como sempre, Merkel não parte a louça, nem sai do registo calmo e ponderado que é a sua imagem de marca. Define a saída do Reino Unido como um “alerta”, não tanto para os riscos de desagregação e de enfraquecimento da União Europeia (não fala disso), mas sobretudo para o facto de a economia britânica, liberta de constrangimentos europeus, poder tornar-se mais competitiva ou, por outras palavras, rival das economias continentais, nomeadamente da alemã. Mas tem resposta para o desafio: isso obrigará a Europa continental a um esforço suplementar, que lhe permita ganhos de competitividade para não perder a corrida. Como? Através da criação de um mercado único digital, da conclusão da união bancária (admitindo que a Alemanha se opõe “um bocadinho” ao seu terceiro pilar, do mecanismo comum de resolução), com uma política industrial mais activa, que permita à Europa produzir bens de alta tecnologia que hoje importa da Ásia ou da América.

Perante um mundo em profunda mutação, a chanceler não desiste da defesa do multilateralismo, a grande lição que o mundo aprendeu depois da II Guerra, como a melhor forma de resolver problemas comuns com benefício para todos, mesmo admitindo que é preciso reformar as instituições em que assenta, a começar pela Organização Mundial do Comércio. Fala muito de África, mas curiosamente passa ao lado do Médio Oriente e dos acontecimentos que dominaram as atenções mundiais nos primeiros dias do ano e que questionam directamente o papel da Europa no mundo. Fiel à relação transatlântica e aos valores em que assenta, rejeita a ideia de que já não existe essa realidade geopolítica a que se chama Ocidente. Evita o confronto aberto com Donald Trump, lembrando que as crescentes dificuldades no relacionamento dentre os dois lados do Atlântico resultam de mudanças estruturais, e não conjunturais. Vem de Obama a “viragem” dos EUA do Atlântico para o Pacífico, onde emerge o maior desafio à liderança americana da ordem internacional. Conclui que a Europa tem de assumir maiores responsabilidades, se quer preservar uma aliança que continua a ser fundamental, quanto mais não seja porque a sua segurança vai continuar a depender por muitos e bons tempos dos EUA. Rejeita o chamado “decoupling” em relação à China – a separação entre as economias ocidentais e a economia chinesa –, defendendo uma relação com a superpotência emergente que consiga assentar em regras mais equitativas, mas que não ignore o extraordinário potencial da economia chinesa e o seu progresso vertiginoso nas últimas três décadas.

Há uma marca indelével ao longo da entrevista que continua a ser, porventura, o problema da Alemanha e consequentemente da Europa: o prisma com que olha o mundo é essencialmente económico. A Alemanha ainda não se libertou dos anos da reconstrução do pós-guerra, em que a única afirmação nacional que estava ao seu alcance foram os sucessivos “milagres” económicos que fizeram do marco uma das moedas mais poderosas do mundo e da economia alemã a locomotiva da Europa. Falta-lhe a visão geopolítica que a líder do país mais poderoso da União Europeia deveria ter para não reduzir tudo às contas públicas, à poupança, às exportações, aos “pequenos passos”, para os quais a Europa tem cada vez menos tempo.

