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Curdos iniciam último avanço contra derradeira fortaleza do Daesh na Síria

Centenas de crianças, incluindo filhas de jihadistas europeus, continuam alojadas sem quaisquer condições em campos no Nordeste sírio. 2018, diz a UNICEF, foi o ano mais mortífero do conflito para as crianças sírias.

Campo de deslocados nos arredores de Baghouz, província de Deir Ezzor Reuters/RODI SAID

Depois de permitirem a saída de dezenas de milhares de civis, na sua maioria mulheres e filhos de combatentes jihadistas, a coligação Forças Democráticas da Síria (FDS), formada e apoiada pelos Estados Unidos e liderada pela milícia curda YPG, recomeçou agora o seu assalto contra o último enclave do Daesh no Leste sírio, Baghouz. Esta vila é o que sobra do autoproclamado Califado, que em 2014 chegou a ocupar um terço do território da Síria e do Iraque.

Os combates reiniciaram-se durante a madrugada, depois de esgotado um novo ultimato dado aos combatentes do Daesh para se renderem.

As forças apoiadas pela aviação internacional fizeram “avanços modestos” na operação militar em curso, disse o comandante das FDS, Adnan Afrin, citado pela agência Reuters. Os combatentes enfrentam os disparos de snipers do Daesh e as minas terrestres deixadas pelos jihadistas em redor de Baghouz e tencionam completar os seus avanços com o mínimo de baixas civis, diz Afrin.

Na noite de domingo para segunda, “os combates foram muito violentos”, descreve o chefe de uma das unidades das FDS, Aras Orkeich. “Eles fizeram explodir viaturas armadilhadas que vinham na nossa direcção. Nós usamos os nossos atiradores furtivos emboscados para atingir os que têm armas”, explicou Orkeich.

“Se no decorrer dos avanços as nossas forças constatarem uma presença de civis, temos unidades especiais prontas a fazer o necessário para os afastar ou mesmo para os retirar das zonas de combate”, diz Orkeich, acrescentando que se não houver novas capitulações, as operações vão continuar.

“Conseguimos libertar uma série de posições que eles detinham. Estamos a avançar com o apoio aéreo e também terrestre da coligação internacional”, explicou outro comandante, Rustam Hasake, este ouvido pela televisão Al-Jazira. “O Daesh responde com armas pesadas e tentando cometer atentados suicidas.”

Há semanas que as FDS adiam este avanço para permitir a saída de civis da vila, a maioria mulheres e filhos de combatentes radicais. “As operações militares começaram. As nossas forças estão agora em combate com os terroristas e o assalto começou”, disse Mustafa Bali, chefe do gabinete de media das FDS, explicando que desde sábado que nenhuns civis saiam do enclave e que os combatentes sírios não observam mais civis na zona.

Combatentes das FDS transportam um jihadistas ferido nos combates em Baghouz Rodi Said/Reuters

“Os aviões da coligação anti-Daesh, dirigida pelos EUA, passaram a noite a bombardear depósitos de armas, enquanto disparos de tanques visavam posições jihadistas”, disse ainda Musfata Ali, que é um dos porta-vozes da coligação. Bali estima que restam “entre 1000 e 1500 combatentes” no interior de Baghouz.

Um porta-voz das FDS disse entretanto que as forças da coligação de grupos árabes e curdos mataram dezenas de jihadistas nos confrontos com o Daesh.

Desde Dezembro, quando as FDS lançaram esta operação, perto de 59 mil pessoas deixaram Baghouz, diz o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, uma ONG ligada à oposição com uma rede de activistas e médicos espalhada pela Síria. A maioria destas pessoas foram transferidas para o campo de deslocados de Al-Hol, a Nordeste, e ali chegaram em condições terríveis, depois de percorrerem longos trajectos.

Crianças morrem a caminho

Segundo a ONG International Rescue Commitee, mais de cem pessoas, na maioria crianças, morreram no caminho para Al-Hol ou pouco depois de ali terem chegado. Outra ONG, a Save the Children, diz que muitas crianças no campo mostram sinais de “sofrimento psicológico”. No início do mês, as Nações Unidas fizeram um apelo para uma recolha de fundos que permita evitar uma crise humanitária.

Num artigo publicado domingo no jornal francês Libération, dezenas de membros da sociedade civil francesa apelam ao Governo de Paris para repatriar as crianças francesas que se encontram neste campo. Segundo os signatários, “trata-se de uma centena; alguns nasceram na Síria, outros foram levados pelos seus pais, nenhuma escolheu nascer na zona ou integrar o Daesh, são vítimas das escolhas dos adultos”.

Os signatários dizem que dois terços destas crianças francesas têm “menos de seis anos”, vivem “com falta de água, de alimentos e de cuidados; algumas estão doentes e todas – profundamente marcadas pelo que passaram – têm o estigma dos traumatizados de guerra” e “se a França persistir em recusar repatriá-las estará a fazer delas bombas ao retardador”.

A UNICEF disse entretanto que 2018 foi o ano mais mortífero até agora para as crianças na Síria – a agência da ONU conseguiu verificar a morte de 1106 crianças, mas acredita que o número verdadeiro será muito maior. “Hoje existe um equívoco segundo o qual o conflito na Síria está rapidamente a aproximar-se do fim – não está”, sublinhou num comunicado a directora executiva da organização, Henrietta Fore. “Em partes do país, as crianças estão em tanto risco como em qualquer outra altura dos oito anos de conflito”, diz.

