Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

O Daesh queria um califado e sucumbiu soterrado numa vila síria

Cercado numa pequena localidade junto ao Eufrates, grupo terrorista não resistiu ao epílogo da sua campanha jihadista pela Síria e pelo Iraque. Derrota da organização que quis ser Estado não significa, porém, o fim do flagelo e da guerra síria.

A fuga massiva de civis da vila síria de Baghouz, junto à fronteira iraquiana, no último mês, era um prenúncio do que aí vinha: o último reduto do Daesh, o projecto jihadista que transformou um vazio de poder regional num organismo próximo de um Estado soberano, enfrentava os seus derradeiros dias. Foi entre as margens do rio Eufrates e as portas do deserto que umas poucas centenas de combatentes sucumbiram ao assalto final dos exércitos curdo-árabes, apoiados pelas forças ocidentais, acabando soterradas pelo peso imenso do sonho de um califado que atraiu milhares e aterrorizou milhões.

Este sábado, depois de cinco anos de confrontos, foram as forças apoiadas pelos Estados Unidos da América a anunciar que os militantes foram expulsos de Baghouz, no deserto sírio. “Neste dia único, comemoramos os milhares de mártires cujos esforços tornaram isto possível”, afirmou Mustafa Bali, porta-voz das Forças Democráticas Sírias (SDF), no Twitter.

A reconquista de Baghouz foi tal e qual o que se previu. Uma batalha de cansaço, travada em cada rua e em cada esquina, entre as SDF e os seus aliados árabes e um grupo obstinado de resistentes que não abdicou do seu modus operandi em cenários de resistência desesperada. Utilizou escudos humanos, armadilhou carros e dispersou-se entre edifícios em ruínas e túneis secretos. Para a História fica um banho de sangue pela disputa de uma área que, antes da ofensiva final, não excedia os 700 metros quadrados.

Mas o desaparecimento do grupo que conseguiu erguer à sua volta um aparato administrativo, judicial, fiscal e comunicacional suficientemente robusto para o levar a declarar-se ao mundo como Estado Islâmico, não traz consigo a chave para a resolução da guerra da Síria. Muito menos a precipita para o seu final. Inaugura, isso sim, um novo capítulo do conflito que terá agora de se readaptar a uma nova realidade, sem dois dos seus mais relevantes actores: o Daesh, claro, mas também os Estados Unidos que, por desejo do Presidente Donald Trump, vão retirar as suas tropas do terreno, abdicando do papel tradicional de polícias daquela região do Médio Oriente.

Iranianos, russos, curdos, turcos, iraquianos e sírios – pelo menos estes – serão agora os protagonistas de uma guerra que já leva oito anos e que, de acordo com as Nações Unidas, tirou a vida a mais de 400 mil pessoas e provocou um êxodo sem precedentes – cinco milhões de refugiados e seis milhões de deslocados internos.

Reinventar-se para sobreviver

Também o Daesh não pode ser retirado da equação síria. Despojado do seu território, o grupo terrorista será obrigado a reinventar-se para sobreviver. Ou, mais concretamente, a regressar às suas raízes enquanto movimento clandestino, reagrupando-se em zonas remotas do Iraque e da Síria, investindo no combate de guerrilha e incrementando a sua capacidade de acompanhamento, coordenação e recrutamento de pequenas células de jihadistas espalhadas pelo globo.

Conta, para isso, com os milhares de combatentes que conseguiram escapar pelo deserto sírio-iraquiano, para além dos que se infiltraram entre os refugiados de guerra e até dos que, tendo sido detidos, aspiram reorganizar-se em prisões e campos de detenção dentro e fora de portas. Aproveitar o caos alimentado pelo conflito civil sírio, para manter vivo o ideário jihadista, constará sempre da lista de prioridades do Daesh. Com ou sem “Estado”.

Ascensão pelo terror

Entre 2014 não faltavam nas televisões e nos media ocidentais referências às bandeiras negras, aos cortejos aparatosos, às execuções sumárias e aos vídeos propagandísticos do Daesh. Mas o grupo que nesse ano proclamou o califado na Grande Mesquita de Mossul, no Iraque, pela voz do seu líder Abu Bakr al-Baghdadi, já era conhecido há mais tempo pelo Ocidente, ainda que sob um nome diferente.

A desarrumação territorial e política do Iraque que se seguiu à invasão anglo-americana de 2003 deu ao braço iraquiano da Al-Qaeda um protagonismo crescente, que ia para além da mera luta terrorista e que o levou a mudar o seu nome para Estado Islâmico do Iraque, em 2006.

