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Reportagem

Dagenham: um tijolo da red wall trabalhista na mira do Partido do Brexit

Voto pela saída da UE superou os 70% neste antigo bastião da classe operária britânica, que pode assistir ao fim de décadas de governação do Labour na quinta-feira. Partido de Farage tenta convencer eleitores com candidato ex-trabalhista.

O líder do Partido do Brexit, Nigel Farage, a fazer campanha por um candidato contestado pelos trabalhistas Jon Super/REUTERS

“Vote pelo NHS, vote no Partido Trabalhista”, lê-se no pin que Carol, de 72 anos, leva preso na mochila. Em tempo de eleições, a mensagem de apoio ao Partido Trabalhista e defesa do serviço nacional de saúde britânico enquadra-se e adequa-se ao tempo e ao espaço onde é exibida. A Station Parade, artéria movimentada da localidade britânica de Barking, nas margens do Tamisa, integra um círculo eleitoral governado pelo partido de Jeremy Corbyn desde 1945.

“Voto no Labour desde que me conheço e apesar da mudança que muitos dizem estar a chegar, acredito que o meu voto será novamente para o vencedor”, assegura Carol, professora na reforma e residente de Dagenham “há mais de 30 anos”, mas com uma voz bem menos decidida do que as palavras parecem sugerir. A frase seguinte dá conta disso: “A conjuntura é diferente, é verdade”.

E é mesmo. Em 2016, a circunscrição de Dagenham e Rainham votou maciçamente pela saída do Reino Unido da União Europeia. Mais concretamente, 70,3% dos que participaram no referendo. Dali até o rio se transformar em mar, para Leste, no chamado Thames Gateway, os vizinhos da família pós-industrial britânica acompanham a tendência brexiteer.

Havering (69,7%), Thurrock (72,3%) Basildon (68,6%) e Castle Point (72,7%), todos se uniram na rejeição da filiação do Reino Unido ao clube britânico no referendo, com algumas das suas percentagens mais elevadas.

Mas o longo domínio trabalhista faz de Dagenham um caso à parte no Sul de Inglaterra, principalmente porque, volvidas tantas décadas, a circunscrição corre sérios riscos de trocar de mãos. Segundo o modelo de sondagens MRP – que faz previsões por círculo eleitoral – o Partido Conservador está em condições de afastar o histórico Jon Cruddas, deputado do Labour eleito ali há quase 20 anos.

Se há um muro vermelho trabalhista, e brexiteer, na região Centro e Norte de Inglaterra que, segundo os analistas, é apontado como a chave para a maioria parlamentar que Boris Johnson procura nas legislativas desta quinta-feira, então Dagenham e Rainham é um tijolo desse muro, perdido a Sul.

A fundação Trust for London, que se dedica ao estudo das desigualdades e à luta contra a pobreza na área metropolitana de Londres, descreve Barking e Dagenham como um lugar com “problemas duradouros de carência”, com um “desempenho particularmente reduzido em matéria de educação, e criação de riqueza” e com “baixos salários”.

Primeira beneficiária da gigantesca fábrica de fabrico automóvel da Ford, que dava emprego e sustento a dezenas de milhares desde 1931, a população de Dagenham foi, naturalmente, a primeira prejudicada com o encerramento das suas principais unidades, em 2013. Quase dois mil postos de trabalho foram imediatamente riscados, sem contar com outros milhares de empregos da região, directamente dependentes ou afectados por eles, que também se perderam, por arrasto.

“Ainda há uns quantos empregos na fábrica, mas a deslocalização afectou toda a gente aqui”, lamenta Robert, de 61 anos, que assume ter votado pela saída da UE. “O referendo foi uma desculpa para podermos protestar e pedir que não se esqueçam de Dagenham”.

Cidades perdidas

“Somos uma das cidades esquecidas, deixadas para trás. Dagenham não é Londres, é outra cidade, outro país. E ao contrário de outros lugares, aqui não temos medo de dizer que somos leavers, que queremos o ‘Brexit’”, afirma Karen com firmeza, sentada à secretária do 5º andar de um prédio em Barking, por entre caixotes, bandeiras e panfletos de cor azul clara, que exibem a branco o nome do outro aspirante à ruína trabalhista: o Partido do Brexit.

Karen Sunderland é a coordenadora de campanha do candidato do partido de Nigel Farage (ex-UKIP) a Dagenham, Tom Bewick, e “não está preocupada” com as sondagens que colocam o candidato a mais de 20% de Cruddas e a 30% de Damian White, concorrente tory, e que estão a “conspirar contra o partido”.

Conhecedor da tradição política local, o Partido do Brexit tem um truque na manga para conquistar votos. Ao contrário da grande maioria dos dirigentes políticos que integraram a plataforma partidária “nascida de uma promessa falhada de Theresa May” e vencedora das eleições europeias de Maio, Bewick não vem das fileiras conservadoras, nem tem passado na família da direita: é um ex-trabalhista.

Em Maio de 2019, o candidato trocou o Labour – onde serviu como dirigente municipal e conselheiro da governação Tony Blair-Gordon Brown – pelo Partido do Brexit, para “transformar totalmente a cultura política britânica”, para desafiar o “establishment político, sindical e dos media” que diz “ter o país refém” e que “quer continuar a fazer parte de um ‘super-Estado’ europeu”, e para ajudar a acabar com uma relação “assimétrica” entre os britânicos e a UE.

“Venho da esquerda, da ala progressista do Labour, sei os riscos que corri ao juntar-me ao Partido do Brexit e sei que é a minha reputação política e pessoal que está em jogo”, explica Tom Bewick ao PÚBLICO, na sede do partido em Barking, numa terça-feira de muita chuva e vento forte. “Mas Dagenham é um ‘Estado’ de um só partido, é necessário pluralismo e competição de ideias, e isso aqui não existe”.