No ano passado, a principal causa de morte para as crianças foram munições por explodir, responsáveis por 434 mortes e ferimentos. Segundo Fore, 59 crianças morreram nas últimas semanas na zona de Idlib, onde a oposição continua a controlar território e a violência se tem intensificado. “A UNICEF volta a recordar às partes em conflito e à comunidade internacional que têm sido as crianças do país a sofrer mais e a perder mais. Cada dia de conflito é mais um dia roubado à sua infância”, diz Fore. Desde Janeiro, segundo a ONU, umas 60 crianças morreram a tentar chegar ao campo de Al-Hol, onde vivem mais de 65 mil pessoas que fugiram ao Daesh.

“A Síria continua a ser um dos lugares mais perigosos do mundo para se ser criança”, diz, a propósito dos mesmos dados, Carolina Anning, porta-voz da Save the Children.

Washington tem insistido com os países europeus para receberem os combatentes do Daesh que saíram da Europa com destino à jihad na Síria, tendo elogiado Marrocos por estar a repatriar os marroquinos que estavam no Nordeste. A Rússia e os EUA, escrevem os activistas e advogados no Libé, “já tomaram medidas efectivas para assegurarem o regresso das suas crianças”, apelando ao Estado francês para lhes seguir as pisadas.

Jihadistas na Síria e no Iraque

Apesar de estar prestes a perder a sua última bolsa de território, o Daesh já fez a sua transformação para organização clandestina. Muitos dos seus combatentes estão espalhados pelo deserto sírio e dali conseguem lançar atentados suicidas. De acordo com a agência de notícias turca Anadolu, os jihadistas ocupam agora o equivalente a 2% do território sírio.

Também no Iraque, onde perderam todas as grandes cidades que chegaram a governar, “os jihadistas têm bases a sul da cidade de Mossul, nas montanhas Hamrin e nas cidades de Hawja e Daqod”, diz a Jane’s Intelligence Review num relatório de Janeiro. A partir dessas posições, escreve a newsletter dedicada à segurança global e estabilidade, o grupo mantém capacidade para conduzir operações “ao longo de uma vasta área, incluindo Bagdad, as cidades de Mossul e Samarra, e daí em direcção à Síria e ao Irão”. “A guerra [contra o Daesh] ainda tem de ser ganha e, se alguma vez a venceremos, vai levar muitos anos e muitos mais civis irão perder as suas vidas”, disse a propósito dessa análise o perito em contraterrorismo Peter Vincent.

Manifestação em apoio das sírias no Dia da Mulher em Istambul Murad Sezer/Reuters

Segundo a agência de notícias turca, as YPG, que Ancara considera uma organização terrorista apesar da sua aliança com Washington, permitiram aos jihadistas reagruparem-se em zonas fora do seu controlo, deixando-lhes aberto o caminho em direcção à fronteira com a Turquia. A Anadolu garante que um acordo entre os curdos e o Daesh deixou em liberdade 300 combatentes. E enquanto o Daesh não ocupa mais do que 2% de partes do deserto sírio, as YPG controlam 28% do território do país. Washington, que as apoia, conta com 18 bases militares e tem mais de 2000 soldados nas zonas ocupadas pelo grupo com ligações ao PKK turco (Partido dos Trabalhadores do Curdistão).

Actualmente, na sequência de oito anos de conflito, as forças do regime de Assad já voltaram a ocupar 60% do país, enquanto a oposição militar e grupos armados que combatem o Governo se mantém no controlo de 10%, numa vasta zona das províncias de Deir Ezzor e Idlib, no Norte.

Domingo, numa intervenção no Sul da Turquia, o Presidente Recep Tayyip Erdogan voltou a prometer que Ancara vai “criar uma zona de segurança e os nossos irmãos sírios [refugiados na Turquia] poderão regressar a casa”. Erdogan explicou que se Washington não obrigar as milícias curdas sírias a saírem das zonas de fronteira, a Turquia “está pronta a lançar uma operação no Leste do Eufrates contra as forças de autodefesa turcas”.

A promessa de Erdogan

Ancara já enviou as suas forças para o interior da fronteira síria e estas chegaram a combater as YPG, no fim de 2016. Na altura, Erdogan acusava os EUA de estarem a apoiar inimigos da Turquia, garantindo que o Exército turco não permitiria uma fronteira controlada pelos curdos – as YPG são a milícia do Partido da União Democrática, que aproveitou a revolução e o lugar deixado vago pelo regime nas zonas sírias de maioria curda para se organizar politicamente em três distritos do Norte da Síria, na região a que os curdos chamam Rojava (Curdistão Sírio ou Curdistão Ocidental).

Enquanto os EUA sempre tiveram as YPG como seu principal aliado na luta contra o Daesh na Síria – são o grupo armado sírio mais bem armado e organizado –, a Turquia bombardeou em várias alturas as suas posições, exigindo-lhes que se afastassem da fronteira e regressassem às zonas que controlam desde 2012, territórios que só abandonaram para combater e expulsar jihadistas de zonas mais a Norte.

Erdogan relembra que adiou uma operação contra estas milícias em Dezembro, quando o Presidente americano, Donald Trump, decidiu retirar as 2000 forças especiais dos EUA na Síria. Na altura, recorda o líder turco, também Trump defendeu a necessidade de criar uma zona tampão de 30 km nos territórios sírios fronteiriços com a Turquia, uma ideia que Erdogan aprova desde que seja Ancara a controlar esta zona.

A poucos dias de se completarem oito anos desde o início das manifestações pacíficas contra o regime de Assad, em Março de 2011, estima-se que a guerra tenha morto meio milhão de pessoas e obrigado 5,6 milhões a abandonar o país, o que provocou a maior crise de refugiados no mundo desde a II Guerra Mundial. Outros 6,6 milhões de pessoas perderam as suas casas mas ficaram no interior da Síria, vivendo como deslocadas no seu próprio país.