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Defesa de Trump contra o impeachment sofre dois golpes em menos de um dia

Depois de o embaixador interino dos EUA em Kiev ter afirmado que o Presidente norte-americano estava envolvido na pressão sobre a Ucrânia, o jornal New York Times noticia que o Governo ucraniano sabia que a Casa Branca tinha congelado o envio de ajuda financeira.

O Presidente norte-americano afirma que a Ucrânia não sabia que a ajuda financeira estava congelada Reuters/TOM BRENNER

O Governo da Ucrânia sabia que a Casa Branca estava a reter o envio de quase 400 milhões de dólares de que o país precisava para combater os separatistas pró-russos, ao mesmo tempo que o Presidente Donald Trump pedia ao Presidente ucraniano que investigasse uma suspeita infundada e uma teoria da conspiração contra adversários políticos no Partido Democrata. A revelação, feita esta quarta-feira pelo jornal New York Times, contradiz o principal argumento do Presidente norte-americano para desvalorizar o processo de impugnação de que está a ser alvo – a de que seria impossível provar-se que houve uma troca de favores se a outra parte não soubesse que havia algo para trocar.

Segundo o Times, a informação de que o dinheiro norte-americano estava congelado chegou ao topo da política ucraniana na primeira semana de Agosto. Até agora, não há provas de que o lado norte-americano transmitiu directamente ao lado ucraniano que os 400 milhões de dólares só seriam desbloqueados se o país fizesse o que o Presidente Trump queria, mas não é só isso que está em causa.

Ainda esta quarta-feira, Donald Trump citou, no Twitter, o congressista republicano John Ratcliffe para dizer que o processo de impugnação “está morto”.

“Nenhuma testemunha disse que os ucranianos sabiam que a ajuda militar estava a ser retida. Não é possível haver uma troca de favores sem que haja um favor para trocar” – um argumento que perde agora a sua validade, segundo o New York Times.

A explicação oficial do Presidente Trump é que o pacote financeiro foi congelado porque havia dúvidas sobre a seriedade dos ucranianos em relação ao combate à corrupção, e para pressionar os aliados europeus a aumentarem as suas contribuições para a Ucrânia.

"Canal diplomático irregular"

A notícia de que os ucranianos sabiam do congelamento financeiro chega horas depois de o actual embaixador interino dos EUA em Kiev, William Taylor, ter prestado o depoimento mais prejudicial para o Presidente Trump desde que o Partido Democrata anunciou o reforço das investigações para um impeachment, em finais de Setembro.

Num depoimento de quase dez horas, numa sala privada da Câmara dos Representantes, Taylor acusou Trump de estar implicado pessoalmente na pressão que a Casa Branca fez sobre a Ucrânia para prejudicar o Partido Democrata, contrariando outro argumento do Presidente norte-americano para dizer que está a ser vítima de uma “caça às bruxas”.

William Taylor, um experiente diplomata de 72 anos, antigo militar formado em West Point e condecorado na guerra do Vietname, chegou à Ucrânia em Maio passado para substituir a embaixadora Marie Iovanovitch a pedido do secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, quando já estava afastado da carreira diplomática.

A antiga embaixadora também já foi ouvida pelas comissões de inquérito da Câmara dos Representantes e disse que foi afastada do cargo por pressão do advogado pessoal de Trump, Rudolph Giuliani.

No seu depoimento, Taylor disse que percebeu, em poucas semanas, “que a reunião que o Presidente Zelenskii desejava ter [com Trump] estava dependente da abertura de investigações à empresa Burisma e à alegada interferência ucraniana nas eleições de 2016 nos EUA”.

“Ficou também claro que essa condição estava a ser imposta pelo canal irregular que, segundo vim a descobrir, estava a ser liderado por Giuliani”, disse o embaixador norte-americano em Kiev.

William Taylor, um alto funcionário respeitado em ambos os partidos e que desempenhou cargos nas administrações de George W. Bush e Barack Obama, também desmentiu uma outra testemunha no processo de impugnação, que defendeu o Presidente Trump quando foi ouvido na Câmara dos Representantes.