Bewick sabe que as águas por onde se move não são calmas, nem sequer consensuais. A população que se identificou nos censos de 2001 como sendo “white british” passou de mais de 80% para menos de 50% em 2011. Uma “enorme alteração demográfica num período muito curto” que, para além das novas dinâmicas sociais e económicas que trouxe para Dagenham, tenta os críticos do Brexit Party a associá-lo a movimentos pouco recomendáveis.

Na memória dos críticos, não tão longínqua porque remete a 2006, ninguém esquece os 12 dirigentes municipais que o Partido Nacional Britânico (BNP, na sigla em inglês), de extrema-direita, conseguiu eleger – desapareceram, entretanto, do mapa, em 2010.

“Armadilha” do racismo

No mercado improvisado na Ripple Road, entre as bancas que vendem roupa em segunda mão e frutas variadas, Whalid, de 24 anos, diz estar habituado a discriminação e sabe que “os que vivem aqui há mais tempo” não gostam da diversidade étnica dos bairros mais próximos. Sam, na casa dos 50, e com os olhos postos na oferta de laranja do dia, confessa que “nem todos aceitam com agrado que o inglês tenha deixado de se ouvir” em Dagenham. Mas rejeita haver um “problema profundo” de xenofobia.

“Quando a social-democracia de esquerda falha na avaliação dos fenómenos identitários e das mudanças económicas e sociais a que temos assistido em sítios como este, a extrema-direita ou os fascistas do BNP saem beneficiados”, defende, por sua vez, Tom Bewick. “Mas eu não caio nessa armadilha, de chamar racistas ou intolerantes aos eleitores. Porque eles são, acima de tudo, gente ressentida, que sente que os responsáveis políticos não os têm defendido”.

Membro activo da campanha do Vote Leave no referendo de 2016 e adepto confesso do “impacto que o sloganTake Back Control’” teve no eleitorado, o antigo vereador de Brighton defende a proposta do Partido do Brexit sobre um sistema migratório “controlado”, “neutro sobre a etnicidade de quem vem” e que “respeite os valores do British way of life – tolerância, equidade, internacionalismo e empreendedorismo”.

Bewick rejeita, no entanto, que o Partido do Brexit ou Nigel Farage sejam extremistas ou racistas. Mesmo aceitando a existência de ideologias mais controversas no partido ao que hoje defende com unhas e dentes.

“É verdade que o UKIP atraiu gente que se encontra nos extremos do debate sobre a soberania e que acredita numa ideologia nativista, mas as pessoas no topo do Brexit Party não são desse campo. Nunca me apresentaria como candidato de um partido explicitamente ou implicitamente racista”, garante.

Corrida a três?

Ao contrário do que se tem verificado junto dos partidos mais próximos do debate remainer, no espectro brexiteer da política britânica parece haver consenso sobre as prioridades para esta eleição: “Get ‘Brexit’ done”, o mantra de Johnson.

Foi, aliás, seguindo essa ordem de ideias, que Farage mandou retirar os candidatos do Partido do Brexit de 317 círculos eleitorais que foram ganhos pelos conservadores em 2017, e que vários outros membros do partido desistiram de concorrer em lugares onde o seu voto pudesse dividir o eleitorado leaver.

Qual é então a diferença entre o Partido do Brexit e o Partido Conservador? David Axe, candidato na circunscrição londrina de Bethnal Green e Bow, que veio a Barking “apoiar Tom”, intervém, calmamente: “Somos diferentes porque não acreditamos no acordo de saída que os tories estão a propor. O trunfo deles é o cansaço, mais do que o tipo de ‘Brexit’ que querem. Nós queremos um corte total com a UE”.

Bewick concorda. Para o candidato de Dagenham e Rainham a estratégia do sucessor do primeiro-ministro, de se agarrar ao “Brexit”, é “puramente táctica”. “Eles só querem resolver o ‘Brexit’ para voltarem para as suas políticas de sempre, para agradar às elites de sempre”.

É, precisamente, essa a postura de Damian White, nestas eleições, acredita. “White é um dirigente local profundamente impopular, que tem uma estratégia propositada de transformar a eleição de Dagenham numa eleição sobre Johnson”, atira o candidato. “É por isso que raramente aparece, nos media, nos debates ou nas ruas”.

Engane-se, no entanto, quem achar que a competição pelo voto brexiteer na circunscrição, se limita apenas aos candidatos à direita. Jon Cruddas foi um dos poucos trabalhistas que votou favoravelmente o acordo do “Brexit” apresentado no final de Outubro pelo Governo. Mesmo não sendo um adepto da saída, mas um “remainer cauteloso”, o deputado justificou o seu voto com a necessidade de se “respeitar o referendo” e afasta-se da posição neutral que a direcção do partido insiste em assumir.

No fundo, a corrida em Dagenham e Rainham vai ao encontro dos que, em 2016, votaram massivamente para virar as costas a Bruxelas. “Uma corrida de três cavalos”, nas palavras de Tom Bewick, onde os votos vão ser disputados em cada divisão administrativa. Estratégias há muitas, mas o Partido do Brexit acredita ter a fórmula vencedora.

“Os tories estão focados em Rainham e Wennington, South Hornchurch e Elm Park e os trabalhistas apostam nas outras seis localidades”, aponta Bewick num mapa encontrado entre panfletos. “Nós olhamos para isto tudo e só vemos uma coisa: 70,3% de voto leaver. É essa a nossa vantagem”.