2. Não poderia haver um contraste maior entre esta entrevista da chanceler e aquela que Emmanuel Macron deu à Economist há dois meses. Não é apenas uma questão de estilo, embora também seja. O Presidente francês, goste-se ou não das suas ideias, tem uma visão da realidade internacional que consegue ser global e profundamente lúcida. Alerta sem meias palavras para o risco real de a Europa se tornar um mero objecto da rivalidade entre as grandes potências mundiais, instaladas e emergentes. Defende a “autonomia estratégica” e a “soberania económica” como as duas componentes essenciais para a afirmação da Europa como actor global. Não põe de parte, longe disso, a importância da relação transatlântica, mas aponta os riscos que ela corre nos dias de hoje, nomeadamente com a frase que fez as manchetes da imprensa ocidental: “A NATO está em morte cerebral.” Mas explica o que quer dizer. Por exemplo, se houver um ataque directo a um dos seus membros, os EUA manter-se-ão fiéis ao princípio que está na sua origem: “O ataque a um é um ataque a todos?” São perguntas cuja resposta, para ser negativa, passa necessariamente pelo reforço da capacidade militar da União para a qual a França contribui; a Alemanha bastante menos. A questão não é tanto o que cada um pode fazer, mas antes as escolhas que cada um tem de fazer. Berlim privilegia claramente o défice zero ao invés do cumprimento do compromisso de atingir 2% do PIB em gastos com a defesa em 2024. Merkel reitera que não o vai cumprir. A França já lá está e a sua política económica não passa certamente pela obsessão com o défice, embora Macron tenha conseguido, contra ventos e marés, realizar um conjunto de reformas que trouxeram um ganho visível de competitividade à economia francesa. Macron vê a saída do Reino Unido como a perda do seu principal parceiro no domínio da defesa europeia e da capacidade de acção da Europa quando se trata o uso da força. Merkel vê um competidor económico e o risco de perda de um mercado para os seus BMW.

Pela primeira vez há quase duas décadas, a economia francesa cresce mais do que a alemã. Notícias sobre a sua capacidade de atracção de investimento tornaram-se banais. Bateu todos os recordes na criação de start-ups. A sua indústria automóvel está a adaptar-se mais depressa às novas exigências do combate às emissões de carbono e, sobretudo, é muito menos vulnerável à possibilidade de Trump decidir aplicar tarifas à importação de carros europeus (o que é o mesmo que dizer alemães), que tira o sono à chanceler. Merkel reconhece, aliás, alguns dos atrasos da economia do seu país na adaptação à nova realidade mundial, nomeadamente no que diz respeito à digitalização e à inovação – o  que se compreende. O modelo assente nas exportações de bens serviu-lhe às mil maravilhas nas últimas décadas. Tem mais dificuldade em aceitar que chegou a hora de mudar de paradigma.

Os dois líderes têm consciência de que o eixo Paris-Berlim, por muito mal que funcione nos dias de hoje, tem de manter-se, mesmo que com alguma dose de ficção. E isso é fundamental para a Europa. Mas a distancia que ainda os separa é muito grande, como as duas entrevistas comprovam.

3. Há um outro aspecto da entrevista de Merkel que merece atenção. Para quem se apressou a dá-la como acabada, é óbvio que a chanceler se atribui uma última tarefa: a presidência alemã da União Europeia, no segundo semestre deste ano, depois da croata e imediatamente antes da portuguesa. A chanceler não faz segredo de que será a sua presidência a concluir as negociações do próximo quadro financeiro plurianual, a maior dor de cabeça da agenda interna europeia, que esbarrou na intransigência dos países mais ricos em aumentar as suas contribuições de forma a compensar a saída britânica. E esta pode ser uma boa notícia, na medida em que Berlim, ao assumir o papel de mediação, terá de se afastar (um pouco) dos mais intransigentes (Holanda, Áustria, Dinamarca Suécia e Finlândia) e aproximar-se dos 18 países menos ricos que defendem a manutenção das políticas de coesão, fundamentais para a convergência económica no espaço europeu. A chanceler já deu a entender que o orçamento pode ser um pouco maior do que 1% do PIB, desde que as verbas suplementares se dirijam à imigração e às chamadas “políticas de modernização”. Em Estocolmo, há sinais da mesma flexibilidade, desde que as verbas se destinem a políticas destinadas a melhorar as indústrias mais avançadas. Sabemos quais são os países com condições para desenvolver mais depressa sectores de ponta. Ou que podem significar, para a Alemanha, políticas “modernizadoras”.

Enfim, todos desejamos uma saída em grande para a chanceler cujo rosto simpático e tranquilo foi muitas vezes a boa imagem da Europa no mundo. Desde que a Alemanha saiba exactamente o que quer hoje da Europa e o que está disposta a sacrificar por ela.