Com o despontar da guerra na Síria, em 2011, Baghdadi decide expandir-se para o país vizinho. Dois anos depois, e na sequência de uma contestação assumida a Ayman al-Zawahiri – sucessor de Osama Bin Laden na liderança da Al-Qaeda –, o grupo proclama-se Estado Islâmico do Iraque e do Levante e controla diversas localidades sírias e iraquianas.

O ano de 2014 marca definitivamente a transformação do movimento jihadista em algo maior. Entre as principais conquistas do grupo constam Fallujah e Tikrit (Iraque), mas principalmente Mossul (Iraque) e Raqqa (Síria), duas das maiores e mais populosas da região.

Proclamando o Estado Islâmico e o califado em Mossul e estabelecendo em Raqqa a sua “capital”, o Daesh dá início ao reinado de terror que o colocou nas primeiras páginas dos jornais e no topo dos feeds das redes sociais de todo o mundo. Sob o signo do islamismo expansionista e da submissão de todos os aspectos da vida social, política e religiosa a uma interpretação restritiva e fundamentalista da sharia (lei islâmica), o grupo impôs às comunidades dos territórios que ocupava uma existência fanática e infernal.

Milhares de mulheres e crianças foram convertidas em escravas sexuais e centenas de jovens foram recrutados à força para as fileiras militares jihadistas. As decapitações, amputações e punições violentas dos inimigos do Daesh e de jornalistas estrangeiros tornaram-se comuns e foram amplamente difundidas pela Amaq, a sua agência noticiosa.

Alimentado pelo mediatismo, o monstro cresceu. E a bizarra e cruel experiência que se desenvolvia na Síria e no Iraque atraiu mais de 40 mil pessoas de 80 países diferentes, incluindo seis mil cidadãos da Europa Ocidental. Gente proscrita, desesperançada e agastada nas suas respectivas sociedades que se empolgou com a mensagem apocalíptica de Baghdadi e dos seus homens.

A reivindicação dos atentados terroristas que abalaram o coração da Europa a partir de 2015 – em Paris, Nice, Bruxelas, Berlim, Londres, Manchester ou Barcelona – e a cobertura noticiosa que mereceram, foi outra forma do Daesh difundir a sua doutrina, recrutar mais soldados e merecer a lealdade de outros grupos fundamentalistas islâmicos, desde a Líbia, à Nigéria ou ao Afeganistão.

De Raqqa e Mossul, o Daesh expandiu-se para Ramadi (Iraque) para Palmira e para Kobani (Síria), entre dezenas de cidades históricas da região, sustentado pelo crescimento do seu séquito e pelos lucros da exploração petrolífera. A isso somou a criação de tribunais e escolas islâmicas, a impressão de um jornal próprio e a implementação bem-sucedida de um sistema de colecta de impostos. Tudo alicerçado numa campanha de terror e crueldade que levou milhões a abandonarem as suas casas, a maioria em direcção à Turquia.

Queda pelas inimizades

Uma ordem territorial e moral tão violenta e disruptiva como aquela que o Daesh concebeu beneficiou do retraimento da Administração Obama na região – pelo menos na forma de intervenção directa – para se prolongar no tempo, mas acabou por granjear-lhe os inimigos que o viriam a sepultar.

Fallujah, em 2016, foi a primeira cidade de renome reconquistada ao grupo terrorista, pelo Exército iraquiano. Manbij, na Síria, caiu nesse Verão, recuperada uma coligação formada pelas SDF, Forças de Defesa do Povo (YPG, curdos) e forças ocidentais.

Os avanços curdos junto à sua fronteira motivaram a Turquia a avançar também, através do Norte da Síria, em investidas que tiveram como alvos tanto as milícias curdas como os territórios do Daesh. E numa orientação estratégica semelhante, o Exército leal ao Governo sírio de Bashar al-Assad, apoiado pela Rússia e pelo Irão, avançou pela região Ocidental do país, tomando cidades aos extremistas e empurrando, ao mesmo tempo, as forças opositoras ao regime para bolsas e enclaves junto a Damasco e a Idlib.

O ano de 2017 foi fatal para o Daesh. Perdeu Mossul para o Exército iraquiano, Deir Ezzor para Assad, Raqqa para as SDF e grande parte dos seus bastiões estratégicos e simbólicos, precipitando o colapso do seu suposto califado. E o território que, no seu auge, teve mais do dobro do tamanho de Portugal e onde chegaram a residir perto de dez milhões de pessoas, foi minguando ao longo do ano seguinte, acossado pelos vários inimigos do grupo terrorista. Que desde essa altura que não tem feito mais do que resistir e cair resistindo.

Este sábado os seus mais fanáticos e devotos soldados ficaram soterrados nos escombros incomensuráveis do seu fanatismo e devoção. E por lá permanecerão. Até ao próximo vazio de poder os voltar a chamar.