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Ameaçada pelas cheias, Veneza pede ajuda para recuperar

Maré voltou a subir este domingo, superando os 1,50 metros acima da linha do mar. É a pior semana de cheias em 150 anos. Foi aberta uma conta bancária pela câmara onde podem ser depositadas contribuições para que a “cidade volte a brilhar”.

A chuva intensa e o vento forte que a assolam Itália por estes dias não estão a dar tréguas a Veneza, que este domingo foi atingida pela quarta vaga numa semana e viu a maré superar os 1,50 metros acima do nível do mar na Praça de São Marcos. Alagada e a bater recordes históricos todos os dias, a turística cidade italiana continua a registar subidas anormais do nível das águas e a precisar de quantias avultadas para recuperar os estragos – calculada num milhar de milhão de euros pelas autoridades municipais.

Mesmo acostumada à acqua alta, há muito que Veneza não sofria tanto com as inundações. Duas pessoas morreram e foi declarado estado de emergência. Se na passada terça-feira o nível da água da lagoa atingiu o ponto mais elevado desde 1966, a sequência dos dias seguintes confirmou a pior semana desde 1872: 1,87 metros na terça-feira, 1,44 na quarta-feira, 1,54 na sexta-feira e 1,50 este domingo.

Cerca de 70% da cidade está alagada. A água arrastou detritos que atingiram e danificaram estabelecimentos comerciais, habitações, museus, edifícios históricos, e obrigaram ao encerramento de alguns dos locais mais emblemáticos e concorridos da cidade. Para além disso, os canais e as ruas transformaram-se em autênticos rios e há registo de falhas diversas no sistema de energia eléctrica. 

Apesar de não se esperar nova subida das águas ao nível de terça-feira, as constantes ondas que vêm do Mar Adriático e cruzam a lagoa dificultam os trabalhos de comerciantes e equipas de socorro que tentam limpar os destroços e escoar a água de dentro das casas. 

“As pessoas começam a ficar preocupadas e desesperadas. Estamos habituados a este fenómeno, mas está a tornar-se cada vez mais disruptivo”, reagiu o cardeal Francesco Moraglia, patriarca da cidade.

E com a catástrofe, há outra situação invulgar no horizonte: segundo o jornal La Stampa, foram canceladas quase 50% das reservas em unidades hoteleiras, pelo que Veneza, património mundial da UNESCO, habitualmente apinhada de turistas, estará estranhamente vazia nos próximos dias.

Um milhar de milhão de euros

Para além da garantia da segurança dos habitantes da cidade e dos turistas, as autoridades municipais demonstram preocupação com os custos avultados da reparação dos estragos, principalmente nos edifícios mais antigos, como a Basílica de São Marcos, o Palácio Ducal ou o Palácio Gritti. 

De acordo com as estimativas do presidente da câmara, Luigi Brugnaro, as cheias provocaram danos na ordem do milhar de milhão de euros. Um valor elevadíssimo, relacionado, em grande medida, com o impacto agressivo da água salgada nas construções históricas. 

Nos últimos dias surgiram vários apelos e iniciativas para ajudar a cidade, oriundas da sociedade civil, do meio artístico e do poder político. Promovida por Brugnaro nas redes sociais, foi aberta uma conta bancária pela câmara de Veneza onde podem ser depositadas contribuições para ajudar a recuperar a cidade. 

“Veneza é um orgulho de toda a Itália, é um património de todos, único no mundo. Com a sua ajuda, voltará a brilhar”, escreveu o autarca no Facebook.

Já o presidente da autoridade portuária do Adriático Norte, Pino Musolino, pediu às empresas de navios e cruzeiros nacionais e internacionais que exploram, vivem e lucram com o turismo da cidade, que organizem e promovam as suas próprias angariações de fundos, para ajudarem Veneza a reagir às cheias.

“Seria um sinal tangível da vossa proximidade com Veneza e um sinal concreto de que é possível construir uma relação de confiança entre a indústria dos cruzeiros e a comunidade veneziana”, sublinhou Musolino, numa carta enviada às empresas em causa e partilhada pelo próprio no Twitter.

Pisa e Florença, mais a Sul, são outras cidades históricas italianas que estão a sofrer nos últimos dias com a chuva intensa. Face à subida das águas do rio Arno, estão em curso operações de reforço das margens. Também em Nápoles, bastante mais a Sul, há registo de inundações chuvas fortes.