Gordon Sondland, o embaixador dos EUA na União Europeia, disse que Trump afirmou que não estava em causa nenhuma troca de favores, mas William Taylor desmentiu-o na terça-feira: “O embaixador Sondland também me disse que percebera que tinha feito um erro ao dizer aos responsáveis ucranianos que a reunião na Casa Branca com o Presidente Zelenskii dependia de um anúncio público sobre as investigações. Na verdade, disse-me depois o embaixador Sondland, ‘tudo’ dependia daquele anúncio, incluindo o envio de ajuda militar. Disse-me que o Presidente Trump queria amarrar o Presidente Zelenskii a uma declaração pública sobre a abertura das investigações.”

Dos Biden à Burisma

Desde 2017 que um grupo reduzido de congressistas do Partido Democrata tenta convencer a Câmara dos Representantes a acusar o Presidente Trump de crimes ou delitos puníveis com a destituição – desde as suspeitas do seu envolvimento com a Rússia na campanha eleitoral de 2016 nos EUA, até à condenação da política de separação de famílias na fronteira com o México, por exemplo.

Mas só agora esse impulso recebeu o apoio da liderança do partido na Câmara dos Representantes, num processo que está centrado nas suspeitas sobre a troca de favores com a Ucrânia. Segundo uma denúncia feita em Agosto por um agente da CIA, o Presidente Trump e o seu advogado pessoal, Rudolph Giuliani, montaram uma espécie de Departamento de Estado paralelo na Casa Branca com o objectivo de levar o Presidente ucraniano, Volodimir Zelenskii, a abrir investigações que poderiam manchar o nome do Partido Democrata e em particular de Joe Biden, um dos possíveis adversários de Trump nas eleições presidenciais de 2020.

Em 2014, quando Joe Biden era vice-presidente dos EUA e responsável pela aproximação com a Ucrânia no período pós-revolução, o seu filho, Hunter, foi contratado pela empresa de gás Burisma, fundada por um oligarca ucraniano. Nenhuma investigação sobre as actividades da Burisma e do seu fundador se centrou em Hunter Biden.

E em 2017, quando as investigações dos serviços secretos norte-americanos e do procurador especial Robert Mueller mostraram que a Rússia lançou uma campanha de propaganda e manipulação dos eleitores para semear divisões e prejudicar a adversária de Trump em 2016, Hillary Clinton, surgiu uma teoria da conspiração contrária que o Presidente Trump e o seu advogado continuam a promover. Segundo essa teoria, foi a Ucrânia que montou a operação de propaganda em 2016 contra o Partido Democrata e Hillary Clinton, com o objectivo de incriminar a Rússia.

O processo de impugnação contra o Presidente Trump está ainda na fase de audições e análise de documentos. É provável que as comissões envolvidas, em que o Partido Democrata está em maioria, acabem por recomendar à Câmara dos Representantes que acuse o Presidente Trump de crimes como associação a um país estrangeiro para prejudicar adversários políticos, obstrução das investigações e tentativa de ocultar as suas intenções.

Se isso acontecer, a acusação deverá ser aprovada com os votos dos congressistas do Partido Democrata, que tem uma maioria suficiente para isso na Câmara dos Representantes.

O processo seguirá depois para o Senado, que julgará as acusações feitas pela câmara baixa. Para que um Presidente seja efectivamente afastado do cargo, é preciso que dois terços dos senadores o condenem (pelo menos 67 senadores em 100).

Ainda não há sinais de que a maioria republicana no Senado esteja a vacilar no seu apoio ao Presidente Trump, mas também é normal que uma revolução dessas não aconteça nos momentos iniciais de um processo de impeachment. Se essa revolução vier a acontecer, pelo menos 20 senadores republicanos terão de mudar de opinião até lá e condenar o Presidente norte-americano.

Ouça aqui o podcast Fogo e Fúria: