Todos os artigos são redigidos segundo o português escrito em Portugal e não adoptam o novo Acordo Ortográfico.

Crise de identidade? Mas esse é o estado natural da França

Entre a depressão e a grandeza, a França continua a viver no seu estado natural: uma crise de identidade que não é bem uma crise de identidade.

Reuters/PHILIPPE WOJAZER

Há quem não resista a uma boa gargalhada logo que se começa a falar de uma crise de identidade. “Mas esse é o estado natural da França.” Continuando a conversa, também se pode chegar facilmente à conclusão contrária: esta crise de identidade é, precisamente, porque a França não tem crise de identidade nenhuma. Com uma História milenar, no centro de um continente cujas nações nasceram de guerras sucessivas e de sucessivas mudanças de fronteiras, a França vive, citando o politólogo Alain Duhamell, entre uma persistente “malaise”, palavra intraduzível, e os seus frequentes assomos de “grandeur”. “Sempre viveu entre triunfos e derrotas, conquistas e recuos, resplandecente e acabrunhada, deslumbrada com a sua própria grandeza, para mergulhar na mais profunda depressão. Tocando o fundo em Vichy para reencontrar a chama com De Gaulle, inventando a Europa e perdendo o Império, conquistando a prosperidade para cair na crise.”

O “declinismo obsessivo” é outro dos sintomas sobre o qual se escrevem dezenas e dezenas de ensaios. “Aos olhos do mundo ela conta, aos seus próprios olhos não é mais do que a sombra ou o espectro do que foi”. Douhamell escrevia estas palavras de desencanto em Maio de 2015. Muita água passou, entretanto, sob as pontes. A França nunca sossega. Emmanuel Macron foi eleito há dois anos anunciando que o seu país estava de regresso - ao palco da Europa e aos palcos do mundo. Prometeu o impossível: reformar uma economia que, no início do século, era uma das mas competitivas da Europa para se deixar abater pelos ventos de uma globalização que tem dificuldade em integrar.

As ruas

Sabia-se que os franceses preferem quase sempre as revoluções às reformas, a rua ao Parlamento. Foi o que aconteceu em Novembro, quando as ruas de Paris e de outras cidades francesas foram ocupadas, por vezes com violência, por centenas de milhares de pessoas que não vinham dos banlieues parisienses onde vivem, fechadas sobre si próprias, as comunidades de origem magrebina, mas dos bairros das classes médias das cidades de província, fartas de verem o seu estatuto social posto em causa pela falta de dinheiro ao fim do mês, revoltadas contra uma elite citadina cada vez mais distante, que estudou nas melhores universidades e que é viajante frequente do mundo globalizado.

O rosto alvo dessa contestação foi o do próprio Presidente da República, figura ainda ímpar entre os líderes das democracias europeias – pelo que simboliza e pelos poderes que concentra –, “elitista entre os elitistas”, do alto da sua juventude um pouco irreverente e da autoconfiança de quem sabe que é o “melhor aluno da classe”. Dois anos depois de ter sido eleito, Emmanuel Macron desceu do Olimpo onde habitam os Presidentes da França até serem chamados às pequenas dificuldades terrenas. Arregaçou literalmente as mangas, lançou um “grande debate nacional” – os franceses adoram debater –, ouviu o que lhe tinham a dizer. Podia ter repetidos as célebres palavras de De Gaulle em Argel, em 1958: “Je vous ai compris”.

A grande Alemanha

Macron perde na frente interna e arrisca-se a perder na frente europeia. A crise de identidade da França - a última, que Duhamell situa nos últimos 30 anos – nasceu também no dia em caiu o Muro de Berlim, confrontando-a de novo com o pesadelo de uma grande Alemanha no centro do continente. O euro nasceu da tentativa de Mitterrand amarrar a Alemanha unificada à integração europeia. Helmut Kohl fez-lhe a vontade. O euro acabou por transformar-se num poderoso instrumento de poder da própria Alemanha. Paris sofre com o desequilíbrio entre os dois extremos do eixo que faz rodar a Europa desde a sua fundação. A Alemanha deixou de ser a pacata República de Bona, modesta, católica e renana, para se transformar na República de Berlim, protestante, prussiana, poderosa. Lidar com esta realidade nova não é fácil para quem liderou a Europa durante os seus primeiros 30 anos.

A fragmentação identitária

A revista Le Point, onde escrevem mentes liberais como Franz-Olivier Giesbert ou Nicolas Bavarez, dedicou o seu número de 2 de Maio às inúmeras fracturas que rasgam o tecido social francês: “La Poudrière” – “Trois mois dans cette France au bord de la sécession”. Exagero? Talvez. O Le Point faz um retrato da França que vai muito para além da velha “fractura social”: “islamistas, identitários, indigenistas, descolonizadores, neo-evangélicos, gilets jaunes, territórios abandonados, novos censores de Sciences Po”. Um “barril de pólvora” que não deixa de ser idêntico ao que atravessa as democracias desenvolvidas do Ocidente, só que vividas à francesa, o que não é nunca a mesma coisa.

É neste clima de desencanto e de revolta que os franceses vão votar no domingo nas eleições europeias. São estas “fracturas” identitárias que também têm a sua tradução política num número jamais visto de listas concorrentes. São 34 e incluem as listas nacionalistas que não se contentam com o discurso radical de Marine Le Pen e aquelas que reflectem a fragmentação do tecido social em tono de novas identidades fechadas sobre si próprias e sobre as suas pequenas verdades, sobretudo à esquerda.

Há as listas “clássicas”: a União Nacional de Marine Le Pen; o Em Marcha de Macron; Os Republicanos da direita tradicional. Os próprios socialistas descaracterizaram-se numa lista que reúne o velho PSF ao movimento Praça Publica, deixando o antigo líder Benoît Hamon, caído em desgraça depois do fiasco de 2017, à frente da lista Gerações.s. Os gilets jaunes, já em declínio, fizeram um derradeiro esforço para constituir a “Aliance Jaune”. O antigo braço-direito de Marine le Pen, Florian Philippot, encabeça Os Patriotas. A velhinha Luta Operária resiste, solitária, tal como o Partido Comunista. A Europa-Ecologia-Os Verdes de Yannick Jadot faz boa figura entre os pequenos, como de resto noutros países europeus. A França Insubmissa de Jean-Luc-Mélenchon, outro velho conhecido da esquerda radical, tentou colar-se aos gilets jaunes mas com muito menos sucesso que Le Pen. Tem a sua própria lista.

O cabeça de lista da lista do Praça-Publica-PS, Raphael Gluksmann, provocou uma onda de protestos entre os velhos “elefantes” socialistas quando retomou a sua tese de que a França tem a sua quota-parte de responsabilidade no genocídio do Ruanda em 1994. A França anda sempre às voltas com o seu passado e leva tempo a reconhecer as suas páginas mais negras – a prática de tortura na guerra da Argélia ou a perseguição aos judeus durante a guerra. Foi preciso esperar por Chirac para ouvir da boca de um Presidente um pedido de desculpa aos judeus pelos crimes cometidos pela França.

“Em França, a campanha das europeias terá servido, como quase sempre, para fantasiar a Europa”, escreve Françoise Fressoz no Le Monde. As sondagens indicam um número elevado de abstencionistas, num país que não hesita em ir às urnas quando é preciso. “A Europa está mal e o funcionamento do seu Parlamento, que conta com 751 eleitos, parece tão distante daquilo que os franceses conseguem apreender que todos os candidatos desistiram de lhes explicar”, continua a colunista. Macron promete mil milhões de euros para a “transição ecológica” na Europa, uma das suas bandeiras mais recentes. Os Republicanos do antigo Presidente Sarkozy prometem um “sistema duplo” de fronteiras – nacionais e europeias. Os adeptos de Le Pen garantem que vão suprimir a Comissão e os Insubmissos de Mélenchon que a França vai sair dos tratados europeus. “Como se a França decidisse tudo”.

Uma polarização perigosa

Na verdade, a batalha política é bem mais simples - perigosamente simples. O jogo político passou a ter apenas dois grandes protagonistas: a União Nacional e o partido que pode derrotá-la. O mal não é de agora. Em 2002, os franceses ficaram em estado de choque ao descobrirem que a primeira volta das presidenciais tinha eliminado o candidato socialista para deixar em campo apenas o Presidente Jaques Chirac contra Jean-Marie Le Pen e a sua Frente Nacional – ainda o velho nacionalismo que sobrara dos tempos da II Guerra. A França republicana não hesitou. Chirac foi reeleito com mais de 80% dos votos. A Frente Nacional mudou de líder, mudou de discurso, limou os traços mais ofensivos do velho nacionalismo francês. Passou a ter cuidado com o anti-semitismo, centrando o fogo contra a imigração islâmica. Nicolas Sarkozy e François Hollande ainda representaram (em 2007 e 2012) a velha alternância entre os dois grandes partidos – o Partido Socialistas e aos herdeiros do gaullismo.

Hoje, o confronto é directo e sem intermediário entre a República em Marcha de Macron, que entrou na política francesa como um vendaval, e a União Nacional de Marine Le Pen. Tudo o resto é subsidiário deste combate de titãs, que não abona a favor da saúde da democracia francesa. Esta bipolarização extremada em que um dos pólos é um partido nacionalista tem um risco: em eleições em que não está em causa o Parlamento ou o Presidente, Marine pode vencer. Já aconteceu em 2014. Será um novo choque e uma pesada derrota para Macron. A Europa não entusiasma os franceses. Castigá-lo pode ser mais compensador. Mesmo que depois regresse a “malaise”, feita de dúvidas e de cepticismo, sempre prontos a estalar numa revolta.