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Roger Eatwell

“No curto prazo os vencedores das eleições serão ou os partidos nacionais-populistas ou políticos como Johnson”

Roger Eatwell é um investigador britânico que diz que a vitória dos conservadores confirma uma tendência, nos países ocidentais, para elegerem “líderes fortes”. Fala numa adaptação bem-sucedida do primeiro-ministro à agenda populista.

Boris Johnson EPA

Em conversa com o PÚBLICO, o professor de Política Comparada da Universidade de Bath, Roger Eatwell, compara os resultados das eleições britânicas com outros dois fenómenos que estão a acontecer no mundo ocidental: o crescimento do populismo e o declínio da social-democracia.

E diz que Jeremy Corbyn “sofreu a face inversa do ‘síndrome’ Johnson”: “Foi percepcionado como fraco, em vez de forte”, principalmente devido às hesitações sobre o seu posicionamento em relação ao “Brexit”.

Como se explica esta enorme vitória dos conservadores?
A vitória do Partido Conservador assentou em três grandes eixos: eficiência da sua campanha; fragilidades na oposição; e um sistema eleitoral que tende a beneficiar os grandes partidos. Os conservadores apresentaram uma mensagem muito clara sobre o “Brexit”, prometeram o fim da austeridade e o investimento de fundos extra em sectores-chave, como o serviço nacional de saúde. Estas promessas convenceram os tradicionais eleitores trabalhistas brexiteers, principalmente nas Midlands e no Norte de Inglaterra – conquistas fundamentais para este resultado e suficientes para compensar a perda de votos junto dos conservadores remainers do Sul do país.

Qual o papel de Boris Johnson neste triunfo?
Mesmo sendo visto por muita gente como alguém que não é de confiança e que só se move por ambições pessoais, Johnson tem a fama de ser eficiente e de resolver os problemas – principalmente quando comparado com Theresa May, que era tida como hesitante e fraca. Parece haver cada vez mais indícios, nos países ocidentais, de que os eleitores querem líderes fortes, cujo modelo, nas democracias consolidadas, como a britânica, assemelha-se mais a Margaret Thatcher, do que aos líderes autoritários do passado.

Para além disso, Boris contou com uma enorme ajuda dos tablóides de grande tiragem, como o Sun ou o Daily Mail, jornais que gostam de personalizar a política e que apostam nas vendas a eleitores com menor educação académica. E contou com a ajuda do Partido do Brexit, que decidiu não concorrer aos lugares que os tories já controlavam. Ainda que a tendência seja para que as pessoas votem menos nos partidos pequenos em eleições legislativas, o voto brexiteer poderia ter-se dividido. Apesar da vitória, Johnson terá, no entanto, de trabalhar no duro depois de cumprido o “Brexit”, para manter este novo apoio das classes operárias, ao mesmo tempo que gere o conflito entre os tories liberais e os tradicionalistas, da linha ideológica One Nation.

Face ao descalabro do Labour, qual foi o maior erro de Corbyn?
Mesmo tendo uma boa reputação, sendo visto como um político autêntico e independente, e conseguindo atrair eleitores mais jovens, Corbyn foi, de um modo geral, um enorme ponto fraco para o Partido Trabalhista. De certa forma, sofreu a face inversa do ‘síndrome’ Johnson: foi percepcionado como fraco, em vez de forte, principalmente devido às hesitações em redor do seu posicionamento em relação ao “Brexit”. Houve também um sentimento, em crescendo, de que não estava a dizer a verdade sobre as suas posições antigas de esquerda radical.

O compromisso evasivo de negociar um novo acordo com a UE e colocá-lo a referendo, junto com a opção pela permanência, conseguiu manter alguns trabalhistas remainers a bordo, mas não contribuiu para melhorar a sua imagem. O posicionamento neutral levou muita gente a acreditar que, no fundo, o que Corbyn queria mesmo era que o país saísse da UE.

Tanto um, como outro caso, parecem acompanhar a tendência de crescimento do populismo na Europa.
Por quase toda a Europa vemos partidos tradicionais de centro-direita a pedir emprestada muita da agenda populista, para os ajudar a aliviar as críticas e a perda de votos. Áustria e Holanda são bons exemplos. Aqui no Reino Unido Boris Johnson utiliza regularmente expressões como “a vontade do povo”. Isto é uma linha totalmente distinta do conservadorismo britânico tradicional, que tem raízes no pensamento de Edmund Burke, deputado nos finais do século XVIII, segundo o qual os deputados e o Governo devem liderar e serem independentes da opinião pública. Paralelamente, os partidos sociais-democratas estão em enorme decadência.

Na Alemanha e na Suécia tiveram imenso poder. E mesmo em Portugal, que é uma excepção, até quando irão durar? De qualquer forma, sair ou ficar na UE não tem grande impacto neste fenómeno, o declínio destas duas famílias de partidos reflecte-se em rupturas mais profundas, nas divergências entre as classes trabalhadoras e a classe média, social-democrata, em questões como a imigração, os direitos LGBT ou a corrupção.

A estratégia dos LibDems também falhou rotundamente.
O sistema eleitoral britânico não beneficia os partidos pequenos. E desta vez estes foram ainda mais prejudicados pelo facto de a grande maioria dos eleitores ter olhado para o “Brexit” como a grande questão da eleição. Boris e Corbyn foram vistos como os únicos dois candidatos com possibilidades realísticas de poderem chegar a primeiro-ministro, por isso a atenção estava focada sobre eles.

A única excepção, junto dos pequenos partidos, foi o bom desempenho do Partido Nacional Escocês, que deverá continuar a insistir em trazer mais um referendo independentista para a agenda – ainda que Johnson se vá opor firmemente. Quanto a Jo Swinson, tentou desde cedo apresentar-se como candidata a primeira-ministra, mas foi encarada como uma fraca candidata e perdeu apoios de alguns remainers com a promessa de revogação do artigo 50.º e cancelamento do “Brexit”.

Os Liberais-Democratas vão ter de repensar o seu futuro, sendo que as suas melhores perspectivas de sucesso assentam na eleição de um novo líder trabalhista da ala mais à esquerda, que deixe o centro mais livre. Os conservadores também podem ajudar: se o “Brexit” for demasiado duro; se a negociação dos acordos comerciais demorar muito; se a economia tiver um mau desempenho; se os eleitores perceberem que os seus salários reduzidos não mudaram em função da saída da UE, etc.

Praticamente todos os que saíram dos tories ou do Labour falharam a sua eleição. Isto diz mais da fraqueza dos partidos pequenos ou da força dos grandes?
Historicamente quem sai dos grandes partidos perde quase sempre os seus lugares nas legislativas. É por isso que os casos de saídas dos dois principais partidos britânicos são muito raros. A maioria desses deputados não avaliou bem o impacto do crescimento do populismo e do declínio do Labour, ou da social-democracia. No curto prazo, os mais prováveis vencedores eleitorais serão ou os partidos nacionais-populistas ou políticos como Boris Johnson.